O paradoxo das telas: diversidade atrai público, mas vem perdendo espaço nas produções
Estudo mostra que obras com maior representatividade impulsionam bilheteria nos cinemas e audiência no streaming
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(Foto: Divulgação)
Um relatório anual sobre diversidade nas produções cinematográficas produzido pela Universidade da Califórnia (UCLA) analisou 109 filmes em inglês que figuraram entre os 200 mais rentáveis do mundo em 2025 e concluiu que títulos com elencos mais diversos vendem mais ingressos. No entanto, houve um retrocesso na representatividade de mulheres, pessoas negras e indígenas nas telas. Os dados foram coletados de fontes independentes, como Studio System, Luminate Film & TV, IMDb e Comscore, e compilados em duas partes: uma com foco nas salas de cinema e outra no streaming.
A primeira etapa do estudo, lançada em março, identificou que filmes com elencos compostos por 41% a 50% de pessoas do chamado grupo BIPOC (sigla em inglês para Negros, Indígenas e Pessoas de Cor) tiveram o melhor desempenho nas salas de cinema em diversas categorias. Essas produções registraram a maior mediana de bilheteria global (US$ 117,1 milhões) e doméstica (US$ 52,6 milhões) tiveram o maior número médio de lançamentos em cinemas na América do Norte (chegando a 3.460 complexos) e alcançaram a melhor média no ranking de bilheteria no fim de semana de estreia (posição 2,4) e a maior distribuição internacional (média de 50,2 mercados ao redor do mundo).
Além disso, seis dos dez filmes mais assistidos e 12 dos 20 mais assistidos tinham elencos com mais de 30% de pessoas negras, indígenas e de outras minorias étnicas. Outro fator destacado foi a diversidade de gênero, uma vez que três dos dez filmes mais assistidos e oito dos 20 mais assistidos tinham elencos com mais de 40% de mulheres.
Os números encontrados no estudo não são por acaso, já que o desempenho nas bilheterias reflete a participação de 45,2% de pessoas negras, indígenas e de outras minorias étnicas na população dos Estados Unidos.
Além disso, a pesquisa identificou que esse público comprou uma fatia de ingressos muito maior do que a sua própria proporção na sociedade sempre que o filme em cartaz atingia faixas específicas de representatividade nas telas — mais especificamente, quando os longas tinham entre 21% e 30% ou mais de 40% de talentos diversos no elenco.
Outra conclusão do relatório foi de que a tendência é global e não se restringe apenas ao público estadunidense. Espectadores BIPOC compraram a maior parte dos ingressos de estreia nos Estados Unidos para cinco dos dez filmes de maior bilheteria e 11 dos 20 filmes de maior bilheteria global em 2025. Entre cada grupo desse público (BIPOC), de dez a 13 dos 20 filmes mais assistidos tinham elencos com mais de 30% de pessoas com essas mesmas características. Da mesma forma, 13 dos 20 filmes mais assistidos pelo público feminino tinham elencos com mais de 40% de mulheres, e 12 desses filmes eram centrados em histórias com foco no universo feminino.
"As pessoas querem histórias com as quais possam se identificar e se conectar nos filmes que assistem. Em uma sociedade onde as pessoas interagem cada vez menos pessoalmente, o cinema oferece a oportunidade de se conectar com outras pessoas com quem talvez nunca entrem em contato na vida real e as ajuda a compreender sua humanidade compartilhada", destacaram os coautores Ana Christina Ramón, Jade Abston, Nico Garcia, Darnell Hunt e Michael Tran.
Eles concluíram que Hollywood deve se concentrar em manter a diversidade racial e de gênero para garantir que as pessoas continuem frequentando os cinemas. "É por isso que a representação significativa no cinema é tão vital e por que Hollywood precisa se adaptar para atender a essa necessidade."
Streaming segue tendência
A segunda parte do Relatório de Diversidade de Hollywood foi divulgada nesta semana e constatou que a representatividade em filmes de streaming está diminuindo no geral, seguindo os passos das estreias nos cinemas.
A pesquisa aponta que, entre todos os títulos lançados nas plataformas em 2025, a participação de protagonistas BIPOC caiu de 51% no ano anterior para 36%, enquanto aqueles dirigidos por pessoas desse grupo caiu de 41% em 2024 para 31,5% em 2025. A presença no streaming de filmes dirigidos por mulheres também diminuiu, de 28% para 23,6%.
Segundo o The Hollywood Reporter, os autores do relatório atribuem a inversão de tendência à reação negativa contra políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), além da contração do mercado e do aperto geral de orçamentos – a diversidade seria tratada como descartável ou opcional com os cortes orçamentários.
Outro ponto a ser destacado é que as plataformas reduziram o lançamento de filmes originais como um todo em 2025 (caindo de 100 analisados nos anos anteriores para apenas 89 títulos), portanto os pesquisadores explicam que as estatísticas sofreram alguma distorção.
Ainda assim, a tendência de audiência se manteve: as mulheres e os lares com pessoas não-brancas continuaram sendo a principal força motriz da alta audiência no streaming, e seis dos dez filmes mais assistidos nas plataformas tinham elencos com mais de 30% de diversidade. E a maior prova de que a diversidade atrai o espectador no streaming é que Encanto (2022), Red: Crescer é uma Fera (2023), Moana (2024) e o fenômeno Guerreiras do K-Pop (2025) lideraram a audiência das plataformas nos últimos quatro anos, todos sendo protagonizados por jovens mulheres não-brancas.
Com a redução das oportunidades de direção para pessoas mulheres e pessoas BIPOC, especialmente devido à queda no número total de filmes originais em plataformas de streaming, o relatório observa que plataformas sustentadas por anúncios, como a Tubi, estão atraindo efetivamente públicos multiculturais e oferecendo oportunidades a cineastas de diferentes gêneros e origens.
"Com a contínua redução da representatividade, as principais plataformas de streaming podem perder potencial de lucratividade e engajamento do público em um segmento-chave do mercado. Em última análise, os grandes estúdios devem considerar como conquistar e manter a fidelidade à marca junto a uma população cada vez mais composta por pessoas negras, indígenas e de outras minorias étnicas", conclui o documento.