16 Fevereiro 2026 | Yuri Cavichioli
"Se o conteúdo é vertical, horizontal ou em formato de rosquinha, tanto faz", afirma roteirista de "Tainá - Em Busca da Flecha Azul" sobre formação de público
Gustavo Colombo comenta disputa por sessões, desempenho nas salas e os desafios da formação de público infantil no cinema brasileiro
Tainá e os Guardiões da Amazônia - Em Busca da Flecha Azul, filme codistribuído por Downtown e Paris Filmes, entrou em cartaz há mais de um mês, no dia 25 de dezembro do ano passado, e fez quase 15 mil espectadores no Brasil. Indo além, entretanto, uma questão permeia o lançamento e seu gênero: a importância de ter um mercado audiovisual pungente para o público infantil, e sua relação com a formação de público.
O Portal Exibidor conversou com Gustavo Colombo, roteirista do filme, que deu seu parecer sobre o assunto e analisou os desafios de circulação, disputa por sessões e formação de público no cinema infantil.
“Tenho recebido um retorno muito positivo de crianças e famílias. Por outro lado, confesso que a bilheteria deixou a desejar. Sabíamos que estar simultaneamente com ‘Anaconda’, ‘Avatar’ e principalmente ‘Bob Esponja’ traria desafios importantes. E, dentro desse cenário, [os filmes] pressionaram as sessões, deixando horários menos competitivos para o nosso longa, o que diminuiu a média por sessão”, afirma Colombo.
Ele observa que quem pôde conferir o longa, não apenas engajou como extrapolou a mídia cinematográfica, partindo para o pedido de consumir o conteúdo em outro formato, como o Spotify. E por falar em novidade, conta que o mercado passa por um momento de incertezas e de mudanças e que filmes imaginados como sucessos, especialmente as comédias, não tem têm se saído tão bem — desde 2024 — e outros gêneros e formatos têm surpreendido. O que tem “animado”, além das críticas, é que a sustentação tem sido boa, o que mostra a qualidade do filme.
Quando perguntado sobre como ele encara como o público-alvo do longa — ou seja, mais jovem — consome conteúdos de outros formatos, como vertical, ele ressalta o tema de forma natural e pragmática: “Se é vertical, horizontal, inclinado, triangular ou em formato de rosquinha, tanto faz, desde que a história seja boa e que a gramática visual esteja adaptada àquele formato, aproveitando o espaço de tela disponível para contar a história”.
Quase como um exemplo de UX (user experience), para ele, a narrativa acompanha as tendências de usabilidade vertical, que só existem porque hoje é o melhor formato para segurar um celular com uma mão. Porém, quando as pessoas deixarem de usar o smartphone e for substituído por outra forma de consumir um conteúdo, teremos uma situação nova e mudaremos novamente essa forma de ver e absorver narrativas.
“A pior coisa que existe em um longa é uma história em lista. O ideal é uma narrativa em que uma situação leva para outra e para outra, seja de uma cena para outra ou nas ações dentro de uma cena”, afirma Colombo.
Para o roteirista, a diferença entre a narrativa pensada para a sala e a lógica de consumo no celular está na própria ocupação do quadro. Ele explica que, no cinema, todo o enquadramento precisa conter informação, o que deixa o filme mais vivo, enquanto no ambiente móvel a atenção costuma se concentrar em uma ação central, deixando, via de regra, a imagem mais pobre. Na sua avaliação, a narrativa vertical existe sobretudo porque é a forma mais confortável de segurar o celular com uma mão.
“O desafio, quando se vem de uma propriedade intelectual televisiva infantil, e nesse caso pré-escolar, é tentar criar uma narrativa que se aproxime desse público família e de cultura pop sem trair o público original”, revela o roteirista.
Colombo lembra que, hoje, o mercado brasileiro praticamente não trabalha mais com a categoria de longa infantil, mas com filmes pensados para o público família, muitas vezes com elementos voltados também ao público jovem-adulto. Em Tainá, segundo ele, o caminho foi criar um arco para a personagem, elevar os riscos da trama e construir camadas de leitura que pudessem dialogar com diferentes públicos, mantendo a identidade da marca.
“Uma marca como Tainá precisa estar sempre lançando novos conteúdos, em diferentes formatos e mídias, para continuar se comunicando com o público infantil, já que é um público que se transforma muito rapidamente”, conta Colombo.
