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01 Abril 2026 | Mônica Herculano

II Seminário de Exibição promove debates sobre integração do setor audiovisual e lança carta dos exibidores

Evento aconteceu na última semana em Salvador (BA), como parte do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema

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(Foto: Patrícia Almeida)

Exibidores e representantes de distribuidoras e produtoras das cinco regiões do país estiveram reunidos no Cine Glauber Rocha, em Salvador (BA), de 25 a 29 de março, para o II Seminário de Exibição, promovido pela Associação dos Exibidores Brasileiros de Pequeno e Médio Porte (Aexib). O evento foi parte da programação do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, mais antigo festival de cinema em atividade na Bahia, que se encerra nesta quarta-feira (1), na capital baiana e na cidade de Cachoeira.



Cláudio Marques, idealizador do seminário e sócio do Cine Glauber Rocha, afirma que o resultado geral foi positivo. “Acho que os encontros tiveram um nível muito elevado de discussão. Tivemos muitas convergências, divergências também, mas que foram tratadas com muita inteligência, com muita clareza, e creio que a gente está saindo com um resultado muito positivo e entendendo que, acima de tudo, está todo mundo trabalhando para o melhor do cinema brasileiro: exibidores, distribuidores, produtores.”

Ao longo de 13 painéis de debates, os convidados e o público participante destacaram o fato de que, nas últimas décadas, a produção audiovisual brasileira foi bastante estimulada, ampliando o volume e a diversidade de obras nacionais, mas a maioria dos filmes acaba não alcançando o público. Por isso, um dos principais pontos abordados durante todo o Seminário foi a necessidade de não apenas buscar um diálogo mais alinhado entre todos os elos dessa cadeia produtiva, como também maior apoio das políticas públicas para o setor de exibição.

Após a noite de abertura do Seminário, a quinta-feira (26) teve início com uma apresentação da Vitrine Filmes sobre a estratégia de lançamento de O Agente Secreto. Já na parte da tarde, Adriana Rattes, diretora executiva e sócia-fundadora do Grupo Estação, e Tiago Mafra, diretor executivo da Abraplex, debateram sobre estratégias de circulação e políticas públicas que partam da formação de público e da sustentabilidade das salas.

Mafra lembrou que é importante diferenciar cineclubes e pontos de cultura do circuito comercial de exibição quando se fala em políticas públicas para esse setor. Além disso, falou da necessidade de pensar o audiovisual para além da cultura, buscando parcerias com outros entes públicos - por exemplo, para a formação de público, parceria com o Ministério da Educação -, para não depender apenas do Fundo Setorial do Audiovisual.

Já no painel “Cinema brasileiro: produção em alta, salas vazias", Bernardo Siaines, do Filme B, apresentou dados recentes do mercado e, com Luís Ciocler, CEO do Centauro Group, falou sobre os desafios de ampliar a presença do cinema nacional no circuito comercial, equilibrando diversidade de produção, estratégias de lançamento e ocupação de salas.

“A gente teve diversas premiações incríveis nos dois anos passados, com Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, O Último Azul. A gente teve uma projeção internacional de crítica, principalmente, muito forte, talvez inédita para o Brasil. Ok, esses filmes foram bem, tiveram bastante público, mas de uma forma geral, essa projeção internacional do país lá fora não se traduziu em sucesso de público no mercado interno", disse Siaines.

Segundo ele, a distribuição se tornou mais barata, no sentido de não necessitar mais de transporte físico dos filmes até as salas, mas segue precisando de inteligência e gente capacitada. “E gente inteligente e gente capacitada custa dinheiro. Então vira uma bola de neve, porque um filme mal distribuído, que não gera nenhum buzz, que as pessoas não estão ouvindo falar, exibidor nenhum vai querer programar. Claro, você não vai querer botar no seu cinema um filme que ninguém quer saber, que ninguém conhece. Isso pode ser elementar, mas às vezes parece que não é", completou.

