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15 Julho 2026 | Mônica Herculano

Paul A. Watters: Pirataria gera risco reputacional para todo o setor de entretenimento

Em entrevista, especialista em cibersegurança analisa resultados de seu estudo sobre pirataria digital no Brasil

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(Foto: Divulgação)

Paul A. Watters é um pesquisador australiano, especialista em cibersegurança e crimes digitais. Líder de pensamento da empresa de consultoria Cyberstronomy, ele também atua como Professor Honorário de Estudos de Segurança e Criminologia da Universidade Macquarie e Professor de Sistemas de Informação do Instituto Holmesglen, na Austrália.
 
Autor dos livros "Counterintelligence in a Cyber World" e "Cybercrime and Cybersecurity", Watters figura entre os 0,5% melhores pesquisadores do mundo, segundo o ScholarGPS (2024), e recebeu, em 2026, a Medalha da Ordem da Austrália pelos serviços prestados ao ensino superior, em reconhecimento às suas contribuições para a pesquisa, o ensino e a extensão.
 
Em entrevista exclusiva ao PORTAL EXIBIDOR, ele analisou os resultados do estudo “Riscos para o consumidor decorrentes da pirataria no Brasil” – realizado por ele com financiamento da Motion Picture Association (MPA) – sob o ponto de vista da indústria audiovisual e avaliou a atuação dos órgãos públicos brasileiros no combate a essa questão. Confira na íntegra:
 
EXIBIDOR: O senhor descreve a “normalização da pirataria” como a ideia de que os consumidores veem o consumo de conteúdo pirata como uma atividade rotineira e de baixo risco. No entanto, os dados mostram que o custo real desse acesso frequentemente é pago por meio de dados bancários roubados, violações de privacidade e infecções por malware. Para o setor de exibição, revelar que a economia do conteúdo pirateado, na verdade, expõe as famílias a formas graves de criminalidade seria a melhor maneira de restaurar o valor percebido de um ingresso de cinema? Como isso pode ser comunicado sem soar como uma palestra punitiva?
 
Paul A. Watters: Acredito que ser honesto e transparente sobre aquilo a que as famílias estão se expondo ao NÃO pagar por serviços legítimos (como um ingresso de cinema) parece ser o ponto-chave. Existe uma relação de troca – “se você não está pagando pelo produto, você é o produto” – portanto, acredito que precisamos encontrar maneiras melhores de engajar e comunicar os riscos cibernéticos envolvidos.
 
Isso é algo que até mesmo a indústria de cibersegurança considera desafiador: conquistar corações e mentes sem parecer moralista. A mensagem mais forte não é “você está fazendo a coisa errada”. A mensagem é: “isso pode não ser tão gratuito, seguro ou inofensivo quanto parece”. Especialmente quando respaldada por autoridades policiais e agências de cibersegurança.
 
O resultado é uma mensagem de proteção ao consumidor, e não uma mensagem punitiva. Devemos ter como objetivo alcançar uma “desistência voluntária” por parte dos consumidores e redirecioná-los para alternativas legítimas. Uma abordagem punitiva provavelmente não funcionará.
 
EXIBIDOR: O estudo identifica os Dispositivos Ilegais de Streaming (ISDs) como uma das ameaças mais significativas atualmente enfrentadas pelo Brasil, demonstrando que essas TV boxes de baixo custo podem não apenas viabilizar ataques em larga escala, mas também capturar tráfego de redes Wi-Fi locais, comprometendo a privacidade das famílias. O que a indústria cinematográfica precisa compreender sobre a economia por trás desses dispositivos que talvez esteja negligenciando atualmente? Qual seria a descoberta técnica mais importante a destacar ao incentivar reguladores a adotar medidas mais rigorosas?
 
PW: A indústria cinematográfica precisa compreender a forma como a indústria ilícita funciona e quem são os seus participantes. Esses dispositivos frequentemente são comercializados como oferecendo “assinaturas vitalícias” pelo preço de uma única caixa, algo claramente irrealista e irracional – ainda assim, os consumidores são atraídos pela publicidade e por agentes que incluem plataformas de comércio eletrônico. Essas plataformas anunciam e vendem abertamente dispositivos ilícitos, obtendo uma comissão ou margem de lucro sobre cada venda.
 
