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13 Março 2026 | Yuri Cavichioli

Clima de Copa? Não. Clima de Oscar!

Expectativa por novas estatuetas para o Brasil impulsiona mobilização e leva cerimônia para salas de cinema, bares e espaços culturais pelo país

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(Foto: Divulgação)

Já faz um tempo em que brasileiros nem dormiam ou acordavam bem cedo para acompanhar Ayrton Senna ou a seleção brasileira de futebol serem campeões. Nos últimos anos, é a arte que tem gerado esse fenômeno comportamental. Especialmente desde o ano passado, quando Walter Salles subiu ao palco do Oscar para receber a premiação de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui (Sony). O momento coincidiu com o Carnaval, como se estivesse dentro do samba-enredo de uma escola.



E não é que “essa coisa de Oscar” pegou por aqui? 

Um levantamento feito na primeira semana de março ajuda a mensurar esse movimento. Pesquisa da Ipsos com a comunidade Conectados indicou que seis em cada dez brasileiros pretendem assistir ao Oscar, enquanto 65% relatam um aumento no interesse pela premiação. O dado mais emblemático é simbólico: 89% afirmam queo sucesso de filmes nacionais no evento representa motivo de orgulho, o que demonstra como a presença brasileira na disputa tem ampliado o engajamento do público com a cerimônia.

Usando a maior festa brasileira como exemplo novamente, o Carnaval deste ano trouxe muitas fantasias e referências para destacar o filme que representa o Brasil no Oscar 2026: O Agente Secreto (Vitrine Filmes).

E como o longa parece ter ganhado o Brasil, era natural que essa “onda Pitombeiras” encarnasse e fosse aderida por várias frentes, entre elas as de exibição da cerimônia de entrega do prêmio em espaços públicos. Mais uma vez, um clima de Copa do Mundo — em ano de Copa —, onde o Brasil é um dos fortes candidatos a conquistar o(s) prêmio(s), passa a ocupar cinemas, bares e espaços culturais pelo país.

Diante dessa mobilização nacional em torno da presença brasileira na disputa, o Portal Exibidor conversou com players de diferentes segmentos do mercado para entender como eles estão transformando a transmissão do Oscar em experiências coletivas.

No Recife, cidade que dialoga diretamente com o universo criativo do longa, o histórico Cinema São Luiz organiza uma transmissão aberta ao público que pretende transformar a cerimônia em experiência coletiva. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, O Agente Secreto acompanha a trajetória de um agente infiltrado em uma complexa rede de interesses políticos e econômicos, em uma narrativa que combina tensão, comentário social e a atmosfera urbana característica do cinema do diretor, tendo a capital pernambucana como cenário.

A iniciativa reflete um movimento mais amplo em que espaços simbólicos da exibição passam a assumir também o papel de pontos de encontro para acompanhar a premiação. Ao extrapolar a experiência tradicional da sala escura e projetar o Oscar para o ambiente urbano, o São Luiz transforma a transmissão em evento cultural e reforça a dimensão coletiva que o momento vem adquirindo no país.

Segundo o curador do espaço, Pedro Severien, a mobilização parte da percepção de que a presença brasileira na disputa ultrapassa o feito individual do filme e representa um movimento simbólico para o audiovisual nacional. “Entendemos que era importante comunicar esse momento ao público e à própria comunidade do cinema pernambucano. Por isso, decidimos transmitir a cerimônia de maneira totalmente democrática, com distribuição gratuita de ingressos para quem quiser assistir dentro do Cinema São Luiz”, afirma.

A proposta inclui ainda a ocupação do entorno do equipamento cultural. A programação prevê atividades na Rua da Aurora, com apresentações de frevo, bonecos gigantes e estrutura de transmissão externa para garantir que o público acompanhe a premiação mesmo após a lotação da sala. “Quando chegarmos à capacidade máxima, não vai faltar tela para quem quiser assistir junto. A ideia é transformar a noite em um grande carnaval, porque entendemos que essa é uma conquista popular — não só da equipe do filme, mas também das políticas públicas e de toda a rede de artistas e realizadores do cinema pernambucano”, completa.

As atrações começam às 18h30, com tapete vermelho e recepção ao público, enquanto a transmissão ao vivo da cerimônia está prevista para as 21h. De acordo com Severien, a iniciativa busca aproveitar o momento de visibilidade para ampliar o espaço do cinema brasileiro no imaginário do público e fortalecer o vínculo entre espectadores e produção nacional.

No circuito exibidor comercial, transformar a premiação em experiência compartilhada surge também como estratégia de relacionamento e fidelização. Redes que tradicionalmente promovem eventos ligados ao calendário internacional voltam a apostar na transmissão como forma de ativar suas comunidades e estimular a recorrência de público. Em um momento em que o setor busca recuperar frequência e fortalecer vínculos com os espectadores, ações desse tipo funcionam como ferramentas de formação de plateia e reposicionamento da sala de cinema como espaço de convivência cultural.