Para Ciocler, parte dos recursos do FSA deveria ser destinado para a divulgação dos filmes. Além disso, seria necessário repensar os tributos sobre as salas e desonerar algumas ações. “Exibidor é a classe mais resiliente e otimista que eu conheço. Eles estão sempre esperando que chegue um novo filme que vai trazer um público excepcional e que vai pagar não as contas dos investimentos que eles têm que fazer, mas o que já ficou para trás. Então estão sempre apostando em bilheterias. O exibidor não teria nenhum tipo de relutância em cobrir uma cota de tela se o filme estivesse performando bem. Mas quando o filme não performa bem, muitas vezes, o que a gente percebe na prática é que vocês têm um conteúdo de filme nacional sendo produzido com dinheiro público sendo exibido em sala vazia. O exibidor assume um risco enorme.”

Marcelo Lima, CEO da Tonks e gestor do Cine Marquise, reforçou o alerta durante o painel seguinte. “No Brasil, o produtor tem 0% de risco, o distribuidor tem 50% a 60%, e o exibidor tem 100% de risco. Cada um dos exibidores aqui tem alguma dívida com o Fundo Setorial hoje, que paga parcelas com juros. Se não paga, entra no Serasa. E aí a gente não consegue pegar mais crédito para pagar a própria parcela. E entra num ciclo vicioso que cada vez piora a situação do exibidor.”

Lima apresentou um levantamento feito por ele em parceria com a jornalista e cineasta Rosi Papi, sobre os modelos de sustentabilidade do mercado de cinema na França, Coreia do Sul, Índia, Nigéria e Brasil. No mesmo painel, Pablo Billard, CEO da Cinépolis Brasil, falou sobre a experiência na Indonésia. Lá, 60% do conteúdo das salas de cinema é local, índice conquistado ao longo dos anos, graças a, segundo ele, um alto senso de coletividade da população. “Eles são 90% muçulmanos. Isso também explica esse poder, porque 90% da população acredita na mesma coisa. Então, quando o filme conecta e eles acham o caminho para um filme que é local, que as pessoas querem ver, eles abraçam", explicou Billard.

Apoio e formação de público

O terceiro dia do Seminário começou com um painel sobre políticas públicas para a exibição, com André Ricardo Araujo Virgens, coordenador-geral de Políticas para Difusão e Internacionalização Audiovisual do Ministério da Cultura, Jack Silva, CEO da Movieland Cinemas e presidente da Aexib, e Patrícia Barcelos, diretora da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Araujo e Patricia apresentaram os mecanismos do MinC e da Ancine que possibilitam apoio ao setor audiovisual, bem como resultados dos últimos anos, com destaque para o Plano de Diretrizes e Metas (PDM), aprovado em fevereiro pelo Conselho Superior de Cinema.

O PDM 2026–2035 está organizado em oito eixos estratégicos: 1) Gestão e participação social; 2) Desenvolvimento econômico e regulação; 3) Financiamento; 4) Educação e trabalho; 5) Produção, linguagens, segmentos e modos de fazer; 6) Difusão, distribuição e exibição; 7) Patrimônio, Memória e Preservação Audiovisual; 8) Internacionalização do audiovisual. Segundo Patrícia, a Secretaria do Audiovisual (SAv) e a Ancine agora devem olhar para essas metas e indicadores e trabalhar as ações específicas e o tempo de implementação de cada uma.

Especificamente sobre o eixo de difusão, distribuição e exibição, ela explicou que a Ancine faz hoje um trabalho direto com financiamento às distribuidoras e que foi aprovado um edital específico de comercialização via SAv. “E eu entendo que é uma pauta importantíssima não só fazer o financiamento da distribuição e comercialização, mas avançar no processo de entender a forma de comunicação hoje para a sociedade. Não está dissociada da formação de público uma ação mais efetiva de marketing, observando como ele se relaciona hoje, as mudanças nos hábitos de consumo, como funcionam as redes sociais, como trabalhar a relação entre as salas de cinema e os filmes. Hoje temos experiência e instrumentos para fazer isso, mas depende fundamentalmente de uma ação específica do mercado, dele olhar para essa relação direta com o público. Então é ter uma ação complementar entre Estado e mercado", afirmou a diretora da Agência.

