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24 Abril 2026 | Yuri Cavichioli

CinemaCon 2026 reforça confiança em novo ciclo para o mercado

Edição deste ano foi marcada por percepção de maior alinhamento da indústria

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(Foto: Divulgação)

A CinemaCon 2026 terminou consolidando uma percepção de maior sinergia entre estúdios, exibidores e fornecedores, em uma edição marcada por apostas fortes de conteúdo, defesa das janelas de exibição e discussões mais maduras sobre tecnologia e novas receitas. A convenção projetou confiança em um calendário robusto e em um mercado que volta a discutir crescimento com bases mais consistentes.

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Na cobertura especial do Portal Exibidor, com acompanhamento diário do evento e um podcast exclusivo resumindo a jornada em Las Vegas, um traço que apareceu com nitidez: o discurso deste ano foi menos sobre recuperação e mais sobre sustentação do negócio, com um olhar mais articulado sobre os vetores que devem mover a indústria nos próximos anos.

“A CinemaCon 2026 deixou evidente um sentimento que, para muitos de nós que acompanhamos de perto a evolução do mercado, já vinha se consolidando: a indústria está mais realista, estratégica por necessidade e, sobretudo, mais consciente de seus vetores de crescimento", afirma Luciano Taffetani, da Dolby. “Estúdios, Motion Picture Association (MPA) e exibidores convergiram em uma mesma leitura: o mercado ainda opera abaixo dos níveis pré-pandemia, mas o setor está ajustando seu modelo com produtos mais seletivos, foco renovado em qualidade e decisões de risco forçadamente mais calculadas.”

A promessa de David Ellison, CEO da Paramount Skydance, de preservar janelas mínimas de 45 dias, com intenção de chegar a 90, e manter pelo menos 30 lançamentos anuais, considerando as duas empresas, foi vista como um dos anúncios mais relevantes da convenção. Para Mauro Gonzalez, do Ingresso.com, observar os distribuidores defenderem essa ampliação de exibição foi importante, porque isso pode alterar de forma relevante o comportamento do público. “A tendência é que o consumidor volte a reconhecer um intervalo mais claro entre a estreia nas salas e a chegada dos filmes às plataformas de aluguel ou streaming.”

Aposta nos conteúdos 

Nas apresentações dos grandes estúdios, Warner e Universal levaram line-ups que reforçaram discussões recorrentes nesta edição da CinemaCon, como diversidade de portfólio, força das franquias e equilíbrio de calendário. O destaque não esteve apenas nos materiais exibidos, mas no discurso de confiança em uma oferta ampla de títulos para sustentar o mercado nos próximos anos. 

Na Warner, filmes como Duna: Parte Três, Supergirl, Cara-de-Barro, O Gato da Cartola e Digger reforçaram a aposta do estúdio em combinar franquias, propriedades originais e novos universos. Já o anúncio do selo Clockwork, voltado para produções de menor orçamento, surgiu como um sinal de diversificação de portfólio.

Na apresentação da Universal, o discurso passou pela força dos realizadores e pelo peso de um calendário que inclui A Odisseia, Dia D, Minions & Monstros e A Ilha Esquecida, em uma estratégia lida pelo mercado como reforço da consistência do estúdio no circuito cinematográfico.

“A CinemaCon 2026 reforçou nossa confiança no futuro da indústria e na solidez da parceria com os exibidores", afirma Hernán Viviano, vice-presidente Latam e gerente-geral da Warner Brasil e Universal Pictures Brasil. Segundo ele, no caso da Warner, a apresentação destacou o conceito de que ser original não é um risco. “Já pela Universal, reforçamos porque somos a casa de alguns dos principais diretores da atualidade. Voltamos muito entusiasmados, com a percepção de que estamos no caminho certo ao construir line-ups plurais e altamente competitivos.”

Esse movimento dialoga com uma percepção mais ampla de quem esteve na convenção, em que os estúdios buscaram enfatizar não apenas volume de lançamentos, mas equilíbrio de portfólio e sustentação de calendário, algo visto por exibidores como fator relevante para os próximos anos.

A força do calendário se apresentou de forma recorrente nas avaliações dos brasileiros em Las Vegas ouvidos pelo Portal Exibidor. E a combinação entre grandes franquias e novas propriedades reforçou a percepção de um pipeline mais equilibrado, algo frequentemente apontado como sinal positivo para o mercado. 

“A CinemaCon desse ano deixou o mercado bastante otimista. Não só 2026 parece sólido, como 2027 e 2028 muito promissores em termos de conteúdo”, afirma Caio Meira, da Amazon MGM, entusiasmado com as grandes produções apresentadas pelo estúdio e a reação do público presente a títulos como Mestres do Universo, Jack Ryan: Guerra Fantasma, Verity, The Thomas Crown Affair, Highlander, S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço 2, Spaceballs: The New One. “E claro, em breve esperamos anúncios importantes em relação ao bastante aguardado novo filme da franquia Bond!”, completa o executivo.