A lógica econômica é clara para aqueles envolvidos na cadeia de valor. No entanto, ao fornecer esses dispositivos, essas plataformas estão expondo seus clientes a danos.
 
Acredito que já existam alertas e estudos suficientes demonstrando isso (incluindo o estudo atual). Constatações técnicas que demonstrem a probabilidade extremamente elevada de encontrar uma ameaça cibernética seja nos dispositivos, seja nos websites associados deveriam ser suficientes para motivar os reguladores a tomar medidas adicionais.
 
EXIBIDOR: O relatório destaca o crescimento dos chamados “golpes” que imitam perfeitamente a identidade visual de serviços legítimos, mas sequer entregam o filme prometido, funcionando apenas como isca para roubar informações de cartão de crédito e senhas. Para exibidores e distribuidores — organizações que administram vastas bases de dados de clientes por meio de plataformas de bilheteria e VOD e dependem fortemente da confiança do consumidor para suas vendas online — qual é o impacto de médio e longo prazo desse tipo de fraude sobre a credibilidade do comércio eletrônico de entretenimento?
 
PW: De uma perspectiva acadêmica, eu enquadraria isso como um problema de confiança. O setor de entretenimento depende cada vez mais de relacionamentos digitais diretos com os consumidores. A imitação fraudulenta enfraquece essa relação ao tornar mais difícil para os consumidores distinguir entre serviços autênticos e serviços maliciosos. Portanto, o risco de longo prazo não é apenas a perda de receita causada pela pirataria. É a contaminação do mercado digital ligado ao cinema e ao entretenimento. Quando agentes criminosos copiam a aparência de serviços legítimos, eles criam incerteza para os consumidores e risco reputacional para todo o setor.
 
Pessoalmente, considero bastante confuso quando ligo minha Smart TV e ela sugere aplicativos. A maioria é legítima, mas como eu saberia disso, como consumidor? Acredito que trabalhar com fabricantes de hardware para garantir que apenas aplicativos legítimos sejam apresentados aos consumidores é, francamente, do interesse de todos.
 
EXIBIDOR: Pensando especificamente em distribuidores e exibidores, que não controlam diretamente a infraestrutura de bloqueio, quais ações práticas você recomendaria para reduzir a exposição de novos lançamentos à pirataria? Que lições de cibersegurança a indústria cinematográfica deveria extrair da sofisticação tecnológica demonstrada pelos operadores de pirataria?
 
PW: Meu estudo sugere algumas ideias práticas nesse sentido. Uma delas é que a pirataria deve ser cada vez mais compreendida como parte de um ambiente mais amplo de ameaças cibernéticas. Os operadores envolvidos nem sempre são informais ou amadores. Muitos utilizam interfaces com aparência profissional, marcas enganosas, engenharia social, malware, mecanismos de pagamento e técnicas de evasão.
 
Para distribuidores e exibidores, a principal lição pode ser tratar o risco da pirataria como uma forma de risco do ecossistema digital. Ele afeta a confiança na marca, a confiança do cliente, as vendas online e a percepção de segurança dos canais digitais legítimos.
 
O setor pode contribuir documentando os danos, compartilhando evidências, alertando os consumidores de forma equilibrada e apoiando ações coordenadas contra a infraestrutura que possibilita a pirataria. Mas eu não apresentaria isso como uma responsabilidade exclusiva da indústria. O problema é intersetorial, e a resposta também precisa ser intersetorial. Um maior engajamento com agências de cibersegurança e autoridades de aplicação da lei, fornecendo relatórios de evidências oriundos de investigações etc., pode ajudar a construir ações coordenadas tanto em nível local quanto global.
 