Já o presidente da Aexib falou sobre os desafios da Associação e da importância de pensar na manutenção das salas de cinema já existentes, além de ampliar o parque exibidor. “Não tem como falar de expansão sem falar de manutenção”, disse, alertando para o fato de que os recursos federais não estão chegando a todos os exibidores. “A gente tem um histórico de ações realizadas nos últimos anos, como a LPG, mas nem todas chegaram a todos os exibidores. Não pelo governo federal, mas pelos estaduais, que distorceram algumas questões e não abraçaram os exibidores como deveriam”, afirmou Silva.

Segundo ele, a maior concorrência entre cinemas públicos e privados é quando se trata de recursos. “Há recursos para cineclubes e para as salas públicas, que têm a sua importância, mas fazem um trabalho diferente das salas privadas. É preciso alinhar o trabalho para uma atuação em conjunto. Que haja um trabalho de formação de público, mas que esse público possa depois frequentar as salas privadas”, defendeu.

Formação de público foi o tema do painel seguinte, que reuniu Duarte Dias, assessor de gestão cultural e artística do Cine Teatro São Luiz (Fortaleza/CE) e Viviane Ferreira, cofundadora do Instituto Audiovisual Mulheres de Odun, que há um ano inaugurou o Cine Lankiana no Quilombo do Coqueiro Grande (Salvador/BA).

Para Viviane, faz muita diferença quando o público se sente parte e partícipe da sala. Por isso, no Cine Lankiana buscam criar um senso de pertencimento da comunidade em relação ao cinema. E isso, segundo ela, não está diretamente relacionado a gostar ou não do conteúdo apresentado. “A gente não convida as pessoas para gostarem dos filmes que estão sendo exibidos. A gente conversa com elas para criar o hábito de ir ver o filme inclusive para não gostar dele. A experiência de estar na sala de cinema e conversar sobre o conteúdo visto ali, seja ele qual for, é importante também", explicou. E para isso, eles usam o mote da fofoca. “A gente se junta para falar de quem a gente não gosta, então também podemos nos juntar para criticar um filme. Dizemos que quando você fofoca sobre o filme, você aprimora o trabalho de quem faz”, completou a cineasta.

Já Duarte explicou que o São Luiz é cadastrado na Ancine como cinema cultural, o que caracteriza dar prioridade para sessões gratuitas e, nas sessões pagas, priorizar distribuidoras brasileiras e independentes locais. “Agimos não como adversário do setor privado, mas como escala complementar, até porque não exibimos os mesmos filmes do circuito comercial”, contou.

Para ele, os públicos infantil e infanto-juvenil são a base para criação de cultura para o cinema nacional, mas esse potencial estratégico ainda é pouco aproveitado. “Cinco por cento do total de filmes lançados em 2025 foram para o público infanto-juvenil, sendo eles responsáveis por 22% do público do cinema brasileiro no ano. Em termos de bilheteria, 20% foi para esses filmes. Então acho que a gente está diante de uma oportunidade, considerando que, segundo dados do IBGE, tivemos mais de 25 milhões de crianças e adolescentes fazendo o Ensino Fundamental. E considerando também que elas geralmente não vão ao cinema sozinhas. Então acho que há oportunidade, ao mesmo tempo em que há vácuo de produção para dialogar com esse público, que está constantemente sendo abastecido por conteúdo estrangeiro.”

Distribuição, VOD e novas tecnologias

Alguns agentes do mercado acumulam a experiência de atuar simultaneamente na exibição e na distribuição de filmes, e esse foi o assunto do painel “Quando exibição e distribuição caminham juntas”, que contou com a participação de Adriana Rattes, diretora executiva e sócia-fundadora do Grupo Estação, Jean Thomas, fundador da Reserva Cultural e da Imovision, e Pedro Rosis, gerente de Programação do Belas Artes.

