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17 Junho 2026 | Mônica Herculano

In-Edit Brasil: “Escolhemos os filmes por sua qualidade, não pela fama dos personagens”

Em entrevista, o diretor do festival - que celebra 18 anos - fala do atual mercado de filmes sobre artistas da música

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(Foto: Reprodução)

Começa nesta quarta-feira (17/6) e segue até o dia 28 de junho a 18ª edição do In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, trazendo dezenas de títulos em première nacional e produções inéditas no circuito de salas e streaming, dedicadas a importantes nomes, contextos e territórios marcantes da música brasileira e mundial.

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Neste ano, o festival volta a ocupar as salas do CineSesc, Cinemateca Brasileira, Spcine Olido, Spcine Paulo Emílio (CCSP), Cine Bijou, Cine Matilha (Matilha Cultural) CINUSP, além de oferecer um recorte da programação para todo o Brasil, no formato online, através das plataformas Spcine Play, Itaú Cultural Play e Sesc Digital. Além dos filmes, acontece uma programação paralela com shows, debates, encontros com convidados especiais e a tradicional feira de vinil.

O In-Edit nasceu em Barcelona, na Espanha, em 2003, e acontece no Brasil desde 2009. Outros países, como Chile, Grécia, México, Países Baixos e Uruguai, também realizam edições locais.

Por aqui, a produção nacional ocupa lugar central, refletindo a pluralidade cultural do país por meio de histórias, territórios, gêneros musicais e personagens que atravessam diferentes regiões e tradições brasileiras. Os filmes estão distribuídos entre Competição Nacional, Mostra Brasil, Brasil.Doc, Curta um Som e Sessões Especiais. Já o Panorama Mundial reúne documentários musicais de diferentes países, gêneros e gerações, explorando trajetórias de artistas fundamentais, movimentos culturais e cenas musicais que atravessam rock, jazz, punk, hip-hop, música experimental, eletrônica e tradições populares. A programação ainda inclui recortes especiais como a Mostra Instituto Cervantes, a homenagem ao diretor Rob Reiner e a sessão Flashback.

Em entrevista ao PORTAL EXIBIDOR, o diretor artístico do In-Edit Brasil, Marcelo Aliche, analisa o crescimento das obras audiovisuais ligadas a artistas da música e o espaço para documentários musicais nas salas de cinema. Confira na íntegra:

EXIBIDOR: Nos últimos anos, vimos uma forte presença de cinebiografias e documentários musicais no circuito comercial. A que você atribui esse interesse crescente do público por histórias ligadas à música?

Marcelo Aliche: Das artes, a música é, sem dúvida, a mais popular. É a que gera nomes reconhecíveis em diferentes culturas e que melhor se comunica com as pessoas. E não é apenas uma questão de criação e produção musical — da canção em si. Há também a atitude, a roupa, o estilo de vida, a construção de personagens, o merchandising, a emoção dos shows, a experiência coletiva e a individual. Isso vende muito, e as plataformas (e as gravadoras) sabem disso.

Se prestarmos atenção aos artistas retratados nos filmes exibidos pelas grandes plataformas, veremos que quase todos venderam milhões de discos. Isso não é uma tendência, é uma busca por engajamento. Não importa se o filme traz algo novo, se possui uma proposta artística diferente ou se a pesquisa biográfica foi bem feita. O que importa é que ele atraia cliques. Nesse quesito, o universo musical só pode ser comparado ao esportivo.

Por outro lado, as pequenas histórias, os documentários com linguagens mais ousadas, os retratos da música vivida nas ruas e o cinema que investiga esse fenômeno cultural e social de forma mais ampla costumam encontrar espaço no In-Edit e em outros festivais. Depois disso, esses filmes fazem um pequeno circuito de exibição e permanecem na memória de seus espectadores.

EXIBIDOR: O In-Edit acompanha esse segmento há quase duas décadas. Como o perfil dos documentários musicais mudou nesse período? O que diferencia as produções atuais das que chegavam ao festival em seus primeiros anos?

MA: De maneira geral, muita coisa mudou na forma de contar histórias, seja no cinema, na literatura, na televisão ou nos microespaços das redes sociais. Hoje, os diretores têm muito mais repertório e referências do que tinham há 20 anos e podem construir um pensamento crítico e estético muito mais elaborado. Por isso, quando selecionamos os filmes, encontramos obras muito mais refletidas e conscientes de suas escolhas do que aquelas que chegavam ao festival em seus primeiros anos. Isso não significa que a qualidade média das produções tenha necessariamente melhorado, mas quando procuramos os destaques, temos muito mais opções à disposição.

EXIBIDOR: Muitos dos filmes exibidos no In-Edit retratam artistas já consagrados, mas também há espaço para personagens menos conhecidos. O que costuma atrair mais o público: a força do artista retratado ou a qualidade da narrativa?

MA: O público vem pelo nome do artista. Isso é um fato. Mas, na hora de escolher um título para a programação, o que pesa, na grande maioria das vezes, é a qualidade do filme. O In-Edit é um festival de cinema e deve atuar como tal. A questão dos nomes próprios deve surgir naturalmente: se o filme é bom, ele entra na programação; se o artista é famoso, melhor ainda.