“Pela primeira vez nós temos uma cadência e consistência nos lançamentos. Mesmo em meses que costumam ser mais vazios, existe conteúdo de todos os lados e para todos os perfis de público”, afirma José Octavio Freitas, da Cinemark.

E se antes os Vingadores lutaram contra Thanos, este ano a “batalha” parece ser com Duna. O confronto de calendário entre Duna: Parte Três — onde a sua “Manopla do Infinito” são as salas IMAX — e Vingadores: Doutor Destino, levou para a convenção uma discussão sobre o peso estratégico das telas premium. Dentro desse cenário, o anúncio do Infinity Vision, da Disney, surgiu como nova variável nessa disputa, com potencial impacto em circuitos como Cinemark XD.

A Disney também apareceu entre os destaques pelo volume de IPs no calendário, com Toy Story, Moana e Vingadores. “O que vimos nos deixou bastante otimistas. Além de novidades, há o retorno de franquias muito queridas e isso tende a puxar público e gerar receita para todo o ecossistema”, diz Adriano Pereira, da Preshow.

A própria CinemaCon entrou na pauta. A menor presença de pré-estreias, possivelmente ligada à proximidade com Cannes, abriu discussões sobre o papel de Las Vegas como espaço de apresentação de materiais, reação da indústria e construção de expectativa para os lançamentos. 

Ainda assim, as apresentações ao vivo foram marcantes. “Saí da CinemaCon profundamente impressionada com a quantidade de bons filmes e, acima de tudo, com a força das mensagens sobre a experiência do cinema. É sobre preservar a magia coletiva da sala escura. Essa vivência só reforça o quanto a tela grande continua sendo uma plataforma poderosa e insubstituível para o lançamento de qualquer conteúdo”, resume Maricy Leal, da Flix Media.

Para os independentes, ficou a percepção de que a convenção recolocou a curadoria e a diversidade de oferta em discussão. Isso abriu espaço para uma visão menos concentrada apenas nos grandes blockbusters. “A importância do conteúdo curado ficou muito clara. A convenção mostrou que os caminhos do independente continuam muito vivos e reforçou para nós que a escolha por filmes bem posicionados e campanhas criativas continua fazendo diferença”, comenta Nelson Sato, da Sato Company.

Distribuidores brasileiros também observaram a convenção por uma ótica bastante prática, ligada à recomposição do circuito. Mais do que entusiasmo com line-ups, houve atenção ao impacto que o volume de lançamentos pode ter sobre ocupação e receita. “Acho que o exibidor pode reequilibrar o caixa. Vi muito produto forte, um momento favorável para o mercado e um volume de lançamentos que pode ajudar o circuito a respirar melhor nos próximos anos. Há uma combinação interessante entre grandes franquias, boas surpresas e filmes com potencial real de público”, opina Marcio Fraccaroli, da Paris Filmes.

Tecnologia e experiência no centro da estratégia

Se na apresentação dos estúdios o foco esteve no conteúdo, na área de soluções as discussões se concentraram em eficiência e experiência. Projeção a laser, áudio imersivo, automação, LED e digital signage apareceram de forma recorrente, conectados a temas práticos para o exibidor, como atualização de infraestrutura, eficiência operacional e novas frentes de receita. E mais do que apresentar novidades, buscou-se relacionar essas soluções à realidade do circuito. 

“A CinemaCon é um ambiente onde a gente valida caminhos. Os novos RGB 4K e o VDR mostraram uma resposta concreta do mercado para eficiência, qualidade e experiências mais imersivas, e a reação dos exibidores foi muito positiva. Quando a tecnologia deixa de ser discurso e vira experiência, o mercado responde”, afirma Ricardo Laporta, da Christie/Neolux.

Mas o debate não ficou restrito à imagem. Eficiência operacional apareceu com força. Custos, previsibilidade e retorno de investimento surgiram nas conversas técnicas quase tanto quanto a experiência do espectador. Esse foi um deslocamento relevante dentro da pauta tecnológica do evento. “A projeção a laser se consolidou como padrão da indústria. Não é mais uma aposta, é uma realidade operacional, com ganhos em eficiência e previsibilidade que interessam diretamente ao exibidor. O debate agora é menos sobre adoção e mais sobre como extrair valor dessa evolução”, analisa Michael Giliam, da OrionPC.

Entre fornecedores, ganhou força a ideia de que premium deixou de ser apenas posicionamento e passou a ser necessidade operacional. Em vários painéis, a pauta caminhou para a competitividade e atualização do parque exibidor.