Adriana afirmou que exibição e distribuição têm sempre que andar juntos. “Quando isso não acontece, dá ruim", sentenciou. Ela defendeu a importância de que os três elos da cadeia audiovisual sejam independentes, porém articulados, com pesos e poder semelhantes. No caso do Estação, foi um grupo de amigos cinéfilos que abriu a sala e, depois, sentiu a necessidade de ter uma distribuidora. “A gente abriu a sala de cinema e depois a gente fez um festival pra trazer mais filmes para o Brasil. E a gente depois descobriu que precisava ter uma distribuidora para comprar filme, para conseguir trazer mais filmes para exibir. O Jean precisava de uma sala, a gente precisava de uma distribuidora.”

Segundo ela, esse é um modelo comum para quem trabalha com cinema independente ao redor do mundo. “E você também ser distribuidor te ajuda a regular a programação da sua sala, a multiplicar as fontes de recursos. Normalmente, programadores e proprietários de salas de cinema independentes são muito cinéfilos, querem ver mais programação. Gostam dessa brincadeira de escolher filmes. Não é só programar aquilo que está ofertado no mercado e que tem mais possibilidades de sucesso, mas também pensar como é que você alimenta esse ambiente, esse público que é cinéfilo. O que você precisa mostrar? O que é relevante? O que pode virar tendência? Ter uma distribuidora ajuda nisso.”

Ainda no terceiro dia de evento, outro assunto que norteou um dos painéis foi os impactos do VOD para o cinema brasileiro. A conversa foi com o diretor da Ancine Paulo Alcoforado, a deputada estadual Olívia Santana e a pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Kátia Morais.

Kátia apresentou dados de exibição no Brasil e lembrou que mais de 50% dos filmes brasileiros que chegaram às salas não venderam mais de mil ingressos. “Isso é um dado muito gritante para a gente compreender que ainda esbarramos no nosso problema de origem, que é o filme nacional chegar ao grande público. Esse é um ponto importante para a gente pensar como é que vai se ocupando desses espaços e, a partir disso, mexendo em lógicas da produção, da circulação e do consumo de conteúdos audiovisuais, pensando sobretudo em conteúdos brasileiros", alertou.

Ela também pontuou que as empresas de VOD são big tech transnacionais, que têm uma alta capacidade financeira e alta estrutura tecnológica, importantíssimos dentro do jogo da indústria hoje, que é o acesso a dados. “Então, as plataformas lidam com acesso aos dados e são capazes de fazer qualquer tipo de cruzamento com isso. A exata medida de quem consome, quanto consome, como consome, recortes regionais, recortes por faixa etária, recortes de renda. Isso, no contexto transnacional de mídia, é um poder que é maior do que qualquer outro.”

Por outro lado, o cinema continua tendo o trunfo da experiência e isso, segundo Kátia, as plataformas não são capazes de extinguir. No entanto, ela lembrou também, é preciso atentar ao fato de que a escolha do VOD ao cinema acontece mais por fatores econômicos e sociais. “A gente tem estudos que mostram que cerca de 60% dos consumidores, quando sabem que o filme vai para a plataforma, não assistem na sala de cinema. Deixam para assistir na plataforma, porque é mais cômodo, porque tem a questão do valor da passagem. E aí entram em jogo questões de ordem econômica, cultural, social, uma série de fatores", apontou a pesquisadora.

Segundo Alcoforado, uma das principais questões em debate no Congresso é criar um dispositivo que fixe uma janela exclusiva de exibição em sala. Na França, por exemplo, o produto nacional é explorado por 12 meses antes de ir para catálogo em streaming. “A questão de regulação não é só uma questão de fomento à produção audiovisual, que é importante, mas é uma questão de estabelecer regras de convivência entre pequenos, médios, grandes brasileiros e estrangeiros, em favor do melhor desenvolvimento do mercado audiovisual brasileiro e para a melhor circulação da propriedade intelectual brasileira, na melhor versão possível de um mercado de licenças sobre conteúdos audiovisuais", disse o diretor da Ancine.