Na avaliação do roteirista, a formação de público passa diretamente pela constância de lançamentos. Ele observa que, na prática, as dificuldades de produção e financiamento fazem com que uma criança de quatro anos chegue aos dez entre um filme e outro, o que compromete a continuidade da relação com a marca. Por isso, defende a existência de financiamentos específicos para novas temporadas, continuações e obras derivadas, especialmente no campo infantojuvenil.
Ao projetar o cenário do cinema nacional para 2026, Colombo afirma que vê um grande desafio com relação ao desempenho geral do mercado. Ele aponta que os gêneros historicamente associados à grande bilheteria, especialmente as comédias, vêm apresentando resultados abaixo do esperado, enquanto produções consideradas alternativas demonstram maior capacidade de diálogo com seus públicos. Para ele, produtores e distribuidores precisam repensar a forma como concebem, comunicam e lançam seus projetos: “sinto que os produtores de filmes art house estão mais conectados com seu público do que os de filmes comerciais”, afirma.
“Hoje, para um filme de público funcionar, mais do que popular, ele precisa ser pop. Precisa dialogar com cultura pop, com linguagem e com formas de circulação que já fazem parte do cotidiano do espectador”, comenta Colombo ao falar que a principal virada estratégica passa pelo reposicionamento dos projetos desde a concepção.
No caso da franquia Tainá, o roteirista destaca ainda um diferencial pouco comum no circuito independente: a comunicação entre gerações. Segundo ele, pais que assistiram aos primeiros filmes nos anos 2000 e irmãos mais velhos que acompanharam a primeira temporada da série na televisão estão levando as crianças ao cinema, criando uma relação de continuidade da marca fora do ambiente exclusivamente televisivo. Ele também defende a retomada de salas de rua e a implantação de salas em centros culturais, clubes e outros equipamentos com público recorrente como caminhos para diversificar a circulação do cinema nacional.
Confira abaixo a entrevista na íntegra:
Após quase um mês em cartaz, como você avalia a recepção do filme no público infantil?
Tenho recebido um retorno muito positivo de crianças e famílias que estão revendo e querendo ouvir as músicas do filme que estão no Spotify. Quem teve contato com o filme se engajou. Isso pra mim, já é um sucesso. Além disso, as críticas foram muito positivas, seja de críticos profissionais ou no letterbox, assim como as demais reações online, mas confesso que a bilheteria deixou a desejar. Com um P&A não muito alto e concorrência de Anaconda, Avatar e principalmente Bob Esponja, que adiantou a data para junto de Tainá, já imaginávamos que seria difícil. Os demais filmes pressionaram as sessões, deixando horários menos competitivos para o nosso longa, o que diminuiu a média por sessão. Mas estamos em um momento de incertezas e de mudanças, filmes imaginados como sucessos, especialmente as comédias, têm ido mal desde 2024 e outros gêneros e formatos têm surpreendido. O que tem animado, além das críticas, é que a sustentação tem sido boa, o que mostra a qualidade do filme. Espero que os exibidores continuem mantendo o filme em cartaz por mais um tempo.
Em tempos de conteúdo vertical, especialmente com um público que nasceu acostumado com tal formato, existe algum processo para auxiliar no desenvolvimento de filmes, especialmente na cativação do público e atenção na tela grande?
Se é vertical, horizontal, inclinado, triangular ou em formato de rosquinha, tanto faz, desde que a história seja boa e que a gramática visual esteja adaptada àquele formato, aproveitando o espaço de tela disponível para contar a história. A narrativa vertical só existe porque é o melhor formato para segurar um celular com uma mão só, quando deixarmos de usar o celular, vamos ter que mudar de novo. Mas talvez a grande diferença é que na tela grande todo o quadro precisa de informação, o que deixa a narrativa mais rica e o filme mais vivo, no celular você tende a focar em uma ação central deixando, via de regra, o quadro mais pobre. Além disso, a narrativa vertical, narrada episodicamente, é o oposto do que eu imagino que deva ser um filme na tela grande - a pior coisa que existe em um longa é uma história em lista. O ideal é uma narrativa em que uma situação leva para outra e para outra, seja de uma cena para outra, seja nas ações dentro de uma cena.