Luiz Fernando Morau, da Integradora Digital, reforça essa leitura. “A premiumização deixa de ser diferencial e passa a ser requisito para competitividade. Isso envolve tecnologia, manutenção e uma nova lógica de operação para as salas. Não é apenas atualização de equipamento, é mudança estrutural de operação.”

Também foi recorrente a ideia de que o desafio atual passa menos por acesso a soluções e mais por capacidade de aproveitá-las plenamente. Esse raciocínio apareceu tanto em debates sobre software quanto na operação de salas. E ganhou outra camada, segundo Adrian Susin, da VendaBem: “A tecnologia já chegou. O que ainda amadurece é o uso que se faz dela. O desafio não é apenas ter acesso às soluções, mas extrair valor operacional e comercial delas, e isso passa por maturidade de gestão e dados.”

A fala se conecta a outro eixo muito presente na convenção, o de monetização complementar dentro dos complexos. Em muitos estandes e painéis, o tema apareceu ligado à sustentabilidade econômica das operações. Digital signage, mídia em foyer e soluções para bomboniere apareceram em diferentes frentes como complemento à bilheteria.

Gerações do futuro

Essa leitura operacional também foi influenciada pelo assunto das novas gerações frequentando as salas de cinema. O comportamento do público jovem foi tratado como variável importante tanto para programação quanto para experiência de consumo. Isso aproximou debates de conteúdo e tecnologia.

“A diversificação de conteúdos e o comportamento da geração Z exigem que a gente olhe para experiência e operação ao mesmo tempo. Esse é um movimento que impacta programação, consumo e sala, e que tende a influenciar como o exibidor pensa o negócio daqui para frente”, comenta Douglas Mandrot, da Cineflix.

Essa conexão entre programação, experiência e comportamento do público também apareceu na leitura dos exibidores sobre o futuro do negócio. Para Eduardo Chang, da Cinépolis, o debate passa por uma combinação entre conteúdo, janela e novos hábitos de consumo. “Tanto em conteúdos como novas tecnologias, há uma perspectiva muito positiva para a indústria. Os estúdios têm reforçado a importância da janela, enquanto pesquisas indicam o crescimento da geração Z e mudanças nos hábitos de consumo, algo a que nós exibidores precisamos estar atentos”, explica.

A avaliação encontra contrapontos mais conservadores sobre o ritmo de adoção dessas mudanças, sobretudo quando o tema é investimento. Nem todos veem inovação dissociada da saúde econômica do circuito. Ao mesmo tempo, esse olhar mais cauteloso não reduziu o interesse por soluções de tecnologias emergentes. Pelo contrário, ajudou a colocar parte das inovações em perspectiva, separando o que já dialoga com a realidade do circuito do que ainda opera como aposta de médio prazo. 

Flávio Canteruccio, da AFA Cinemas, é mais pragmático. “Se a bilheteria for bem, a parte técnica vai bem. No geral, tecnologia acompanha o caixa, então a evolução do parque exibidor também passa pelo desempenho do negócio”, defende.

No campo das tecnologias aspiracionais, a CinemaCon 2026 consolidou uma tendência importante: o amadurecimento das soluções de painéis de LED aprovados pela Digital Cinema Initiatives (DCI). “Diferente dos anos anteriores, observamos um número expressivo de fabricantes oferecendo telas com permeabilidade acústica superior a 90%, eliminando uma das principais barreiras tecnológicas para a adoção desse formato. Modelos recentes já conseguem integrar-se perfeitamente aos sistemas de áudio de cinema existentes, mantendo a precisão de cores e o suporte a HDR", conta Luis Henrique Ciocler, da Centauro.

Ainda que cercadas de entusiasmo, as conversas sobre LED vieram quase sempre acompanhadas da discussão sobre viabilidade econômica. Custo e retorno apareceram como filtros inevitáveis para qualquer leitura sobre expansão dessa tecnologia. Mesmo assim, elas estiveram entre os assuntos mais comentados entre visitantes e fornecedores na feira. O interesse vinha tanto pelo impacto visual quanto pela discussão sobre o futuro das salas premium.

Vitor Sampaio, da Ping, destaca o impacto dessas demonstrações. “Foi uma coisa absurda em qualidade. É palpável para o cinema e agrega experiência, mas exige investimento, então ainda é algo que o mercado brasileiro olha com cautela.”

Se houve uma impressão dominante em Las Vegas foi a de um setor que volta a enxergar horizonte não apenas pela força do calendário, mas por uma visão mais otimista sobre o futuro das salas. E, mais do que resumir 2026, a convenção parece ter lançado bases para a próxima etapa do mercado.

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