Há dois projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional sobre a regulamentação das plataformas de streaming, um criado na Câmara dos Deputados e outro no Senado Federal. Para Alcoforado, nenhum dos dois está à altura dos problemas do setor. “Eu acho que o deputado Dr. Luizinho (PP) ouviu, assimilou um conjunto de questões, e fez um projeto incomparavelmente menos nocivo do que o PL do Senado. Por exemplo, com relação à relativização do conceito de produtora brasileira, à aplicação da Condecine Remessa… Há uma coleção de questões muito nocivas ao desenvolvimento do audiovisual brasileiro no PL do Senado. Então, hoje, o PL da Câmara, relatado por um deputado federal do PP, do Progressistas, acho que é um texto muito melhor do que o que está no Senado.”

Já Olívia lembrou que, para que esses projetos tenham os encaminhamentos adequados ao setor, é necessário haver mobilização. “Nem toda briga o governo consegue comprar, sobretudo se não tem uma base social ampla, articulada, que vá pra cima pra dar o respaldo necessário", disse a deputada.

O último painel da sexta-feira foi sobre novos modelos de operação das salas, tecnologia, custos e estratégias de marketing, a partir do exemplo da OrionPC, representada pelo sócio Rogério Silveira, e do Cine Roxy, com o diretor Maurílio Moriyama. Eles falaram sobre locação de projetores, redução de custos operacionais e o uso estratégico do lobby como espaço de comunicação e ativação de público.

Silveira defendeu que os exibidores se inspirem pelos exemplos do varejo quando o assunto for comunicação com o consumidor, para conquistar mais sucesso na ponta. “Ainda temos muito potencial para explorar no consumidor que está dentro da sala de cinema", disse, reforçando ainda que a comunicação no cinema pode ajudar a alavancar as vendas de outros produtos além do ingresso, e isso pode ser feito a partir do uso das tecnologias já disponíveis e acessíveis, como os painéis de LED no lobby e nos pontos de autoatendimento.

“Os ATMs aumentaram as vendas de tickets em salas de classes D e E e também de vendas de bombonieres", disse Moriyama, que no Cine Roxy utiliza o serviço de locação de projetores oferecido pela OrionPC em parceria com a Christie - programa inédito no mercado de cinema mundial. Esse modelo diminui consideravelmente os custos e permite que salas menores possam ter tecnologias mais avançadas.

No entanto, a modernização é relevante por si só, mas não garante resultado de público. “É importante comunicar a modernização", explicou Silveira. “Porque nem todo cliente entende quando a tecnologia é substituída. E também trabalhar na reconexão com o espectador, para recriar o hábito de ir ao cinema, porque hoje o cinema não compete só com o VOD. E a tecnologia é parte disso. Os exibidores estão buscando oferecer a melhor experiência dentro da sala, para que valha a pena ir", completou.

Experiências internacionais

O sábado começou com a apresentação de um case de sucesso do cinema indiano. Uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo, o país consegue manter uma forte relação histórica entre produção local e público, contribuindo para a vitalidade das salas de cinema locais.

O painel contou com a presença de Naveen KL, fundador e CEO da Breaking Glass Entertainments, e José Eduardo Ferrão, CEO da Auwe. KL contou que cerca de 1.800 filmes são produzidos por ano na índia, três vezes mais do que em Hollywood, e que 90% do conteúdo exibido nas salas de cinema do país são nacionais. “Nós, indianos, amamos muito histórias. E temos um conteúdo muito rico de histórias indianas, então a gente acaba priorizando esse conteúdo nacional", disse.

