06 Fevereiro 2026 | Yuri Cavichioli
“Desde o início, pensamos o projeto como um todo: quem é o público, onde está e como o filme chega à sala de cinema”, ressalta diretora da +Galeria
Clara Ramos detalha o modelo de atuação da empresa, faz um balanço de 2025 e antecipa as estratégias para 2026
Em entrevista concedida ao Portal Exibidor, a diretora geral da +Galeria, Clara Ramos, fez uma retrospectiva sobre 2025, ano que marcou a consolidação da empresa como desenvolvedora, produtora, coprodutora e distribuidora de projetos audiovisuais, acompanhando os filmes desde a concepção até o lançamento, além de falar dos processos internos da empresa e o planejamento para 2026.
Na avaliação da executiva, o período de 2025 foi especialmente simbólico por reunir, em um mesmo calendário, a primeira produção própria da empresa, a entrada em novos gêneros e uma atuação mais intensa na sala de cinema, combinada a uma boa performance posterior nas plataformas.
Mais do que ocupar o papel tradicional de distribuidora, a empresa estrutura seus filmes de ponta a ponta, combinando dinheiro privado, recursos de investimento e parcerias estratégicas. O objetivo visa reduzir riscos, aumentar a chance de conexão com o público e garantir que cada obra chegue ao mercado com identidade e estratégia.
“2025 foi um ano bem especial para a +Galeria, porque a gente vem nessa trajetória de se colocar no mercado como uma empresa que não só distribui, mas que desenvolve, produz e coproduz projetos audiovisuais, fazendo esse trabalho desde a primeira concepção até o lançamento”, conta Ramos.
O primeiro grande marco de 2025 foi Fé Para o Impossível, lançado em fevereiro, e que representou a estreia da +Galeria como produtora “in house”. Ao longo do ano, a empresa também acompanhou a trajetória internacional de A Melhor Mãe do Mundo e o lançamento de Mãe Fora da Caixa, fechando um ciclo de obras com perfis distintos de público.
“Começamos o ano com a estreia de ‘Fé Para o Impossível’, que foi a nossa primeira produção própria. É um projeto que trabalhamos desde o desenvolvimento e que terminou o ano como um dos dez filmes nacionais mais vistos. Foi um baita aprendizado para nós, inclusive por ser um gênero que a +Galeria nunca tinha trabalhado”, diz.
Na sequência, a +Galeria passou a circular por um espectro em outra direção com A Melhor Mãe do Mundo, que iniciou sua trajetória internacional no Festival de Berlim e acumulou participações em festivais antes de chegar ao circuito brasileiro.
“‘A Melhor Mãe do Mundo’ teve uma estreia em Berlim, começou uma carreira internacional muito prolífica em festivais, com prêmios, e depois estreou no Brasil cumprindo o que nós esperávamos em relação à carreira de cinema e também de plataforma. E ‘Mãe Fora da Caixa’ foi um projeto que acompanhamos por muito tempo no desenvolvimento”, disserta.
“O cinema nacional está num momento de redescoberta, batendo metas e recordes de relevância, mas ainda com resultados muito irregulares. Temos poucos filmes que ultrapassam a barreira de cem mil espectadores, e o nosso foco é transformar esses casos raros em casos cada vez mais frequentes”, avalia Ramos. Para ela, apesar do momento, o setor ainda é marcado por resultados irregulares entre os títulos nacionais.
É nesse contexto que a curadoria da +Galeria se estrutura. A empresa cruza leitura de mercado, comportamento de audiência e análise de tendências, buscando identificar espaços ainda pouco explorados dentro dos gêneros tradicionais.
A executiva destaca que o processo passa, necessariamente, por fugir de movimentos automáticos de mercado e da simples repetição de formatos que já funcionaram em outros momentos.
“Tentamos mapear tendências e entender o que está funcionando com o público brasileiro, tanto no cinema quanto nas plataformas, mas sempre tentando fugir desse comportamento de manada, de ir todo mundo na mesma direção quando uma coisa dá certo”, esclarece a diretora.
Clara conta que a busca não é por abandonar os gêneros populares, mas por encontrar novas abordagens, recortes e temas capazes de diferenciar cada projeto em um ambiente de alta concorrência por atenção.
Para se destacar em um cenário altamente competitivo, a diretora afirma que os projetos precisam conquistar relevância no debate público, estimular o interesse do espectador pela ida ao cinema e encontrar um posicionamento claro no mercado. Segundo a executiva, esse direcionamento é construído desde as etapas iniciais de desenvolvimento, quando a equipe já trabalha com a definição do público-alvo e com a estratégia de apresentação do filme ao mercado.
