Michael O´Leary: “Em cinco ou dez anos estaremos no auge da próxima grande ‘era do cinema’”
Em entrevista exclusiva ao Portal Exibidor, o presidente e CEO da Cinema United falou sobre expectativas para a CinemaCon 2026, o atual momento do mercado exibidor e o crescimento latino-americano
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(Foto: Cinema United)
À frente da Cinema United, Michael O'Leary ocupa uma posição estratégica em um dos momentos mais desafiadores para o setor de exibição. A entidade - antiga NATO (National Association of Theatre Owners) - reúne exibidores de diferentes partes do mundo e tem atuado na defesa da experiência cinematográfica e na articulação de pautas centrais da indústria, como o equilíbrio entre janelas de lançamento, o impacto da consolidação dos estúdios e a sustentabilidade do negócio no pós-pandemia.
É também sob a liderança da Cinema United que acontece a CinemaCon, maior convenção global dedicada ao mercado de exibição cinematográfica. Realizado anualmente em Las Vegas desde 2011, o evento funciona como um termômetro das tendências do setor, reunindo estúdios, exibidores e executivos para apresentar novidades, discutir estratégias e sinalizar os rumos da indústria.
Em entrevista exclusiva ao Portal Exibidor, O’Leary falou sobre as expectativas para a edição de 2026, analisou o atual momento do mercado e comentou o papel de regiões como a América Latina, com destaque para o Brasil, no cenário global.
Confira na íntegra:
Portal Exibidor: Michael, a CinemaCon 2026 está acontecendo em um momento de significativa transformação para a indústria. Na sua visão, qual é o principal objetivo desta edição quando falamos sobre o futuro da experiência cinematográfica?
Michael O'Leary: Eu acho que há uma série de objetivos que estamos tentando alcançar. Um deles é que queremos continuar avançando e construindo a próxima grande era do cinema. E, obviamente, há algumas questões sérias que pairam sobre toda a nossa indústria neste momento. A consolidação é maior mas, ao mesmo tempo, é importante para nós continuarmos avançando, reinvestindo nos nossos cinemas, criando grandes experiências, unificando, de certa forma, a indústria global de cinema. Porque eu realmente acho que há oportunidades para nós neste momento e não podemos parar no meio do caminho e esperar para ver como a questão da consolidação vai se resolver. Temos que continuar avançando. Temos que continuar trabalhando em direção a um futuro melhor para a nossa indústria.
Portal Exibidor: Então como você vê o equilíbrio atual entre filmes nos cinemas e nas plataformas de streaming? Estamos caminhando para um modelo de janelas mais estável ou devemos esperar mais mudanças?
Michael O'Leary: As coisas estão indo na direção certa, na minha avaliação. Eu nunca acreditei em uma disputa entre streaming e cinema. Não é uma escolha binária. Acho que há espaço na nossa sociedade para ambos. Mas acho que o que aconteceu nos últimos cinco ou seis anos foi que houve muita experimentação, porque as pessoas não tinham certeza sobre isso e fizeram algumas coisas que, na minha opinião, realmente encurtaram as janelas, de uma forma que não foi construtiva para ninguém. Então acho que o que você está começando a acontecer agora é um reconhecimento de que as janelas importam, as janelas são importantes. E você está começando a ver as coisas meio que voltando na outra direção. Então eu sinto que estamos indo em uma direção positiva nesse aspecto.
Portal Exibidor: Nos últimos anos, os donos de cinemas têm trabalhado para reposicionar a ida ao cinema como uma experiência premium. Na sua visão, o que está realmente funcionando hoje quando se trata de trazer o público de volta aos cinemas? E há algo, algo que a indústria ainda está fazendo errado?
Michael O'Leary: Essa é uma pergunta muito mais complexa para se responder. Acho que as coisas que estão dando certo são que você está vendo os exibidores reinvestindo nos seus cinemas, colocando dinheiro de volta na infraestrutura, na tecnologia, garantindo que as experiências que as pessoas têm sejam maravilhosas. Muitas vezes, os filmes fazem promoções especiais e outros tipos de ações que tornam a ida ao cinema ainda mais especial. Mas acho que ainda há coisas que precisamos trabalhar. Ter maior flexibilidade na programação dos filmes, para que você possa atender ao seu público e à sua comunidade específica, é um exemplo disso. Então acho que continuamos no processo de aprendizado sobre como podemos satisfazer os consumidores nos dias de hoje. E a verdade é que esse é um processo que está em andamento desde o começo da indústria. E é um processo que, francamente, não acho que vá parar nunca, porque precisamos acompanhar os consumidores se quisermos que eles saibam que ir ao cinema é a melhor experiência de entretenimento disponível para eles.
