Nicho54 lança plataforma de distribuição e publicação com mais de mil filmes de cineastas negros
Anúncios foram feitos durante o Marché du Film, em Cannes
Compartilhe:
(Foto: Divulgação)
Durante o Festival de Cannes, a Nicho54, organização dedicada ao fortalecimento da presença estratégica de agentes negros do cinema no Brasil e no mundo, anunciou duas iniciativas que prometem expandir narrativas da diáspora brasileira globalmente. No Marché du Film foram lançados oficialmente a Sala54, uma plataforma de difusão e distribuição de filmes, e a Cinemateca Negra Brasileira, uma publicação original que mapeia mais de mil filmes realizados por cineastas negros entre 1949 e 2022.
A Sala54 responde, principalmente, a uma demanda essencial do audiovisual brasileiro: a circulação de obras, uma vez que realizadores negros ainda estão apartados dos principais circuitos artísticos e comerciais do audiovisual. A iniciativa conta com o apoio do Instituto Guimarães Rosa. Fernanda Lomba, fundadora da Nicho54, disse ao Portal Exibidor acreditar que a plataforma deverá ganhar tração ao longo dos anos, resultando em um aumento significativo no campo criativo da produção autoral negra.
"A Sala54 é importante pela reunião de alguns motivos, sendo possivelmente o principal deles a abertura de uma vitrine mundial para o cinema negro brasileiro, que contará com uma mediação ativa e qualificada que atuará com um catálogo anual de cinema autoral em diálogos com festivais e circuitos de distribuição na África e Europa, sobretudo. Certamente teremos premières e lançamentos que só serão viabilizados graças à Sala54, já que os filmes e seus realizadores não teriam acesso qualificado ou condições de competitividade para fazer essa colocação estratégica por eles próprios."
Outro ponto relevante na nova iniciativa é o cuidado com o processo curatorial, partindo de uma filosofia de escolha coletiva e sensível, valorizando não apenas a excelência artística e técnica de projetos work in progress e em fase de distribuição, como também sua potência simbólica e geopolítica.
Além do apoio do Instituto Guimarães Rosa, o projeto também marcou uma parceria inédita com o Pavillon Afronova, iniciativa internacional dedicada à promoção e articulação das indústrias audiovisuais africanas e da diáspora no contexto dos principais mercados globais de cinema. Durante Cannes, por exemplo, o espaço reuniu produtores, realizadores, agentes de vendas e distribuidores, promovendo painéis, encontros e rodadas de negócios voltados à circulação dessas narrativas no circuito internacional.
Em relação à Cinemateca Negra, a intenção é apresentar uma vasta gama de críticas, entrevistas e dados com o objetivo de combater o apagamento histórico de criativos negros no país, além de incentivar políticas públicas de apoio a cineastas negros. Para Lomba, o lançamento da publicação em Cannes representa a incidência educativa em contexto de mercado internacional. “A Nicho54 tem entendido a necessidade de contar ao agente estrangeiro que a diversidade étnica brasileira não está suficientemente representada naquilo que ele conhece por meio dos informes oficiais ou dos filmes que furaram a bolha. Logo, é necessário apresentar dados e narrativas que evidenciam o atual retrato da criatividade cinematográfica do país, assim como apresentar a Nicho54, que tem liderado essa interface nacional e internacional sob a perspectiva racializada.”