EXIBIDOR: Com relação aos formuladores de políticas públicas, quais medidas o senhor consideraria prioritárias para o Brasil implementar nos próximos dois anos, levando em conta tanto a proteção do consumidor quanto os interesses legítimos de distribuidores e exibidores?
 
PW: Acho importante começar reconhecendo que o Brasil já alcançou resultados muito significativos nesta área. Não se trata de um caso em que não exista política pública ou atividade de fiscalização. Um aspecto que merece destaque é a atuação da Anatel na certificação de dispositivos conectados, um programa regulatório relativamente singular por combinar requisitos de segurança, conformidade técnica, proteção do consumidor e integridade das redes. Em conjunto com iniciativas como a Operação 404, o Plano de Ação de Combate à Pirataria da Anatel e a crescente cooperação entre Anatel e Ancine, essa abordagem demonstra que o Brasil desenvolveu um dos modelos de combate à pirataria mais sofisticados da região.
 
O que é particularmente importante no modelo Anatel–Ancine é a divisão de responsabilidades. A Anatel contribui com telecomunicações, infraestrutura, certificação de dispositivos e capacidade técnica de fiscalização. A Ancine contribui com o mandato regulatório sobre o audiovisual e os conteúdos. O acordo de cooperação entre as duas agências é importante porque permite que medidas técnicas de bloqueio sejam implementadas com base nas determinações da Ancine sobre conteúdo pirateado. Trata-se de um modelo muito mais integrado do que tratar a pirataria apenas como uma disputa de direitos autorais.
 
Na minha perspectiva, as evidências também demonstram por que o papel da Anatel é tão importante. As TV boxes ilegais não são apenas um problema de conteúdo. Elas são dispositivos não confiáveis dentro das casas das pessoas. A certificação da Anatel é importante porque está ligada à saúde e segurança, à qualidade das comunicações, à concorrência leal e à integridade do ambiente de rede. Dispositivos não certificados podem criar riscos físicos, gerar interferências prejudiciais, degradar o desempenho dos serviços e introduzir riscos de cibersegurança.
 
A dimensão da cibersegurança é especialmente relevante. O Laboratório Antipirataria da Anatel parece ter identificado os decodificadores ilegais como uma ameaça cibernética específica, incluindo riscos associados a malware embarcado, vulnerabilidades críticas e ao potencial de dispositivos comprometidos afetarem outros equipamentos da rede doméstica. Isso leva a questão muito além da pirataria convencional, transformando-a também em uma questão de segurança do consumidor, cibersegurança e privacidade doméstica.
 
Os resultados também sugerem que o Brasil desenvolveu uma capacidade operacional substancial. A apreensão de milhões de dispositivos não certificados, as ações em toda a cadeia de suprimentos e as operações de bloqueio envolvendo milhares de IPs e domínios demonstram que a fiscalização não é meramente simbólica. A abordagem voltada para toda a cadeia de suprimentos é particularmente importante porque os ecossistemas de pirataria dependem de infraestrutura comercial.
 
Olhando para o futuro, eu diria que a prioridade deve ser fortalecer esse modelo, e não substituí-lo. O Brasil deve continuar tratando os dispositivos ilegais de streaming como uma questão de cibersegurança e proteção ao consumidor, e não apenas como um tema de direitos autorais. A cooperação entre Anatel, Ancine, provedores de internet, marketplaces, provedores de pagamento e autoridades de aplicação da lei deve continuar a se aprofundar, acompanhada de ações de conscientização pública sobre os riscos reais associados a malware, fraude financeira, comprometimento de redes domésticas e violações de privacidade.
 
Nesse sentido, a abordagem atual do Brasil oferece uma base sólida. A próxima oportunidade é conectar de forma ainda mais clara as respostas voltadas aos dispositivos e aos websites: dispositivos certificados, infraestrutura confiável, bloqueio rápido de serviços piratas, responsabilização dos marketplaces e educação do consumidor. Essa combinação é o que torna o modelo brasileiro potencialmente importante não apenas no âmbito doméstico, mas também como referência para a América Latina de forma mais ampla.
 
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