Portal Exibidor: Como você vê a experiência de ir ao cinema daqui cinco ou dez anos?
Michael O'Leary: Olha, acho que em cinco ou dez anos estaremos no auge do que venho chamando de “a próxima grande era do cinema”. Acho que há um reconhecimento de que existe algo especial em ver um filme no cinema. E, particularmente, quando você olha as estatísticas e as informações sobre os jovens querendo ir ao cinema, são pessoas que estão inundadas o dia inteiro no celular, no laptop, no computador, e estão dizendo: “sabe de uma coisa? Eu quero um tempo longe disso. Quero uma experiência especial”. E estão indo ao cinema. E isso é extremamente encorajador. A geração Z é o maior e o grupo que mais cresce em termos de frequência habitual ao cinema, o que significa que vão a seis ou mais filmes por ano. Então acho que o público não é estático. Está constantemente mudando. Há informações interessantes até sobre pessoas mais jovens que a geração Z indo ao cinema. Então acho que se nossos amigos nos estúdios continuarem a lançar os filmes incríveis que têm lançado, daqui a cinco ou dez anos estaremos em um lugar muito, muito positivo como indústria.
Portal Exibidor: Você acredita que os estúdios de Hollywood continuarão liderando as bilheterias ou haverá outras indústrias contribuindo e criando algum tipo de equilíbrio ao redor do mundo?
Michael O'Leary: Acho que a indústria cinematográfica americana continuará muito, muito forte. Não vejo isso mudando. Mas estamos começando a ver filmes de outras partes do mundo não apenas indo bem em seus próprios países ou regiões, mas também alcançando públicos em todo o mundo. E acho isso muito empolgante. A capacidade de ir ao cinema e ver o último sucesso de Hollywood ou o último sucesso do Brasil ou o último sucesso da Índia... houve vários filmes que repercutiram, só este ano, vindos do Brasil. Eu tive a oportunidade de ver O Agente Secreto em um cinema não muito longe da minha casa, aqui no norte da Virgínia, e foi um filme maravilhoso, maravilhoso! Então acho que estamos chegando a um ponto em que você poderá ver coisas diferentes vindas de lugares diferentes, e acho que isso é algo positivo para toda a indústria.
Portal Exibidor: Falando nisso, como você vê o papel da América Latina e do Brasil em particular hoje na estratégia global de estúdios e exibidores? Vê espaço para crescimento mais rápido na região?
Michael O'Leary: Sim, acho que há espaço para crescimento. Algumas estimativas apontam para um crescimento potencial de quase 10% em 2026, o que seria ótimo. A Cinemark, que é um dos meus maiores membros, tem 84 cinemas no Brasil e sei que eles estão muito otimistas com o Brasil. Então acho que há espaço para crescimento em todos os lugares, e eu celebro isso.
Portal Exibidor: E olhando para frente, o que mais te deixa otimista em relação à indústria de exibição? E qual é o maior risco que a indústria ainda precisa enfrentar?
Michael O'Leary: Acho que o maior risco é a consolidação. Quando a consolidação acontece, menos filmes são feitos e os preços sobem. E acho que isso é negativo, não apenas para os exibidores. É negativo para os consumidores, é negativo para comunidades ao redor do mundo que dependem de seus cinemas e, francamente, é negativo para as pessoas que fazem filmes, que trabalham em filmes, que escrevem filmes. Então essa é a minha maior preocupação. O que me deixa mais otimista é a paixão e a energia que vejo. E veremos isso na CinemaCon, onde as pessoas estão criando grandes experiências em seus cinemas. Uma das coisas que faço é viajar bastante e conversar com diferentes exibidores, e eles conhecem todas as pessoas que frequentam seus cinemas, sabem o que agrada a elas, sabem o que querem ver quando vão ao cinema, e estão ajustando suas operações para garantir que entreguem isso. Então acho que esse nível de energia e entusiasmo... e quando você olha, por exemplo, para o que aconteceu recentemente com tantas pessoas indo ver Devoradores de Estrelas - um filme que tinha grandes expectativas, mas está superando essas expectativas... E acho que continuaremos vendo isso ao longo do resto do ano. Então me sinto bem com o fato de que ir ao cinema ainda é a maior experiência de entretenimento que uma pessoa pode ter, e as pessoas vão querer fazer isso, não apenas agora, mas por gerações futuras.