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24 Junho 2026 | Mônica Herculano

CineOP: “Preservação audiovisual precisa ser reconhecida como responsabilidade coletiva”

Coordenadora da Mostra de Ouro Preto defende que preservar não diz respeito apenas à conservação das obras

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(Foto: Divulgação)

Começa nesta quinta-feira (25/6) e segue até a próxima terça (30) a 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, dedicada ao cinema como patrimônio cultural. Realizado anualmente na cidade histórica de Ouro Preto (MG), o evento articula preservação, história e educação, e traz uma seleção de filmes históricos, produções contemporâneas, obras restauradas, trabalhos realizados em contextos educativos e títulos infantojuvenis.
 
Ao todo, neste ano serão 135 filmes – 33 longas, quatro médias-metragens e 98 curtas –, do Brasil, Argentina, Colômbia, Uruguai, Bolívia, Estados Unidos e Alemanha. Entre os brasileiros destacam-se produções do Rio de Janeiro (29 filmes), São Paulo (21), Minas Gerais (12) e Pernambuco (5), além de Bahia, Paraná, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Alagoas, Goiás, Pará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Roraima e Sergipe.
 
A programação está dividida em 42 sessões, que acontecem em três espaços principais: o Centro de Artes e Convenções da UFOP, sede do evento e do Cine-Teatro Petrobras; a Praça Tiradentes, com o Cine-Praça, destinado à abertura, ao encerramento e às exibições ao ar livre; e o Cine-Museu, instalado no Anexo do Museu da Inconfidência. Parte dos títulos também poderão ser vistos gratuitamente pela plataforma www.cineop.com.br.
 
Em entrevista ao PORTAL EXIBIDOR, Raquel Hallak, diretora da Universo Produção e coordenadora geral da CineOP, fala sobre a importância da atuação articulada entre os agentes do setor para ampliar o acesso a filmes restaurados, as novas tecnologias para preservação e como a relação entre memória e contemporaneidade pode levar novos públicos às salas de cinema. 
 
EXIBIDOR: A CineOP tem como característica tratar o audiovisual como patrimônio e chega à sua 21ª edição com o tema "Um país existe nas imagens que preserva". A preservação audiovisual ainda é vista por muitos como um tema restrito aos especialistas. Como aproximar essa discussão de exibidores, distribuidores e do próprio público?
 
Raquel Hallak: A preservação audiovisual precisa deixar de ser compreendida apenas como uma atividade técnica realizada por especialistas e passar a ser reconhecida como uma responsabilidade coletiva de toda a cadeia do audiovisual. Quando falamos em preservação, estamos falando da memória cultural do país, da garantia de acesso às obras para as futuras gerações e da possibilidade de manter vivo um patrimônio que ajuda a compreender nossa história, nossa diversidade e nossa identidade.
 
Exibidores, distribuidores, plataformas, festivais e o próprio público têm um papel fundamental nesse processo. Toda vez que uma obra restaurada volta às telas, encontra novos espectadores ou é incorporada a ações educativas e formativas, a preservação ganha sentido social e cultural. A aproximação acontece justamente quando conseguimos demonstrar que preservar não é guardar filmes em depósitos, mas garantir que eles continuem vivos, circulando, sendo vistos, debatidos e ressignificados.
 
A CineOP foi idealizada e tem atuado nesse sentido ao reunir profissionais, instituições e públicos diversos em torno de uma reflexão que conecta memória, patrimônio, mercado e formação. O tema desta edição reafirma que as imagens preservadas são parte fundamental da construção de um país e de sua memória coletiva.
 
EXIBIDOR: Nos últimos anos, temos visto um interesse crescente por versões restauradas e relançamentos de clássicos. O que explica esse movimento? Há uma demanda reprimida do público e uma oportunidade ainda pouco explorada pelo mercado exibidor?
 
RH: Sem dúvida existe uma demanda crescente por esse tipo de experiência. Vivemos um momento em que diferentes gerações buscam conexões com a memória, com a história do cinema e com obras que marcaram épocas. Ao mesmo tempo, os processos de restauração têm alcançado níveis de qualidade que permitem ao público redescobrir esses filmes em condições muitas vezes superiores às de suas exibições originais. Há também uma dimensão afetiva importante. As pessoas desejam revisitar filmes que marcaram suas trajetórias e, ao mesmo tempo, apresentar essas obras às novas gerações. Isso cria oportunidades para o mercado exibidor ampliar sua programação e diversificar sua oferta.
 
O patrimônio audiovisual brasileiro e internacional possui um enorme potencial de circulação ainda pouco explorado. Clássicos restaurados podem dialogar com mostras temáticas, sessões especiais, ações educativas e estratégias de formação de público. Trata-se de um campo com potencial cultural e econômico que merece atenção crescente do setor.
 
EXIBIDOR: O Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros chega à sua 21ª edição. Que discussões têm surgido sobre a criação de políticas e mecanismos que facilitem a disponibilização e a circulação das obras preservadas para o mercado exibidor e para novos públicos? E como você vê a evolução dessas conversas nos últimos anos?
 
RH: O Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros tem sido, ao longo de 21 anos, um espaço permanente de articulação política, técnica e institucional do setor da preservação audiovisual no Brasil. Entre os temas recorrentes estão a necessidade de políticas estruturantes para preservação, a ampliação dos investimentos em infraestrutura, em restauração e digitalização, o fortalecimento das instituições de guarda e a criação de mecanismos que facilitem o acesso público e a circulação das obras preservadas.
 
