Tecnologia no cinema: entre inovação e sustentabilidade financeira
Do projetor à inteligência de dados, novas tecnologias redesenham a operação das salas enquanto setor busca equilibrar investimento e rentabilidade
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(Foto: Reprodução)
Entre a pressão por inovação e os desafios financeiros do setor, os exibidores vivem hoje um de seus momentos mais decisivos. Para competir com o streaming é preciso ir além do filme, e colocar a tecnologia no centro da estratégia para atrair o público e sustentar as operações.
Acompanhando as grandes tendências e desafios desse ecossistema que envolve a experiência cinematográfica, a CinemaCon 2026 dedicará parte de sua programação justamente para essa questão: como as inovações tecnológicas podem ajudar os cinemas a se destacarem em um mercado tão competitivo? O primeiro dia do evento realizado em Las Vegas reserva espaço para três painéis, sobre tecnologia imersiva nas salas de exibição, Inteligência Artificial para operações nos cinemas, e ecnologia como ferramenta de interação com o público.
Para destrinchar os segredos do papel de novas tecnologias na missão de fortalecer os cinemas e torná-los mais competitivos, o Portal Exibidor conversou com sete executivos de grandes empresas que trabalham diretamente com exibidores de todo o mundo, e não apenas do Brasil. Todos foram unânimes em ressaltar a necessidade de inovações constantes. Mas aí também surge uma grande dúvida: como fazer grandes investimentos em novas tecnologias em um momento em que os cinemas ainda buscam alcançar os patamares de renda e receitas atingidos até o ano de 2019, antes da pandemia de Covid-19?
A bilheteria mundial, por exemplo, ainda está 11% abaixo da média de 2017-2019, enquanto na América do Norte, o maior mercado do mundo, os números ainda estão a 14% da média atingida nos mesmos anos. No caso do Brasil, Aline Zambrini, sócia e diretora-executiva da Tomun, empresa especializada em análise de dados que abrange todas as etapas de um projeto audiovisual, apontou que a média de venda de ingressos de 2017 a 2019 em comparação com a média de 2023 a 2025 apresentou um déficit de 32,38%, e por se tratar de uma questão sistêmica, não pode ser resolvida de forma individual.
"Cinema e inovação tecnológica sempre andaram de mãos dadas e ambas são consideradas de alto risco financeiro por estarem no campo da indústria de protótipos. Após a pandemia houve uma mudança de hábitos massiva e hoje vivemos uma mudança de patamar em relação ao número de ingressos vendidos, e não necessariamente um cenário de recuperação aos níveis pré-pandemia", analisou.
Segundo ela, os cinemas independentes e as redes pequenas e médias podem não ter fôlego financeiro para investir na modernização das salas e dos sistemas operacionais, gerando um gap maior entre eles e as grandes redes. “É preciso realizar uma análise setorial para entender o impacto disso na relação do público com a experiência cinematográfica. A questão tecnológica e mercadológica da cadeia cinematográfica do Brasil é uma necessidade política do setor. Para planejar e executar as transformações de fato necessárias do setor, é fundamental um alinhamento das políticas com as necessidades da cadeia."
Na esfera individual da realidade de cada rede exibidora, Zambrini destacou a necessidade de utilizar a tecnologia para identificar por meio de pesquisas - e também diálogo - o que atrai o público para cada complexo e o que o público cativo do local acredita que possa ser melhorado, para que seja possível atuar nessas frentes específicas e fazer investimentos a partir de um planejamento pré-definido.
Neste contexto, a palavra de ordem é "sustentabilidade financeira", e Luciano Taffetani, gerente de vendas sênior e parcerias para cinema da Dolby América Latina, também chama a atenção para a necessidade de cada exibidor se adequar à sua realidade específica. "Hoje vemos cinemas mais rentáveis do que antes, enquanto outros lutam para se adaptar e alguns até deixaram de existir. Os exibidores precisam modernizar suas salas, mas nem sempre têm os recursos necessários. Para as grandes redes, a estratégia é otimizar as operações mais rentáveis com adequações e modernizações, deixando de lado aquelas que exigem esforços desproporcionais. Para os exibidores médios e pequenos, essa transição é vital. É o que garantirá sua continuidade. Se têm um público consistente, precisam investir nessas melhorias para assegurar sua audiência, maximizar sua rentabilidade e competir de igual para igual com as grandes redes. Essa é a chave para manter o negócio vivo", analisa.