O país conta com mais 19.500 telas de exibição, com uma receita anual de bilheteria de R$ 7,68 bilhões. Mas até uma década atrás, o cenário era diferente. Havia uma barreira linguística, já que são 20 idiomas falados na Índia e os filmes não circulavam nem dentro do próprio país. Isso só mudou quando o diretor SS Rajamouli lançou um longa-metragem sem diálogos (Eega) que fez muito sucesso não apenas entre os indianos, mas abriu as portas do mundo para novas produções nacionais.

Em sua apresentação, KL mostrou vídeos de salas de cinema na Índia, onde os espectadores - ao contrário de outros países - interagem fortemente com o filme, cantando, dançando, tomando lugar na frente da tela. Também mostrou como a emoção gerada pelos filmes indianos tem capturado plateias nos EUA. “Idioma não é uma barreira, desde que se trate o filme como original em qualquer lugar.”

O executivo também falou sobre o que, a seu ver, é o verdadeiro poder do exibidor: o que ele pode controlar. Ou seja, a sensação que a sala de cinema oferece, a temperatura, o conforto da poltrona, a recepção, o som. “O exibidor não pode controlar o conteúdo, mas pode controlar a experiência dentro do cinema. E tornar ir ao cinema um hábito, independentemente do filme que está em cartaz", disse.

E seguindo no intercâmbio internacional, o painel seguinte trouxe exemplos de como funciona o mercado na Coreia do Sul e na França, a partir das experiências de Sandrine dos Santos, diretora da Aliança Francesa Bahia, e Nicolas Piccato, adido audiovisual da França no Brasil - ele que já morou na Coreia do Sul.

Piccato contou que a Coreia do Sul, que tem cerca de 50 milhões de habitantes, havia 3.300 salas de cinema pré-pandemia. Muitas foram fechadas, mas estão sendo reabertas pouco a pouco. Na França, que tem aproximadamente 70 milhões de habitantes, são 6.300 salas. No Brasil, com mais de 200 milhões de habitantes, há 3.554 cinemas registrados.

“Em 2003, na Coreia, houve a batalha pela cota de tela, e aí começou a paixão dos coreanos pelo cinema nacional", disse o adido. O modelo do Centro Nacional de Cinema (CNC) foi exemplo de política para o país asiático. O CNC foi criado na França após a Segunda Guerra, com a proposta de ocupar as salas de cinema como espaços de socialização. “É um modelo de solidariedade industrial, com dois pontos estratégicos: parte do valor do ingresso - de qualquer filme, de qualquer lugar do mundo - vai para a produção do cinema nacional, o que acaba financiando a produção local; e parte vai para a modernização das salas.”

No modelo francês há ainda acordos de coproduções internacionais, regulamentação do streaming, valorização do cinema de arte, incentivo à formação de público, e 70% do conteúdo das salas é europeu (não só francês). “É importante apoiar o cinema de arte, assim como é importante educar para a ida ao cinema. Uma coisa que a gente esquece é que, no cinema, as coisas que estão acontecendo na tela são maiores do que as pessoas. Em todas as outras telas as coisas são menores. Então, o cinema é uma aventura coletiva que não é única, mas esse valor é importante”, lembrou o adido francês.

A democratização do acesso ao cinema foi o tema do painel que se seguiu, com Nilson Rodrigues, fundador do Cine Cultura Liberty Mall, e André Ricardo Araujo Virgens, coordenador-Geral de Políticas para Difusão e Internacionalização Audiovisual do MinC.

Rodrigues reafirmou que, para haver mudança de hábito, é necessário ter programas consistentes de formação de plateia, mas também programas para manter e ampliar o número de salas. E reforçou que políticas voltadas a cineclubes e cinema na praça, por exemplo, devem ser diferentes daquelas voltadas ao acesso às salas de cinema. “Nós, exibidores, temos que exigir que uma parcela dos recursos públicos sejam direcionados a levar o público às salas de cinema. Não tem a ver com concorrência entre salas públicas e privadas, mas permitir a quem nunca foi que possa ir ao cinema no shopping. Tem que ter sala pública sim, mas sem concorrer com o privado.”