Outro elemento que passou a ganhar peso no processo interno é a participação das áreas de marketing e programação ainda na fase de seleção e desenvolvimento dos projetos.
“Estamos trazendo cada vez mais os times de marketing e de programação para dentro da curadoria, porque, às vezes, existe uma desconexão entre o projeto e o lançamento. A ideia é todo mundo acreditar na força do filme e já entender esses olhares desde o começo”, explica Ramos.
Desta forma, o objetivo é não desperdiçar recurso e energia, mas, ao mesmo tempo, compreender que nem sempre mais do mesmo vai funcionar, de forma que arriscar com consciência é necessário. A estratégia, assim, une ao mesmo tempo cautela no uso de recursos e abertura para propostas que escapem do padrão mais previsível do mercado.
“Construir o financiamento de um filme no Brasil não é simples. Trabalhamos com modelos mistos, com investimento privado e outros parceiros, e vê a coprodução como uma forma de somar talentos e experiências”, explicando que a coprodução é tratada como ferramenta estratégica, tanto para viabilizar financeiramente os projetos quanto para agregar talentos e experiências.
Embora o foco principal siga sendo o público brasileiro, a +Galeria passou a estruturar projetos que já nascem com potencial de colaboração internacional, especialmente na América Latina.
“O nosso foco primário é o público brasileiro, acreditando que um filme que funciona aqui também pode ter chance lá fora. Temos muita vontade de avançar em coproduções internacionais, principalmente dentro da América Latina”, diz.
Tal lógica se reflete também na forma como a empresa enxerga sua relação com o cinema nacional, a partir de uma noção ampliada de representação do Brasil, tanto em temas quanto em gêneros e abordagens narrativas.
“Falar de uma empresa brasileira não significa o tempo inteiro mostrar um Brasil clássico. O Brasil é urbano, é jovem, é true crime. Acreditamos que dá para encontrar um jeito brasileiro de contar histórias de ação, de comédia, de romance, sem perder autenticidade”, completa.
Olhando para o futuro
Para 2026, a +Galeria organiza um calendário de lançamentos que reforça a estratégia de pluralidade de gêneros e de busca por projetos com alto potencial de comunicação com o público. Estão previstos:
- - Um Pai em Apuros, comédia voltada ao público familiar. O elenco traz Dani Calabresa, Rafael Infante, Xande Valois, Isabella Alelaf, Lara Infante e Caio Costa e Pedro Costa;
- - Pecadora, romance erótico que aposta em um olhar feminino sobre desejo, autonomia e amadurecimento. Os talentos de destaque são: Rayssa Bratillieri, José Loreto, Hipólyto e Marcos Pasquim;
- - Assalto à Brasileira, inspirado em um assalto a banco ocorrido em 1987, acompanha um grupo de assaltantes atrapalhados que parte para a ação com um plano mal definido e acaba lidando com erros e improvisos, em um filme que combina ação e comédia a partir desse “jeito brasileiro” de conduzir o golpe. O longa tem em seu elenco: Murilo Benício, Christian Malheiros, Robson Nunes, Paulo Miklos, Fernanda de Freitas, Matheus Macena e Vertin Moura;
- - Pai de Primeira Viagem, road movie centrado na relação entre pai e filho, com abordagem de reconexão, afeto e passagem para a vida adulta. Entre os destaques, temos: Kevin Vechiatto, Murilo Benício, Leandra Leal, Claudia Missura, Clarisse Abujamra.
Além dos lançamentos, a empresa mantém em produção projetos como O Futuro da Humanidade, Sete Caixas e novos títulos voltados ao público infantil e familiar.
Segundo a diretora, a definição desse line-up parte de um grande esforço de equilibrar comunicação ampla, identidade autoral e leitura de mercado, sem abandonar gêneros já consolidados junto ao público brasileiro.
“A nossa meta para 2026 é dobrar a aposta em projetos originais, com potencial de comunicação, em diferentes gêneros e para diferentes públicos, e conseguir repetir na sala de cinema o desempenho que a gente já vem tendo nas plataformas”, afirma.
Ao projetar o próximo ciclo, a executiva reforça que a prioridade permanece sendo estruturar os projetos desde a origem com clareza de público, posicionamento e estratégia de lançamento, tratando o desenvolvimento como etapa decisiva para o desempenho comercial.
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