Outro fator que dificulta que exibidores façam grandes investimentos em tecnologia, segundo ele, é a crise de conteúdo adequado para os cinemas, com grandes produtoras e distribuidoras de Hollywood enfrentando problemas e oscilações que as impedem de consolidar um fluxo estável de lançamentos no ritmo que o setor precisa. Ao mesmo tempo, é necessário estar atento à rentabilidade, oferecendo melhores experiências de entretenimento, melhores ofertas de alimentos e produtos, programação mais diversa e uma operação interna mais eficiente.
A boa notícia é que os avanços dos últimos anos permitem reduzir custos de mão de obra a cada inovação, tornando possível a meta de "menos trabalho, mais lucro".
"Vejo a tecnologia laser em expansão e, sinceramente, gostaria que todos os cinemas atualizassem seus projetores para os produtos com a mais recente tecnologia a laser. Além de oferecerem melhor qualidade de imagem, o custo de propriedade é metade do dos projetores de xenônio digitais", explica Jeffrey Kaplan, líder de Cinema Digital da Sharp. "O consumo de energia dos projetores a laser é, em média, de 40% a 50% do consumo dos projetores de xenônio. Somando a isso a economia de energia por não precisar usar o sistema de climatização, os custos totais de energia para os projetores diminuirão de 60% a 70%. Os projetores menores consomem, em média, de 50% a 60% da energia dos projetores atuais, enquanto os projetores maiores consomem, em média, entre 40% a 50% da potência atual."
Projetores e sistemas de som
Hoje projetores e sistemas de som são pilares centrais da experiência cinematográfica. A tecnologia imersiva está transformando os cinemas, sendo uma das grandes armas dos exibidores para atrair o público neste mercado extremamente competitivo. A escolha correta de equipamentos pode redefinir a qualidade dessa experiência, e as salas precisam oferecer mais do que simplesmente o conteúdo.
"Precisamos proporcionar uma experiência inigualável e os avanços na tecnologia de projeção, como a iluminação a laser, que resulta em maior brilho, contraste e cores mais vibrantes, garantem que os filmes sejam apresentados com uma escala e um impacto visual que nenhum sistema doméstico consegue replicar", afirma Christopher Shu, diretor sênior de marketing da Christie. Mas para ele, igualmente importante é a dimensão social. “E o cinema combina de forma única projeção de ponta com uma experiência compartilhada e coletiva - centenas de pessoas reagindo juntas em tempo real. A tecnologia aprimora a imagem, mas é a combinação de uma apresentação espetacular com a emoção coletiva que realmente diferencia o cinema. Nenhuma tela em casa, e nenhuma tecnologia isoladamente, pode substituir isso”, defende.
Um dos grandes desafios atuais dos exibidores é conseguir equilibrar experiências premium com eficiência operacional. A Christie trabalha com o Christie VDR, um novo software que melhora o contraste e aumenta a eficiência de laser em projetores de cinema, com uma tecnologia que reduz o consumo de energia do laser em até 30% e pode prolongar a vida útil do projetor em até 50%, reduzindo os custos de manutenção. "Isso permite que os exibidores elevem a qualidade da apresentação de forma consistente em toda a sua rede, não apenas nas telas premium, ao mesmo tempo que melhoram a eficiência energética e reduzem o custo total de propriedade a longo prazo. Esses avanços ajudam os cinemas a se manterem competitivos e a oferecerem experiências que o público continua a valorizar", completa Shu.
Essas experiências imersivas são o grande diferencial na competição por audiência, ainda mais quando pensamos no streaming, e manter essa vantagem exige tecnologia que funcione de forma consistente. “O cinema se destaca não por imitar os serviços de streaming, mas por celebrar o que o torna especial: uma experiência social premium, imersiva e fora de casa que não pode ser replicada em outro lugar", destaca Dr. Man-Nang Chong, fundador e CEO da GDC.
Para ele, manter essa vantagem exige tecnologia confiável. “Quando esses sistemas funcionam sem problemas, o público permanece totalmente envolvido e imerso", lembra ele, destacando que hoje há uma tendência de migração para as tecnologias HDR, HFR e tecnologia LED nas salas de exibição, minimizando a manutenção e garantindo uma operação mais estável e duradoura.
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Sobre a viabilidade financeira, Chong acredita que uma alternativa é implementar novidades em etapas. "Os exibidores estão lidando com o desafio das restrições financeiras para a adição de novas tecnologias implementando orçamentos estratégicos para gerenciar o fluxo de caixa, testando novas inovações e implantando novos produtos em fases. É importante avaliar como a tecnologia impacta as atividades que geram valor, o crescimento da receita e a vantagem competitiva."