Complementando sua apresentação do dia anterior, Araújo falou sobre os eixos 4 (formação) e 5 (infraestrutura, equipamentos e espaços culturais) do Plano Nacional de Cultura, lembrando que as diferentes janelas de exibição podem e devem se complementar e que se deve ampliar o circuito com público aproveitando estruturas já existentes, como centros culturais e universidades.

“O problema não é a democratização do acesso, não são as ações afirmativas, não é a regionalização. Digo isso porque acho que é realmente importante a gente direcionar nossa energia não para falsos inimigos, mas sim para as soluções. Cineclube, streaming e salas de cinema são complementares. A relação com educação é complementaridade dentro de um sistema que deve ser entendido a partir das suas especificidades, mas de forma complementar, e não de forma a visualizar o outro como um inimigo. Muito pelo contrário. Acho que é tentar entender a convergência desse sistema dentro dos elos da cadeia do arranjo produtivo e dentro dos segmentos que compõem ele", defendeu Araújo.

Rodrigues explicou que foi feita ao Senado uma proposta do Vale Cinema, que garantiria ingressos a R$ 12, sendo que R$ 6 ficariam para o exibidor, R$ 3 para o distribuidor e R$ 3 para o produtor. “Custaria ao governo R$ 120 milhões para levar 12 milhões de brasileiros ao cinema, diretamente com as salas que já estão em atividade", explicou. E defendeu que qualquer recurso público que seja destinado às salas deve estar vinculado à comprovação da presença do público. “Para não repetir o vício das políticas para a produção, que recebe dinheiro sem ter que necessariamente garantir público. Nós já temos filmes que ninguém assiste. Aí nós vamos ter salas de cinema abertas para público nenhum. Aí é o fim dos tempos, né?”.

Articulação e estratégia

Nilson Rodrigues seguiu na penúltima mesa do sábado, que trouxe também o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, atualmente assessor do BNDES, para falar sobre visões estratégicas para a criação de uma indústria audiovisual. Ferreira se uniu à defesa de que é necessário promover articulação e destinar recursos não apenas para a produção. “Não se pode jogar a lata do filme pela janela e achar que vai dar certo. É preciso promover. Essa fase é incontornável", disse o ex-ministro.

Ele afirmou ainda que a indústria cultural, seja em que área for, só é relevante se for conectada e integrada com a política cultural. "E a produção industrial, inevitavelmente, vai ter que pensar em mercado. A relação do cinema brasileiro com o público tem que ser uma compreensão de mercado. Mercado cultural não é batata. É um produto cultural que tem uma função social e carrega um significado. E esse significado é tão importante para a sociedade quanto a dimensão econômica. Isso não é difícil de fazer. O cinema brasileiro existe hoje no Brasil inteiro, tem uma capacidade produtiva razoável, conseguiu alavancar os recursos do financiamento, tem técnicos de qualidade, tem estúdios. Vocês poderão perguntar se são o suficiente. Não, não são o suficiente. Mas é a base para estruturar uma política industrial.”

Fechando a noite, Paulo Alcoforado voltou à mesa, acompanhado do cineasta, pesquisador e gestor cultural Alfredo Manevy, e de Cláudio Marques, diretor do Cine Glauber Rocha, para falar sobre como articular o circuito existente para ampliar a circulação do cinema brasileiro.

Marques acredita que é preciso cuidar para que as salas já existentes não sejam fechadas, mais do que se preocupar em abrir novas salas. “Nós temos uma quantidade grande de salas de cinema que pode fechar. Na verdade as salas de cinema estão fechando. Nos nossos grupos, a gente recebe quase que semanalmente notícias de salas fechando, seja em shopping, seja cinema de rua. E eu costumo defender que a gente precisa seduzir, trazer o exibidor brasileiro para perto do cinema brasileiro. A gente não pode simplesmente fazer como a gente está fazendo hoje, que é exigir que ele exiba o cinema brasileiro sem ter alguma contrapartida, uma devida reparação econômica caso o filme não tenha um bom desempenho comercial.”