Entre as redes exibidoras que mantêm a tradição de transformar o Oscar em evento presencial está o Estação, no Rio de Janeiro. O circuito voltará a transmitir a cerimônia em suas salas sem cobrança de ingresso, apostando em atividades paralelas para engajar o público. “Pela parceria com a Claro temos sinal de internet e acesso à Claro TV nos cinemas. Fazemos essa transmissão há muitos anos, comandada pelo Cavi⁩ Borges, com jogos, sorteios e um bolão do Oscar, além do concurso de sósias que estamos realizando desde o ano passado”, declara Adriana Rattes, sócia e diretora executiva do Estação Claro.

A continuidade dessas ações demonstra que o Oscar já ocupa, para determinados segmentos do público cinéfilo, um lugar comparável ao de grandes eventos esportivos — com direito a bolões, concursos temáticos e programações paralelas. Mais do que acompanhar vencedores, trata-se de celebrar a própria cultura de ir ao cinema e fortalecer o vínculo afetivo entre espectadores e as salas.

Iniciativas semelhantes também aparecem em circuitos exibidores com programação cultural estruturada. Em São Paulo, o Espaço Petrobras de Cinema preparou uma agenda especial ao longo do dia, com sessões de filmes indicados ao Oscar e uma mostra em homenagem a Kleber Mendonça Filho, culminando na transmissão da cerimônia em três salas do complexo. E, em Belo Horizonte (MG), o UNA Cine Belas Artes também terá exibição coletiva da premiação em várias salas. Segundo Patrícia Durães, diretora de projetos do circuito, a resposta do público foi imediata. “Abrimos ingressos para duas salas nas redes e, em uma hora e meia, ambas já estavam lotadas. Diante da procura, abrimos uma terceira para imprensa e convidados do cinema”, afirma.

Para além das salas de cinema

Esse cenário também reverbera fora do circuito de exibição. Produtoras e empresas do audiovisual passaram a enxergar o momento como oportunidade estratégica de articulação profissional e fortalecimento institucional do setor. “O cinema brasileiro vive hoje uma fase muito positiva, com filmes voltando a circular com força no exterior, participando de festivais, mercados e coproduções internacionais. Existe uma clara internacionalização do nosso cinema e isso fortalece toda a cadeia do audiovisual”, afirma Ricca Galdeano, produtor executivo e fundador da Quadrophenia Films

A produtora fará a exibição da cerimônia em sua sede, na zona sul da capital paulista, reunindo profissionais do setor, críticos, influenciadores e jornalistas. “Na Quadrophenia, acreditamos muito na ideia de comunidade em torno do cinema. Nosso espaço em São Paulo funciona como um hub de produção que reúne diferentes empresas e profissionais do setor, então faz parte do DNA da produtora abrir as portas com frequência para encontros como este. Reunimos equipe, parceiros e investidores dentro da própria casa para celebrar o cinema e fortalecer relações que viabilizam novos projetos. Fizemos a primeira edição desse encontro no ano passado e agora realizamos a segunda. Na quarta-feira seguinte também teremos um jantar dedicado a captadores de recursos, ampliando esse diálogo entre criação, produção e financiamento do cinema brasileiro.”

Entre espaços públicos, bares também retomam a iniciativa vista no ano passado, quando alguns transmitiram, em pleno Carnaval, a vitória de Ainda Estou Aqui. O Vale do Espinha - Bar e Cultura, em Salvador (BA), por exemplo, prepara programação artística antes da cerimônia e abrirá espaço para o público acompanhar o Oscar em telas instaladas no local. “A gente sempre buscou fazer esse link entre boemia e manifestações culturais. Já promovemos shows, teatro, exposições e até eventos ligados ao cinema. Transmitir o Oscar é mais uma forma de abraçar a cultura e oferecer uma experiência diferente ao público”, afirma Arthur Daltro, um dos sócios do estabelecimento. Segundo ele, a expectativa é de casa cheia, impulsionada pelo engajamento nas redes sociais e pela repercussão da ação na imprensa.

No Brasil, a exibição pública de conteúdos audiovisuais depende de autorização dos detentores dos direitos, conforme prevê a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998), que trata da execução em locais de frequência coletiva. Em transmissões ao vivo, como premiações ou eventos esportivos, as regras também seguem contratos de licenciamento firmados com emissoras, que podem impor restrições especialmente quando há cobrança de ingresso ou exploração comercial da exibição.

Procuradas pela reportagem, Claro e Sky foram contatadas, mas não responderam até o fechamento desta matéria.

Ainda que envolva questões operacionais e de direitos de exibição, a multiplicação dessas transmissões evidencia a dimensão que a presença brasileira na disputa vem alcançando dentro e fora das salas de cinema. Esse movimento indica que a repercussão internacional de O Agente Secreto não mobiliza apenas o público, mas ativa redes de negócios e colaboração dentro do próprio mercado. Ao transformar a noite do Oscar em ambiente de networking e celebração da indústria, o evento passa a funcionar também como catalisador de novos projetos e parcerias.

Parece que o vencedor é o Oscar: ganhou ainda mais a atenção — e o engajamento — dos brasileiros.

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