"Boom" das adaptações literárias impulsiona cinema e cria novas audiências em via de mão dupla
Além de levar um público já consolidado para as salas, produções baseadas em livros fortalecem o mercado editorial
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(Foto: Reprodução)
A Fantástica Fábrica de Chocolate, Wicked, Jogos Vorazes, Percy Jackson e Harry Potter possuem mais em comum do que o fato de serem grandes sucessos de bilheterias e mobilizarem milhões de fãs pelo mundo. Todas essas obras são exemplos de adaptações que romperam as páginas dos livros para impulsionar o mercado cultural em outro formato. A prática está presente na indústria do entretenimento desde o final do século XIX, quando, por exemplo, Cinderela foi adaptado para um curta-metragem de seis minutos em 1899. Mas o verdadeiro "boom" aconteceu no início da última década.
De acordo com a coluna The Rewind Zone, da plataforma Taleventry, 75% dos filmes produzidos em 1984 nos EUA eram obras originais, número que mudou drasticamente nos anos 2010, quando mais de 70% das produções foram derivadas de livros. A diferença, de acordo com a publicação que funciona como um banco de dados sobre a cultura pop , representa o momento em que a Geração Z iniciou um grande movimento de ocupação das salas de cinema e passou a procurar sagas que fizeram parte de sua infância. Isso é explicado pela preferência desse público por conteúdos "mais curtos", uma vez que filmes possibilitam um consumo rápido, enquanto a leitura completa de uma saga pode levar semanas ou meses.
O PORTAL EXIBIDOR conversou com players do mercado para saber o impacto desse movimento nas produções brasileiras. Nas últimas semanas, recebemos diversas notícias sobre adaptações literárias para as telas, mas elas não são uma novidade por aqui: grandes clássicos da nossa cinematografia vieram da literatura, como O Auto da Compadecida, Cidade de Deus, Lavoura Arcaica e, mais recentemente, A Vida Invisível e Ainda Estou Aqui, e mostram que essa movimentação não se trata de algo passageiro.
No entanto, segundo o diretor Allan Deberton, fundador da produtora Deberton Filmes, que está trabalhando na adaptação de O Rio Que Me Corta Por Dentro, de Raul Damasceno, hoje existe muito mais diálogo entre os mercados editorial e audiovisual do que há alguns anos. "Aos poucos, estamos entendendo que adaptar livros brasileiros também é uma forma de fortalecer nossos autores, criar propriedades intelectuais mais sólidas e fazer nossas histórias circularem para públicos cada vez maiores, dentro e fora do Brasil", diz. Além disso, nos últimos tempos, as redes sociais têm ajudado a aproximar os dois universos.
Mas como isso funciona na prática? O autor, roteirista e quadrinista Pedro Ivo, que trabalha na adaptação cinematográfica da trilogia O Cidadão Incomum em parceria com a O2 Filmes, acredita que nem todo livro ou quadrinho necessariamente será um bom filme, portanto é necessário entender o timing de fazer essa movimentação. "As produtoras fazem um paralelo do quanto essa adaptação dialoga com o momento cultural que estamos vivendo e usam a base fãs da obra original para mapear o interesse social. Porque, claro, você precisa calcular os riscos.”
Além disso, é importante lembrar que cinema e literatura possuem forças diferentes, por isso é necessário um cuidado para preservar a essência da obra original ao mesmo tempo que se adapta a linguagem para um novo formato. "A literatura consegue entrar na mente dos personagens e explorar pensamentos e sentimentos de uma forma muito íntima. Já o cinema precisa transformar tudo isso em imagem, som, performances e ritmo”, pontua Deberton. “Por isso, adaptar um livro não é simplesmente filmar o que está escrito, mas encontrar uma linguagem cinematográfica capaz de transmitir a mesma emoção. Às vezes personagens são condensados, acontecimentos mudam de ordem ou algumas situações precisam ser reinventadas."
Além de O Cidadão Incomum e O Rio Que Me Corta, outra adaptação brasileira que chegou recentemente aos cinemas, com estreia em 18 de junho e marcando presença no Top 10 de filmes mais assistidos no país no período, foi Quinze Dias (Manequim Filmes). O longa foi produzido pela Conspiração Filmes, e Juliana Capelini, diretora executiva da produtora, destaca a necessidade de um cuidado especial pelo fato de essas produções já possuírem um legado, um público e uma base de fãs que precisam se identificar e gostar da versão cinematográfica. "Não podemos trair esse público", diz. Por isso, mesmo em obras que exigem a criação de novos personagens e tramas, a premissa deve ser mantida.
Capellini conta que, nos últimos anos, a Conspiração conseguiu desenvolver uma boa parceria com os próprios autores dos livros, para que essa sinergia aconteça. “Foi esse equilíbrio que buscamos em Quinze Dias. O livro respeita muito a essência da história, mas sentimos a necessidade de ampliar o seu universo para as telas. Na literatura, a narrativa é muito intimista, concentrada na relação entre o Felipe e o Caio dentro do quarto e do prédio. Para o cinema, expandimos esse cenário e aprofundamos a trajetória de personagens secundários que eram extremamente ricos. Conseguimos trazer mais camadas para a mãe do protagonista", explica.