Manevy disse que, no macro, sente-se aliado à ideia da necessidade de uma política de exibição no Brasil, e concorda com a ideia de que, mais do que construir novos equipamentos, deve-se aproveitar os já existentes - como os CEUs. Mas questiona: como é possível formar mercado sem público? “Acho que isso é inviável. Formar público é uma política também de mercado, não só social. Sem público não tem bilhete, não tem desenvolvimento econômico.”

Para ele, manter circuito público não inviabiliza também apoiar políticas públicas para os exibidores privados. “Hoje o problema não é dinheiro, é falta de política, falta de critério, planejamento, dividir direito o dinheiro. É importante apoiar o circuito público, onde o privado não tem como investir", explicou, sugerindo uma aliança entre exibidores públicos e privados para, juntos, apresentarem um projeto a ser apoiado pelo governo. “Historicamente, quem fez a política audiovisual no Brasil foram os criadores, os produtores. Mas se encaixar uma visão estratégica da exibição, com olhar social, econômico e cultural, a exibição é mais potente do que a produção e vira o jogo. Faz falta a exibição estar na mesa", concluiu.

Alcoforado lembrou que não existe nenhum mercado de exibição maduro no mundo em que o produto nacional não ocupe um espaço relevante, e identificou como os dois problemas principais do segmento de salas de cinema: um país do tamanho do Brasil não pode ter apenas 3.500 salas, mas o problema mais urgente são os vazios nas salas durante as sessões dos filmes brasileiros.

“Concordo que as políticas públicas para a exibição hoje são insuficientes, mas o olhar para o exibidor não pode ser sem contrapartida. E essa proposta tem que ser feita do setor de exibição para o Estado brasileiro, com o compromisso de ampliar a presença da produção brasileira. O que vocês podem oferecer para o cinema nacional? Eu acredito que se vocês operarem em rede, se pensarem o negócio de vocês em conjunto, podem ter uma condição muito especial, muito melhor do ponto de vista negocial. E acho que vocês têm condições de convencer o governo federal e as políticas públicas a aportarem recursos”, finalizou o diretor da Ancine.

Premiação e carta dos exibidores

Além dos painéis de debates, o II Seminário de Exibição contou com apresentação de line-ups da Vitrine Filmes, Filmes do Estação, O2 Play e Olhar Filmes. Também foram exibidos sete filmes brasileiros e uma sessão especial de “Eega", do aclamado diretor indiano S.S. Rajamouli. As produções nacionais concorriam a uma premiação de R$ 15 mil, oferecida pelo Projeto Paradiso, além da garantia de exibição em pelo menos 50 salas de cinema por todo o Brasil, dos associados da Aexib. O filme vencedor deste ano foi a ficção científica Yellow Cake (Olhar Filmes), de Tiago Melo.

Ano passado, O Último Azul (Vitrine Filmes), de Gabriel Mascaro, foi o escolhido, chegando a mais de 150 salas e ultrapassando 220 mil espectadores. “Os filmes acabam despertando interesse dos exibidores e esse é um dos objetivos do Seminário: conectar e formar um circuito vasto de exibição de cinema brasileiro, a partir das salas já existentes", falou Cláudio Marques.

Como principal resultado imediato das conversas em Salvador, a organização do Seminário fez a leitura de uma carta que será enviada à Ministra da Cultura, ao Conselho Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual e à Diretoria Colegiada da Ancine, com reivindicações prioritárias para o fortalecimento do mercado exibidor e a ampliação do acesso ao cinema nacional. Clique aqui e confira o documento na íntegra.

Marques acredita que a busca por soluções equilibradas para o setor como um todo deve continuar. “Eu acho que a noção de solidariedade entre os setores precisa vigorar de fato. Creio que aprendemos bastante com outras cinematografias e acredito que tem muita coisa boa que pode ser feita e que talvez não seja tão complicado para a gente."

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