16 Julho 2026 | Yuri Cavichioli
Roadshows viram aposta para lançamentos independentes nos EUA
Distribuidoras e produtores investem em turnês com sessões especiais para aproximar filmes de públicos específicos
Nem sempre colocar um filme em dezenas ou centenas de salas significa aumentar suas chances de sucesso. Para parte do cinema independente dos Estados Unidos, a lógica começa a seguir outro caminho. Em vez de buscar alcance amplo desde o primeiro dia, produtores e distribuidoras têm apostado em roadshows, turnês que levam o mesmo filme a diferentes cidades com sessões especiais, debates e participação dos realizadores. A proposta é simples: encontrar o público certo antes de tentar encontrar todo o público.
Reportagem da IndieWire informou que produções recentes como Welcome Space Brothers, The Last Picture Shows e 32 Sounds seguiram o caminho aberto por Hundreds of Beavers. Em comum, trocaram lançamentos convencionais por turnês que transformam cada exibição em um evento, estratégia que passou a despertar o interesse de distribuidoras em busca de alternativas para filmes independentes.
Um dos principais exemplos é Welcome Space Brothers, documentário sobre o movimento religioso Unarius e sua líder Ruth Norman, que acreditava se comunicar com seres extraterrestres. Depois de circular por festivais desde 2023 sem conseguir distribuição, os produtores decidiram lançar o filme por conta própria em parceria com a SpectreVision, produtora de Elijah Wood. A turnê começou em 13 de junho e prevê sessões em pelo menos 15 cidades, sempre acompanhadas de conversas com a diretora Jodi Wille e encontros com seguidores dos ensinamentos retratados no longa.
A primeira sessão, realizada no Alex Theatre, em Glendale, na Califórnia, reuniu centenas de espectadores vestidos com roupas inspiradas na estética espacial para celebrar a temática do documentário. O evento ainda contou com uma apresentação do músico Moby, coprodutor executivo do filme, enquanto sua produtora Little Walnut financiou o P&A (Prints & Advertising, ou custos de cópias e divulgação ), orçamento destinado às ações de lançamento e divulgação da obra. A estreia gerou lucro de US$ 8,5 mil.
Para Christina Campagnola, copresidente da divisão de gerenciamento da SpectreVision, o diferencial está em criar experiências voltadas a um público muito específico. "Essa comunidade quer estar reunida e conversar sobre a experiência que vive. O filme ganha vida própria, porque se trata de encontrar pessoas que compartilham das mesmas crenças incomuns. A questão é como continuamos fazendo isso com outros filmes. Precisa ser um título em que sintamos que conseguimos alcançar esse público."
Embora o roadshow esteja longe de ser uma novidade, o formato passou a atrair um número maior de empresas. Além da SpectreVision, a distribuidora Utopia e seu selo Circle Collective também apostam na estratégia. Um dos casos é Situations, dirigido por Greg Vrotsos, que percorre diferentes cidades para evitar que o filme desapareça com a chegada ao streaming.
Para parte do setor, muitos filmes independentes deixam de encontrar seu público quando seguem o mesmo modelo de lançamento adotado por produções de maior escala. Em vez de ocupar dezenas de salas simultaneamente, os roadshows concentram esforços em eventos pontuais voltados a comunidades com afinidade pelo tema de cada obra.
Jessica Rosner, distribuidora independente e responsável pela reserva de salas para exibição de filmes, é uma das profissionais que apostam no formato. Atualmente trabalhando no roadshow de The Last Picture Shows, ela lembra que muitos lançamentos permanecem em cartaz mesmo sem resposta do público. "Olhe para algumas bilheterias. É uma loucura. Um filme fica uma semana inteira em cartaz e arrecada US$ 600. Não faz sentido mantê-lo por uma semana. Se você conhece seu público e consegue direcionar sua comunicação para ele, vai levá-lo a uma ou duas sessões, e isso é melhor para o cinema."
Rosner também esteve entre os responsáveis pelo roadshow de Hundreds of Beavers, comédia muda em preto e branco produzida por US$ 150 mil que se transformou em um sucesso cult ao ultrapassar US$ 1 milhão em bilheteria. A turnê pelo Meio-Oeste americano ajudou a criar o boca a boca em torno do filme, que continua realizando sessões especiais pelo país, muitas delas com a participação de atores fantasiados como os castores da história.
Segundo Rosner, Hundreds of Beavers mostrou que um roadshow não depende necessariamente de nomes conhecidos para funcionar, desde que a equipe saiba qual público pretende alcançar. O mesmo acontece com Welcome Space Brothers, que mobiliza seguidores do movimento retratado no documentário, e com The Last Picture Shows, levado justamente aos cinemas independentes que fazem parte de sua narrativa.
Outro exemplo citado pela reportagem é 32 Sounds, documentário experimental dirigido por Sam Green. Para apresentar o filme da forma como ele havia sido concebido, o diretor passou um ano viajando pelos Estados Unidos em uma perua, promovendo sessões presenciais. De acordo com Karol Martesko-Fenster, da distribuidora Abramorama, foi esse trabalho que ajudou a chamar a atenção do Criterion Channel, plataforma que posteriormente incorporou o título ao catálogo. "É aí que realmente entra o trabalho do distribuidor. O roadshow exige mais esforço, mas eles aceitam isso porque o retorno financeiro é melhor e o retorno em reconhecimento também é muito maior. Você consegue combinar imprensa regional com cobertura nacional e aproximar grupos de apoiadores dos cineastas."
Colocar um roadshow em prática envolve muito mais do que divulgar o filme. É preciso planejar viagens, negociar datas com exibidores, conciliar a agenda dos realizadores e lidar com limitações na programação das salas. Em muitos casos, as próprias equipes criativas acabam assumindo parte dessas tarefas ao lado das distribuidoras.
Ao mesmo tempo, essas turnês costumam ser acompanhadas por campanhas direcionadas, que substituem parte da publicidade nacional por ações voltadas aos públicos de cada cidade. Para isso, produtores recorrem à imprensa local, promovem debates presenciais e utilizam anúncios segmentados por localização nas redes sociais para alcançar comunidades com maior probabilidade de se interessar pelo filme.
Campagnola defende que esse processo deve começar ainda no planejamento da distribuição. "Muitas distribuidoras não perguntam aos cineastas: 'Onde você acha que está o público do seu filme?'. A participação do diretor é fundamental, porque ele conhece esses pontos de contato. Identificar essas palavras-chave e encontrar esse público é um primeiro passo importante. Se um cineasta sabe que consegue lotar um cinema em Glendale, por que você colocaria o filme em uma sala no meio do nada, na Califórnia?"
- 0 medalha