A expectativa do mercado é que no curto prazo as inovações tecnológicas estejam focadas em eficiência energética, automação inteligente e maior durabilidade dos sistemas de projeção, proporcionando maior desempenho e economia operacional aos exibidores.
Outra alternativa que alia avanço tecnológico e sustentabilidade financeira é o sistema de aluguel de projetores, como o que a Barco possui no Brasil em parceria com a Santa Clara Poltronas. "No Brasil temos o modelo de locação dos projetores e kits retrorfits", aponta Ivan Cannau, EVP Latam da Barco. "O mercado de exibição está em processo de recuperação, e por isso nosso foco tem sido oferecer soluções que combinem inovação com sustentabilidade financeira.”
A projeção a laser, diz Cannau, é um exemplo claro disso: ela elimina os custos de substituição de lâmpadas, reduz as necessidades de manutenção e melhora a eficiência energética. “Esses benefícios impactam diretamente o custo total de propriedade (TCO), permitindo que os exibidores inovem sem comprometer seus orçamentos. Além disso, iniciativas como o LLU (Light Lifetime Upgrade) aumentam a previsibilidade do desempenho ao longo do tempo e ajudam a proteger o investimento em projeção a laser. Para ampliar ainda mais a flexibilidade financeira, nossos modelos de financiamento são 'Laser Now' e 'CaaS'”, explica o executivo.
Inteligência Artificial e interação com o público
Para conseguir destaque em um mercado extremamente competitivo, Mauro Gonzales, diretor de negócios da Ingresso.com, aponta duas premissas fundamentais: oferecer mais praticidade ao consumidor final e, ao mesmo tempo, otimizar a operação do exibidor. "Fazemos investimentos contínuos em soluções tecnológicas que, somadas, contribuem para elevar o padrão de qualidade da experiência de exibição", conta.
Ele vê como uma tendência para os cinemas que as inovações tecnológicas avancem de forma integrada à jornada do consumidor, com foco em personalização e experiência. Uma das premissas da Ingresso.com nesse sentido é ter eficiência e assertividade na conversão do consumidor, utilizando dados de forma eficaz para uma tomada de decisões mais inteligente. "Nossa expectativa é seguir evoluindo o site e o app como principal ponto de contato digital com o usuário, ampliando recursos que tornem a experiência cada vez melhor. Avançamos recentemente em soluções que impactam diretamente a conversão e a recorrência, como a compra parcelada e a otimização do uso de programas de fidelidade dos exibidores. São iniciativas que combinam tecnologia e comportamento do consumidor, tornando o cinema uma opção de lazer mais atrativa e competitiva no momento da escolha.”
Ao mesmo tempo, com um CRM estruturado, é possível personalizar ofertas e comunicações de acordo com o perfil de cada usuário, tornando a experiência mais relevante. “Temos ainda recursos que aproximam fãs de lançamentos, como o 'Lembre-me', que notifica sobre a abertura de pré-vendas e vendas de filmes, além do cancelamento automático em poucos cliques, que diminui a barreira de uma compra antecipada", conta Gonzales.
Essa interação e proximidade com o consumidor, nos dias atuais, tornaram-se praticamente inviáveis sem o uso de Inteligência Artificial. . A utilização correta e contextualizada de dados é uma importante ponte para entender a experiência do público, e as inovações tecnológicas permitem manuseá-los, processá-los e analisá-los, de modo a melhorar cada vez mais a atuação e os resultados das salas. .
Aline Zambrini, da Tomun, destaca que interações na internet, em combinação com dados de bilheteria, permitem acompanhar a jornada do consumidor e entender os gatilhos emocionais que podem convidar os públicos para as salas de cinema. Além disso, a Inteligência Artificial pode ser uma grande aliada para entender a jornada do consumidor, que é importante lembrar, não começa e nem termina na sala de cinema.
"A IA também pode ajudar na melhora da experiência do usuário, por meio de um algoritmo de recomendação, por exemplo. Como consumidores, estamos cada vez mais acostumados às experiências personalizadas, que são possíveis por conta desses algoritmos. Entender melhor o seu consumidor faz parte de oferecer experiências memoráveis, que o farão retornar. Para isso, é essencial ter uma estrutura de inteligência de dados que entenda a sua base de clientes e possa ter estratégias personalizadas de acordo com cada grupo", finaliza.
No fim, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a funcionar como critério de sobrevivência. Em um setor ainda em recuperação, inovar já não é só uma escolha estratégica, mas sim uma necessidade. O desafio para os exibidores está em encontrar o ponto de equilíbrio entre investir no futuro e garantir a sustentabilidade do presente.