Cansamos de descartar filmes medíocres sobre grandes artistas. Recebemos títulos do mundo todo e nem sempre a biografia é respeitada ou traz algo realmente novo. Programar um filme apenas porque ele vai atrair público é uma das piores formas de sustentar um festival. O espectador pode vir para assistir a um documentário sobre seu artista favorito, mas, se o filme não for bom, o festival acaba ficando com a fama de exibir títulos ruins. Não vale a pena. Em 18 anos, fizemos justamente o contrário: escolhemos os filmes por sua qualidade, e não pela fama de seus personagens. Se tivéssemos seguido outro caminho, provavelmente já não estaríamos aqui.

EXIBIDOR: Hoje documentários musicais aparecem cada vez mais em plataformas de streaming. Na sua visão, quais características ainda tornam a sala de cinema um espaço relevante para esse tipo de obra?

MA: Ir ao cinema é um ato cultural e também social. Sair de casa, compartilhar aquele momento com outras pessoas, sentar para conversar sobre a obra depois da sessão — tudo isso faz parte de um ritual que parecia estar se perdendo, mas que hoje volta a ganhar força, principalmente entre os jovens.

No caso dos documentários musicais, a questão é um pouco mais complexa. Muitos deles não têm necessariamente um apelo para a tela grande e se apoiam fortemente em entrevistas. Nesses casos, a experiência cinematográfica talvez não seja fundamental. Por outro lado, existem filmes extraordinários que precisam ser vistos nas melhores condições possíveis e com atenção total. No fim das contas, cabe ao espectador decidir onde e como deseja investir seu tempo e seu dinheiro.

EXIBIDOR: O festival reúne títulos que dificilmente chegam ao circuito comercial tradicional. Você acredita que existe espaço para uma circulação maior de documentários musicais nas salas brasileiras? O que ainda impede isso de acontecer?

MA: Acredito que exista mercado para isso. O que não existe é investimento. Durante três anos tivemos o In-Edit TV e foi uma experiência incrível. Encontramos espectadores em todo o país e, até hoje, somos cobrados pela volta da plataforma. Isso demonstra claramente que há público para esse tipo de conteúdo. O que falta é uma estrutura de exibição que permita às salas dominadas pelos blockbusters abrir espaço para filmes de arte, cinema de autor e documentários musicais.

EXIBIDOR: Diversos documentários musicais recentes conseguiram alcançar resultados expressivos de público. Existe alguma fórmula ou elemento comum entre os títulos que conseguem ultrapassar o nicho e dialogar com audiências mais amplas?

MA: As grandes plataformas procuram grandes nomes, porque isso gera engajamento. Então não importa muito para elas se o filme é bom ou não. A fórmula é a de sempre: pegue uma personalidade famosa, exponha suas intimidades e pronto, você tem um campeão de audiência.

Veja o caso de Bituca. O filme é uma peça publicitária, cheio de clichês. É mais uma homenagem que a diretora quis fazer para o Milton do que um filme que conta a trajetória ou a importância dele em vários aspectos, não só na música brasileira. Ainda assim, o público sai encantado, porque ama Milton Nascimento e concorda com boa parte das obviedades apresentadas na tela. Quando o espectador sai de cena para dar lugar ao fã, a exigência em relação à qualidade diminui muito, e as salas enchem.

Mas eu acho que bons filmes podem furar a bolha, como é o caso de Procurando Sugar Man. Quase ninguém conhecia o Sixto Rodriguez [cantor folk de Detroit que teve breve carreira na década de 1970], e virou um hit em 2012. É um filmão que acabou furando a bolha. Então isso acontece, mas o que as plataformas estão procurando são grandes nomes, ou filmes que ganharam grandes prêmios. Por exemplo, Sugar Man ganhou o Oscar de melhor documentário, então “putz, o vencedor do Oscar, então vai” [o filme entrou posteriormente no Prime Video].

Então, não é que um filme de um grande nome não seja bom e que precisa ter fofoca. Mas essas plataformas procuram engajamento. Os grandes filmes correm por fora, mas eles de alguma maneira precisam dos festivais, por exemplo, para conseguir um prêmio, para conseguir um reconhecimento e poder, assim, encontrar audiências mais amplas.

EXIBIDOR: A programação deste ano inclui filmes sobre nomes tão diversos quanto Alaíde Costa, Fernanda Abreu, Baby do Brasil, Airto Moreira e Paul Di'Anno. Que tendências você identifica hoje na escolha dos personagens retratados pelos realizadores?

MA: A tendência continua sendo a do personagem famoso que vende ingressos. Pode haver algumas variações, como no caso de Airto Moreira e Flora Purim, que são artistas cultuados e geram enorme interesse entre os iniciados no universo do jazz. Mas a lógica predominante continua muito próxima da que vemos no mundo dos influenciadores digitais.

É claro que artistas menos conhecidos continuam sendo retratados e que muitas histórias relevantes seguem sendo contadas. Mas, quando observamos a indústria como um todo, a tendência dominante ainda é essa.

EXIBIDOR: Depois de 18 edições do In-Edit Brasil, quais mudanças você considera mais significativas na relação entre documentário musical, mercado audiovisual e formação de público?

MA: Nesses 18 anos, a expressão “documentário musical” se consolidou e, junto com ela, surgiu todo um ecossistema que passou a valorizar esse tipo de obra. Ao mesmo tempo, esse reconhecimento despertou o interesse de cineastas, pesquisadores e produtores, estimulando a criação de novos projetos. Filmes sobre artistas menos conhecidos ou histórias menos mitológicas aparecem cada vez mais e dependem muito de circuitos alternativos para encontrar seu público. E essa continua sendo a nossa causa.

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