08 Julho 2026 | Yuri Cavichioli
Animação brasileira busca transformar reconhecimento internacional em mercado mais sólido
Produtores defendem avanços em distribuição, formação de público e políticas de longo prazo para consolidar crescimento
A presença internacional da animação brasileira tornou-se cada vez mais frequente nos últimos anos. Agora, com maior reconhecimento, produtores, realizadores e representantes do setor passaram a discutir outro desafio: transformar prestígio em uma indústria capaz de sustentar sua atividade econômica continuamente.
Esse cenário começou a mudar gradualmente com produções brasileiras passando a disputar espaço em festivais, mercados especializados e rodadas de negócios que reúnem alguns dos principais compradores e investidores da animação mundial. Com isso, o debate também deixou de girar apenas em torno da produção de filmes e passou a incluir assuntos como competitividade internacional, desenvolvimento de propriedades intelectuais, formação de profissionais e mecanismos de financiamento.
A história ganhou novos capítulos com a participação brasileira no último Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy e no Mifa (Marché International du Film d'Animation), considerado o principal mercado internacional dedicado exclusivamente à animação, com uma delegação formada por 27 empresas e 36 profissionais. Na Ásia, produções nacionais também integraram a programação da última edição do Chongqing International Animation Film Week e do Festival Internacional de Cinema de Xangai, como parte das atividades do Ano Cultural Brasil-China.
O PORTAL EXIBIDOR conversou com alguns dos profissionais que estiveram nesses eventos. E, apesar dos diferentes pontos de vista, todos convergem para um mesmo diagnóstico: a animação brasileira já demonstrou sua capacidade criativa e técnica. Agora é preciso avançar para ter empresas mais fortes, produções contínuas e um mercado capaz de sustentar esse crescimento.
Em Annecy, além das rodadas de negócios organizadas pelo Brazilian Content, produções nacionais participaram de competições oficiais, sessões de pitching (apresentações de projetos para investidores, coprodutores e distribuidores) e encontros com representantes de diferentes mercados. "Tivemos produções e projetos ocupando diferentes espaços do festival e do Mifa. São exemplos que demonstram uma indústria presente em diferentes etapas da cadeia da animação, desde o desenvolvimento de projetos até obras em circulação internacional", conta Lucas Soussumi, gerente executivo do Brazilian Content.
Mas reduzir essa importância ao calendário de festivais seria simplificar um processo muito mais longo. Assim como em outras linguagens audiovisuais, na animação, um longa-metragem pode levar cinco, seis ou até sete anos entre desenvolvimento, produção e finalização. E ele ainda tem características próprias: além de roteiro, direção de arte e finalização, comuns a qualquer filme, passa por etapas como storyboard, animatic (versão preliminar do filme que define ritmo e montagem), a animação em si e composição. Isso significa que boa parte das obras que hoje estreiam em mercados internacionais começou a ser concebida quando o cenário nacional de investimentos, políticas públicas e financiamento era muito diferente do atual.
Para Priscilla Kellen, diretora do longa Papaya, a atual presença brasileira no exterior é consequência de um trabalho construído nos últimos anos, e não de uma mudança repentina. "Acho que o Papaya faz parte de uma safra de filmes, não só de animação, mas de produções brasileiras em geral, que são resultado dos investimentos feitos no audiovisual nos últimos dez anos. Até porque é um filme que levou sete anos entre desenvolvimento, produção e finalização."
Também houve, segundo ela, uma mudança na percepção internacional sobre a animação produzida no Brasil. Se antes os nossos estúdios eram lembrados principalmente pela capacidade de executar projetos estrangeiros, hoje cresce o interesse por produções concebidas no próprio país, com identidade autoral e potencial de circulação global. "Na animação, especialmente na última década, houve um investimento muito importante no fortalecimento do setor. O Brasil se consolidou como um mercado criativo e muito inovador, deixando de ser visto apenas como fornecedor de mão de obra para produções internacionais", explica a cineasta.