Uma tendência que pode construir franquias
Além da aproximação entre os mercados editorial e audiovisual, e da qualidade da literatura brasileira, outro elemento que tem ajudado no crescimento das adaptações, para Pedro Ivo, são as leis que incentivam serviços de streaming a investirem em produções locais. Para ele, a única tendência inegociável acaba sendo a procura por boas histórias e, seguindo essa premissa, a literatura é a melhor fonte. “No final das contas, o que realmente importa para as plataformas é o número de novos assinantes que determinada série ou filme vai trazer. O fator de corte ainda é a qualidade da história, ou seja, a capacidade de engajar este ou aquele público-alvo. Não tanto o gênero em si."
A Conspiração tem uma tradição de acreditar em adaptações, com sucessos como Vitória, adaptação do livro do jornalista Fábio Gusmão, e O Diário de Pilar na Amazônia baseado na franquia de Flávia Lins e Silva – além do vencedor do Oscar Ainda Estou Aqui, da obra de Marcelo Rubens Paiva. E segue: A em setembro lança Precisamos Falar, uma adaptação do livro The Dinner, do autor holandês Herman Koch, e futuramente No Jardim do Ogro, da autora marroquino-francesa Leïla Slimani, que será um filme dirigido por Carolina Jabor. Da literatura nacional, a produtora também trabalha no desenvolvimento de A Droga da Obediência, que faz parte da série Os Karas — uma saga de seis livros com mais de 28 milhões de exemplares vendidos.
"Acreditamos muito nesse modelo porque ele já traz consigo uma base de fãs e a premissa de uma história que funcionou na literatura. O mercado brasileiro tem feito adaptações incríveis porque temos grandes autores com histórias que são extremamente cinematográficas e esse modelo é totalmente viável por aqui. A série 'Os Karas' deixa claro o potencial para se construir uma sequência de filmes de grande sucesso, e o mercado nacional já provou que esse caminho funciona um muitas franquias, como as da 'Turma da Mônica'”, analisa Capellini.
Segundo ela, o segredo para esse mercado crescer está justamente na sinergia entre os elos da cadeia, especialmente em uma parceria muito estreita entre as editoras e as produtoras de conteúdo. Juntas, elas conseguem atrair o público fiel da literatura para as salas de cinema, garantir que esse espectador continue engajado nas sequências e, ao mesmo tempo, formar novos leitores. “Acreditamos que essa estratégia ganhará cada vez mais força. Hoje em dia, para atrair o público para as salas de cinema, quanto mais forte e reconhecida for a propriedade intelectual, maior será a base de fãs para engajar e divulgar o filme. Nós acreditamos muito no cinema e no espaço dessas obras no mercado."
É justamente pensando nesse potencial de construir franquias que a Pedro Bandeira Educação e Entretenimento (PBE2) tem intensificado o trabalho de transformar obras consolidadas da literatura infantojuvenil brasileira em projetos de entretenimento com potencial de longo prazo. "Pedro Bandeira ocupa um lugar singular na literatura brasileira. Sua obra ajudou a formar gerações de leitores e construiu uma relação rara de proximidade com o público. Esse legado, somado à força de suas histórias, faz de seu universo uma propriedade intelectual de enorme relevância", afirma Rodrigo Bandeira de Luna, sócio da PBE2.
Para o executivo, há uma conexão emocional muito forte com obras que marcaram a formação de um leitor. Por isso, quando um livro chega ao cinema, cria-se uma ponte poderosa entre memória afetiva e redescoberta para os leitores que já conhecem aquela história e querem ver aqueles personagens ganhando vida na tela. Tendo isso em vista, ele acredita que o potencial da literatura infantojuvenil brasileira nos cinemas ainda é pouco explorado.
Mercado que se retroalimenta
Para além do potencial de construir franquias e trazer um público já consolidado para os cinemas, as adaptações literárias funcionam como uma via de mão dupla, fortalecendo também o mercado editorial. "Quando expandimos o universo do livro nas telas, conseguimos gerar também um efeito comercial muito importante para a exploração dos livros: o espectador do filme, que não necessariamente leu a obra original, se encanta pela história e passa a ser também um leitor dos livros", destaca Capelini.
No artigo “Adaptações literárias para jovens leitores”, publicado na revista Com Ciência, a professora Gizelle Kaminski Corso reforça essa visão. Ela explica que as adaptações bem feitas podem servir como um convite à leitura que as precede, desde que realmente sejam identificadas como adaptações que, não necessariamente, têm compromisso em seguir a história.
"Para esse mercado crescer, penso que editoras, produtoras, distribuidoras e exibidores precisam trabalhar de forma cada vez mais integrada, desde a identificação das obras até as estratégias de lançamento. E gosto muito da ideia de que essa relação funciona nos dois sentidos: o livro fortalece o filme, mas uma boa adaptação também pode despertar novos leitores, como aconteceu com 'Cidade de Deus' e, mais recentemente, 'Ainda Estou Aqui'", completa Deberton.