Vendas de ingressos cresce em todo o mundo, com destaque para desempenho de Japão e China
Estudo do FOCUS – World Film Market Trends analisou 82 mercados que venderam 4,98 bilhões de ingressos em 2025
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(Foto: Divulgação)
O último ano representou mais um passo do mercado cinematográfico global em direção aos números de antes da pandemia, e a Ásia foi o principal motor dessa recuperação. Um estudo do FOCUS – World Film Market Trends, apresentado pelo Observatório Audiovisual Europeu durante o Marché du Film em Cannes, no últimos mês, mostrou que foram vendidos 4,98 bilhões de ingressos em todo o mundo em 2025, um aumento de 3% em relação ao ano anterior.
A análise concentrou dados de 82 diferentes mercados, que abrangem cerca de seis milhões de habitantes e quase toda a totalidade da bilheteria mundial. Apesar de os 4,98 bilhões de ingressos vendidos representarem um aumento em relação ao último ano, ainda ficam cerca de 28% abaixo da média pré-pandemia de 2017-2019. O aumento da renda no último ano foi um pouco maior, com os US$ 29,56 bilhões representando mais 5% em relação a 2024, mas ainda cerca de 20% abaixo dos níveis pré-pandemia. Outro dado apresentado pelo estudo é a concentração do mercado, uma vez que os 10 maiores territórios representaram 77% das entradas em todo o mundo e 76% do faturamento.
O grande motor da recuperação foi a Ásia, com destaque para os desempenhos de China e Japão. O continente foi responsável por 54% da venda de ingressos global e 38% da renda, tornando-se a maior região em termos de público e receita. Enquanto a China vendeu 1,238 bilhão de ingressos, um aumento de 23% em relação ao ano anterior, o Japão atingiu 188,8 milhões de espectadores, um aumento de 31% em relação a 2024 e seu nível mais alto desde 2019. O título mais lucrativo de 2025, aliás, serve para ilustrar o momento: o chinês Ne Zha 2 (A2 Filmes) se tornou o primeiro filme de estúdio não americano a alcançar o topo das bilheterias globais, arrecadando cerca de US$ 2,06 bilhões em todo o mundo.
Por outro lado, contrastando com o mercado asiático, a Europa registrou uma queda de 5,4% em seus espectadores, de 841 milhões para 795 milhões, e de 3% na renda, ficando em US$ 7,59 bilhões. Um dos países "responsáveis" pela queda foi a França, que lidou com a falta de grandes sucessos em 2025. Enquanto diversos mercados europeus tiveram um aumento na venda de ingressos, o número de entradas vendidas na França no último ano caiu em 30 milhões.
Hollywood perde força e Japão ganha destaque
No último ano, a América do Norte apresentou números estáveis, com Estados Unidos e Canadá vendendo 780 milhões de ingressos, um aumento de 2% em relação a 2024, e atingindo o montante de US$ 9,15 bilhões. Mas, apesar da estabilidade, a grande indústria de Hollywood passou a lidar com o crescimento de outros mercados. Os filmes estadunidenses ainda dominam uma grande parte do mercado, mas hoje representam 52% dos ingressos vendidos em todo o mundo em comparação aos 63% registrados em 2019. Prova dessa queda de influência é o fato de os filmes de Hollywood terem vendido cerca de 48 milhões de ingressos a menos na Europa na comparação com o ano anterior.
Mas se alguém perde força, alguém tem que ganhar, certo? É nesse cenário que o cinema asiático começa a despontar, e os filmes do continente aumentaram sua participação de 27% em 2019 para 36% em 2025 na venda de ingressos, evidenciando uma clara mudança na composição da demanda global. Além de Ne Zha 2, outros três filmes asiáticos figuraram entre os 20 mais assistidos no último ano: o japonês Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito (US$ 793,49 milhões) e os chineses Detetive Chinatown - O Mistério de 1900 (US$ 500,28 milhões) e Nanjing: Luz na Escuridão (US$ 422,78 milhões).
O Japão, especificamente, ilustra muito bem a queda de influência de Hollywood, com os filmes norte-americanos representando apenas 20% da bilheteria total, bem abaixo da média pré-pandemia de 39%. As produções japonesas, por outro lado, conquistaram uma impressionante fatia de 76% do mercado, e os três principais filmes foram Demon Slayer, Kokuho - O Preço da Perfeição e Detective Conan: One-Eyed Flashback.
Para explicar o sucesso do mercado local, Naohiro Kaji, diretor da Divisão de Cultura e Indústrias Criativas do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, destacou que o ano de 2020 marcou um ponto de virada para o país, já que as receitas do exterior começaram a superar as do mercado interno em certos segmentos da indústria de conteúdo. "Antes, as vendas internacionais eram uma espécie de dinheiro extra, um bônus. Depois de 2020, a indústria cinematográfica japonesa começou a encarar isso como parte integrante do negócio."
Essa mudança, segundo ele, alterou o comportamento de investimento. Se a receita internacional não é mais vista como um bônus, mas como parte normal do modelo de negócios, orçamentos de produção maiores se tornam mais fáceis de justificar. "É por isso que a qualidade está aumentando e o público global está descobrindo o cinema japonês."
Em 2025 o Japão produziu 694 longas-metragens nacionais, o maior número já registrado e o segundo maior volume de produção mundial, atrás apenas da Índia, que lançou 768 filmes. Em comparação, a Europa produziu cerca de 2.522 filmes em todos os mercados, enquanto a produção global de longas-metragens para cinema foi de aproximadamente 7.707 filmes.
Kaji também afirmou que a adaptação está no centro da estratégia de conteúdo do Japão, cada vez mais organizada em torno do que o governo chama de "IP360". A ideia é desenvolver a propriedade intelectual em filmes, mangás, animes, jogos e música, em vez de tratar o cinema como um setor isolado. "Os mangás, animes e jogos japoneses são muito, muito cativantes”, disse ele. “A indústria cinematográfica também pode aproveitar essas vantagens."