Essa leitura também aparece na avaliação de Letícia Friedrich, também envolvida em Papaya, como coprodutora. "A animação brasileira sempre foi uma área de excelência dentro do audiovisual nacional. Nos últimos anos, conquistou reconhecimento nos principais festivais internacionais, como Annecy, Ottawa, Cannes, Locarno e tantos outros, além de ter recebido uma indicação ao Oscar e de marcar presença constante no Prêmio Quirino desde sua criação. Isso demonstra que existe um reconhecimento consolidado da qualidade artística, da criatividade e da capacidade técnica dos nossos estúdios e realizadores."
No mercado audiovisual, propriedades intelectuais são personagens, histórias e universos criados pelos próprios estúdios e que podem gerar valor em diferentes frentes, como cinema, televisão, plataformas digitais, licenciamento de produtos, livros, games e outras extensões comerciais. É justamente esse tipo de ativo que diferencia os principais polos mundiais de animação.
Para Soussumi, a indústria brasileira já demonstrou que reúne condições para disputar espaço também nesse segmento e a qualidade técnica deixou, de fato, de ser o principal diferencial competitivo. "O talento brasileiro já está comprovado. O desafio agora é garantir que nossas empresas tenham as mesmas condições de competitividade oferecidas por outros países, transformando esse talento em uma indústria cada vez mais sólida, sustentável e internacionalizada."
A internacionalização de IPs, porém, não depende apenas da iniciativa das empresas. Ela também passa pelos instrumentos de cooperação firmados entre governos. Segundo o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares, a animação integra a estratégia brasileira de internacionalização do audiovisual, que inclui acordos voltados à coprodução, circulação de obras, intercâmbio de profissionais e cooperação técnica. Hoje, memorandos firmados com China, França, Chile e Nigéria aguardam entrada em vigor, enquanto negociações seguem com Japão, Coreia do Sul, México e Nova Zelândia.
Onde os negócios começam
Quem vai a um festival costuma lembrar dos filmes exibidos e premiados. Para quem atua na indústria audiovisual, entretanto, o principal trabalho acontece fora das salas: nos mercados especializados onde produtores, distribuidoras, plataformas, emissoras, agentes de vendas e investidores negociam projetos que, muitas vezes, ainda nem saíram do papel. E é nesse ponto que a animação brasileira vive hoje sua principal transição.
No Mifa, realizado paralelamente ao Festival de Annecy, durante quatro dias, centenas de reuniões aproximam empresas de diversas nacionalidades em busca de financiamento, coproduções, distribuição internacional e desenvolvimento de novos projetos. Para muitos participantes, o festival funciona como vitrine; o mercado, como espaço onde os negócios realmente começam.
Parte importante da delegação brasileira chegou ao evento neste ano levando projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, em busca de parceiros capazes de dividir investimentos, abrir mercados ou contribuir para que uma produção avance até sua conclusão. Segundo Soussumi, o trabalho do Brazilian Content começa muito antes da abertura do mercado e costuma continuar por meses depois do encerramento. "Além das reuniões de negócios das empresas, um dos principais objetivos é ampliar a presença internacional da animação brasileira. Aproveitamos o mercado para realizar encontros com representantes de diferentes países, festivais e instituições, buscando abrir novos mercados, fortalecer parcerias e identificar oportunidades que possam se transformar em futuras ações de internacionalização."
O Brazilian Content também procura aproximar executivos estrangeiros da produção nacional durante eventos realizados aqui no Brasil. "Não basta levar nossas empresas ao exterior; também precisamos criar oportunidades para que executivos estrangeiros conheçam o potencial da produção brasileira em nossos próprios mercados e festivais", defende. Os resultados, no entanto, dificilmente podem ser medidos apenas pelo número de contratos assinados durante os eventos em si. Com frequência, o principal ativo construído nesses encontros é a relação de confiança entre empresas que voltarão a negociar ao longo dos meses seguintes.