Quais são os grandes desafios em escrever um filme de cinema para o público infantil? Além disso, houve outros desafios para o desenvolvimento do seu longa?
Eu já tinha experiência escrevendo para séries infantis como DPA, Marcelo Marmelo Martelo ou mesmo Tainá, mas para os cinemas foi a primeira vez. A diferença é que, no nosso atual mercado, não existe longa infantil, todos os filmes de cinema vistos como infantis são “família”, quando não focados no público jovem adulto e sempre com elementos pop. O desafio quando se vem de uma propriedade intelectual televisiva infantil, e nesse caso pré escolar, é tentar criar uma narrativa que se aproxime desse público família e de cultura pop sem trair o público original. É mais ou menos o que os filmes da Patrulha Canina também fazem quando levam a marca para os cinemas. Aqui fizemos algo parecido, criando um arco para a Tainá e aumentando os riscos, junto de camadas e referências para diferentes públicos. Mas o mais importante é que a jornada da personagem esteja com o coração no lugar certo para que adultos e crianças possam se engajar e levar a sério o drama e a aventura da personagem.
O cinema, mais do que nunca, passa por uma necessidade de formação de público. Qual a importância de termos filmes, com frequência e em alta qualidade, destinados a um público ainda não acostumado a ir aos cinemas?
É essencial! Seja com filmes infantis ou família, para atrairmos o espectador mais jovem. No caso do público infantil, a constância é essencial. Uma marca como Tainá precisa estar sempre lançando novos conteúdos (em diferentes formatos e mídias) para continuar se comunicando com o público infantil, já que é um público que se transforma muito rapidamente. Hoje, na melhor das hipóteses, devido às dificuldades de produção e financiamento, a criança de 4 anos vai ser a de 10 entre um filme e outro. Seria importante financiamentos específicos para novas temporadas, continuações e obras derivadas, especialmente para obras infanto-juvenis. E existem desafios minimizados no caso da animação, já que não existe o problema do elenco envelhecer.
Como Tainá é uma franquia muito consolidada, temos um elemento forte nessa comunicação geracional: hoje pais que viram os primeiros filmes nos anos 2000 e irmãos mais velhos que viram a primeira temporada da série na TV, estão levando os pequenos para ver o filme. Algo inédito no cinema infantil independente.
Para além do filme infantil, a formação de público também precisa do incentivo aos mais diferentes gêneros e formatos nas salas de cinema, justamente para atrairmos variados públicos para os cinemas. E acho que isso vale também para o incentivo a diferentes tipos de salas de cinema e não apenas as de shoppings. Reabrir salas de rua ou inaugurar salas em centros culturais, clubes ou outros equipamentos que já possuam público recorrente, pode ser um caminho para diversificar, mas também aumentar o público dos cinemas.
Por fim, como você avalia o atual cenário do cinema nacional, e quais suas perspectivas para o ano de 2026?
Os resultados tanto de premiações como de bilheterias de filmes como Ainda Estou Aqui e agora o Agente Secreto são sensacionais, mas de modo geral não estou tão otimista. Acredito que vamos ter um baixo market share esse ano e o mais surpreendente é que os gêneros tidos como campeões de bilheteria, especialmente as comédias, estão indo mal. Os produtores e distribuidores dos ditos filmes comerciais estão inclusive indo pior que os vistos como alternativos - um filme como “O Último Azul”, uma distopia scifi meio art house performou melhor que quase todas as comédias lançadas em 2025. Sinto que os produtores de filmes art house estão mais conectados com seu público do que os de filmes comerciais. Talvez produtores e distribuidores precisem se reinventar, se conectar com o público, pensar formas mais inventivas de comunicação e lançamento, aproveitar o exército de influenciadores que falam sobre cinema e repensar os gêneros e tipos de filmes realizados, acho que pra fazer sucesso hoje em dia, um filme de público, mais do que popular, o filme precisa ser pop. Mal ou bem Auto da Compadecida 2 e O Agente Secreto são também fenômenos pop, têm elementos de cultura pop. Eu gosto de apostar nisso, até porque na minha produtora estamos finalizando um longa chamado “Gambiarra: Uga Uga Show” , que eu dirigi e escrevi e que é uma ficção científica cyberpunk, baseado em um universo transmídia com o Diogo Defante e com um teaser lançado na CCXP, ou seja: totalmente cultura pop.
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