Nos últimos anos, observamos uma evolução importante desse debate. A preservação passou a ser compreendida de forma mais ampla, associada não apenas à conservação dos materiais, mas também à difusão, ao acesso e à circulação das obras. Cresceu a percepção de que não basta preservar; é preciso garantir que os conteúdos retornem à sociedade. Não existe preservação sem acesso. Também avançaram as discussões sobre cooperação entre instituições, compartilhamento de infraestrutura, digitalização de acervos, preservação digital e modelos que possam ampliar a presença dessas obras em salas de cinema, festivais, plataformas e projetos educativos. A compreensão de que a preservação só se completa quando a obra volta a circular e encontra novos públicos tem ganhado cada vez mais força.
 
Um dos resultados mais relevantes desse processo foi a elaboração do Plano Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, marco importante para a organização das políticas de preservação no país. Outro legado fundamental é a Carta de Ouro Preto, documento oficial elaborado coletivamente ao final de cada edição do Encontro. A Carta reúne as resoluções finais dos participantes e registra diretrizes, prioridades, reivindicações e demandas do campo da preservação audiovisual. Ao longo de mais de duas décadas, esse conjunto de documentos tornou-se um importante instrumento de referência para o setor, oferecendo um retrato do cenário da preservação audiovisual brasileira em cada momento histórico, registrando seus avanços, desafios, conquistas e perspectivas futuras.
 
As discussões acumuladas ao longo das 20 edições reforçam uma compreensão cada vez mais compartilhada pelo setor: preservar é também garantir circulação, acesso e encontro entre as obras e seus públicos.
 
EXIBIDOR: A sustentabilidade dos acervos é uma preocupação crescente. O que ainda falta em termos de políticas públicas, financiamento e incentivos para garantir não apenas a preservação, mas também a continuidade do trabalho das instituições responsáveis por esse patrimônio?
 
RH: O principal desafio é transformar a preservação audiovisual em política de Estado permanente. Os acervos demandam investimentos contínuos, planejamento de longo prazo, infraestrutura adequada, atualização tecnológica e equipes especializadas. Não se trata de uma ação pontual, mas de uma responsabilidade permanente. É necessário ampliar mecanismos de financiamento específicos para preservação, restauração, digitalização e gestão de acervos. Também é fundamental fortalecer institucionalmente cinematecas, arquivos, museus e centros de documentação, reconhecendo seu papel estratégico para a cultura brasileira.
 
Outro aspecto importante é a criação de políticas integradas que articulem preservação, pesquisa, educação e difusão. Quanto mais as obras preservadas circularem e gerarem impacto cultural e social, maior será o reconhecimento público da importância desses investimentos.
 
EXIBIDOR: Como salas de cinema, cinematecas, distribuidoras e festivais podem atuar de forma complementar para valorizar e ampliar o acesso a obras restauradas e ao patrimônio audiovisual brasileiro?
 
RH: A valorização do patrimônio audiovisual depende de uma atuação articulada entre todos os agentes do setor. As cinematecas preservam e pesquisam; os festivais apresentam, contextualizam e promovem encontros e reflexões; as distribuidoras estruturam estratégias de circulação; e as salas de cinema oferecem a experiência coletiva de fruição dessas obras. Quando esses agentes trabalham de forma integrada, criam-se condições para ampliar significativamente o acesso do público aos filmes restaurados. Sessões especiais, retrospectivas, mostras temáticas, debates, ações educativas e parcerias institucionais podem fortalecer a presença dessas obras no circuito cultural.
 
A experiência da CineOP demonstra que a articulação entre preservação, educação e exibição é capaz de formar novos públicos e ampliar o reconhecimento do cinema como patrimônio cultural.
 
EXIBIDOR: Em um momento em que inteligência artificial, digitalização e novas tecnologias transformam a forma como os conteúdos são produzidos, preservados e consumidos, quais oportunidades e desafios essas mudanças trazem para a preservação audiovisual?
 
RH: As novas tecnologias oferecem oportunidades extraordinárias para a preservação audiovisual. Ferramentas de digitalização, restauração digital, catalogação automatizada e inteligência artificial podem acelerar processos, ampliar o acesso aos acervos e contribuir para a recuperação de materiais em estado crítico. Ao mesmo tempo, surgem desafios importantes.
 
A rápida obsolescência tecnológica exige atualização constante de sistemas e formatos de armazenamento. Além disso, o uso da inteligência artificial em processos de restauração demanda critérios éticos e técnicos rigorosos para garantir a integridade e a autenticidade das obras. Outro desafio fundamental é a preservação da produção contemporânea, cada vez mais digital e distribuída em múltiplas plataformas. Precisamos desenvolver estratégias capazes de assegurar que os registros audiovisuais produzidos hoje permaneçam acessíveis no futuro.
 
EXIBIDOR: A programação da CineOP reúne pré-estreias, obras restauradas e filmes contemporâneos. Como um festival com esse perfil pode contribuir para criar pontes entre memória, formação de público e novas oportunidades de circulação para o cinema brasileiro?
 
RH: A CineOP acredita que memória e contemporaneidade não são dimensões separadas, mas complementares. Ao colocar em diálogo obras restauradas, produções recentes e atividades formativas, a Mostra cria oportunidades para que diferentes gerações de espectadores compreendam o cinema brasileiro como uma trajetória contínua de criação, inovação e patrimônio. Esse encontro entre passado e presente possibilita conhecermos quem nós somos, fortalece nossa identidade, amplia o repertório do público, atua na formação crítica e contribui para a valorização da produção nacional. Ao mesmo tempo, cria novas possibilidades de circulação para obras históricas e contemporâneas, aproximando realizadores, instituições, pesquisadores, distribuidores, exibidores e espectadores.
 
A CineOP, além de exibir filmes, atua como um espaço de reflexão, articulação e construção de políticas para o setor. É nesse cruzamento entre memória, educação e mercado que surgem novas perspectivas para o futuro do cinema brasileiro.

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