No caso da animação em curta-metragem Letra de Mão, essa abertura de conversas foi o principal resultado do Mifa Pitch, e não a assinatura imediata de contratos. Foi essa a experiência vivida pela cineasta Radhi Meron. "O principal retorno é o feedback e o contato direto com produtoras de fora. Um projeto em desenvolvimento como o meu pode prospectar parceiros de produção e desenvolvimento. Conversei com várias produtoras que se interessaram pelo nosso projeto e agora vamos manter essas conversas aquecidas. Nem toda conversa vira uma coprodução imediata, mas o simples fato de criar esse canal aberto já abre portas para futuras parcerias em outros projetos."
Além de abrir portas para negociações internacionais, a participação em festivais também pode amplificar a visibilidade de um filme em seu próprio país. Foi o que aconteceu com Amadeo e o Hipotético Mundo Novo. Segundo Brenda Lígia, co-diretora da animação em longa-metragem, a estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Xangai despertou a curiosidade do público brasileiro antes mesmo do lançamento comercial e ajudou a impulsionar a divulgação do longa. "O fato do nosso filme ter tido estreia internacional na China desperta a curiosidade dos espectadores brasileiros. Tivemos a sorte de contar com bastante mídia espontânea, o que também atiça a vontade do público assistir. Acredito que isso possa facilitar a carreira do filme em relação à distribuição e parcerias."
Caminhos para a sustentabilidade
O desafio de tornar essa indústria sustentável e mais competitiva também reflete mudanças ocorridas no próprio mercado internacional. A redução das encomendas por parte de plataformas de streaming, a reorganização dos grandes grupos de mídia e a disputa mais intensa por financiamento tornaram a continuidade da produção um desafio compartilhado por estúdios de diferentes países. Ainda assim, para Soussumi, parte dessa resposta também passa pelo ambiente regulatório brasileiro. "A regulamentação dos serviços de streaming e a criação de mecanismos que fortaleçam a competitividade das empresas brasileiras são fundamentais para garantir espaço para a produção nacional nas novas janelas de distribuição."
Já Kellen chama a atenção para a necessidade de manter os estúdios produzindo continuamente. Sem previsibilidade de editais e mecanismos permanentes de desenvolvimento, eles passam meses — ou até anos — sem novos projetos, interrompendo equipes que levaram muito tempo para ser formadas. "É importante haver editais e programas de desenvolvimento de forma constante, para que os profissionais consigam manter uma trajetória na área e os estúdios não precisem interromper suas atividades entre uma produção e outra", sugere.
É justamente esse fluxo permanente que sustenta a cadeia da animação, complementa Friedrich. Mas nos últimos anos houve, segundo ela, uma descontinuidade desse processo. “Mudanças nas políticas públicas e também transformações no mercado privado, com fusões e reestruturações de grandes grupos, reduziram significativamente a continuidade dos investimentos na produção de animação. Por isso, acredito que o principal desafio hoje seja garantir continuidade nos investimentos em produção. É isso que sustenta toda a cadeia: mantém talentos no país, fortalece os estúdios, gera novos projetos e, consequentemente, cria condições para ampliar a distribuição, a exibição e a formação de público no mercado brasileiro."
A continuidade tem impacto direto sobre o principal patrimônio dos estúdios: seus profissionais. Especialistas em storyboard, layout, modelagem, animação, composição, iluminação e efeitos visuais levam anos para alcançar alto nível técnico. Quando o ritmo de produção diminui, parte dessa mão de obra migra para empresas estrangeiras que conseguem oferecer maior estabilidade.
Manter a produção ativa, porém, resolve apenas parte do desafio. Depois que um longa é concluído, começa outra etapa decisiva: fazer com que ele encontre espaço para circular e alcançar o público. Enquanto países como França e Japão consolidaram ao longo de décadas um público habituado a consumir animações destinadas a diferentes faixas etárias, no Brasil o gênero ainda permanece fortemente associado ao público infantil. Essa percepção influencia estratégias de lançamento, tempo de permanência em cartaz e até o interesse de distribuidores por determinados projetos.
"Mais do que produzir, precisamos fortalecer a distribuição, ampliar os espaços de exibição e formar uma audiência que reconheça a animação como uma linguagem para todas as idades, e não apenas para crianças", completa Ligia.
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