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17 Julho 2026 | Redação

Bahia Filmes quer transformar dados em inteligência para alavancar audiovisual baiano

Em entrevista exclusiva ao PORTAL EXIBIDOR, a diretora executiva Keyti Souza falou sobre os primeiros passos da empresa e os planos para médio prazo

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(Foto: Divulgação)

No dia 28 de junho, a Bahia Filmes foi criada oficialmente com o objetivo de criar uma estrutura sólida para fortalecer e ampliar a presença das produções baianas no mercado nacional e internacional, tornando-se a primeira empresa estadual voltada a esse setor no Brasil. A missão de fortalecer todo o ecossistema, criando condições para gerar empregos e atrair investimentos, agora cabe à jornalista e produtora Keyti Souza, que foi nomeada para o cargo de diretora executiva da empresa.
 
Com vasto conhecimento em todas as etapas do ciclo de uma obra audiovisual, fazendo parte do quadro de sócios da produtora Têm Dendê Produções, ela agora tenta transformar o rico e diverso audiovisual baiano em uma potência que estimule a inovação, fortaleça a distribuição e exibição, além de contribuir para a formação de um novo público. A Bahia Filmes é vinculada à Secretaria de Cultura da Bahia (Secult-BA), e Keyti aponta que o trabalho integrado com diferentes secretarias e órgãos do governo é primordial para desenvolver diversas outras áreas como turismo, cultura, inovação, educação, tecnologia e economia criativa.
 
Parte desse trabalho passa pelo levantamento de dados, inclusive já tendo sido publicado um Edital de Mapeamento da Capacidade Instalada dos Setores Audiovisual e de Animação. Para a diretora é essencial consolidar informações atualizadas e sistemáticas que sejam capazes de orientar decisões estratégicas. "Um dos papéis da Bahia Filmes é justamente transformar dados em inteligência para o desenvolvimento do audiovisual."
 
Com os dados em mãos, segundo ela, será possível compreender onde estão os profissionais, empresas, estúdios, equipamentos, prestadores de serviço e demais ativos da cadeia produtiva, além de identificar as demandas e potencialidades de cada território, já que a Bahia conta com 417 municípios.
 
"Políticas públicas eficazes precisam ser baseadas em evidências, e quanto melhor conhecermos nosso ecossistema, mais eficientes serão as ações de investimento, formação, atração de produções e desenvolvimento regional. Além disso, esses dados serão fundamentais para acompanhar a evolução do setor ao longo do tempo, avaliar os resultados das políticas implementadas e planejar novas ações de forma cada vez mais estratégica", completa.
 
Em entrevista exclusiva ao PORTAL EXIBIDOR, a executiva falou sobre os primeiros passos da Bahia Filmes, as propostas no médio prazo e os planos para integrar todos os elos da cadeia. Confira na íntegra:
 
EXIBIDOR: Você passou 14 anos à frente da Têm Dendê Produções antes de assumir a diretoria executiva na Bahia Filmes. O que você traz dessa experiência e como essa expertise em coproduções, captação via leis de incentivo e gestão de projetos pode ajudar nesse novo desafio?
 
Keyti Souza: Minha trajetória na Têm Dendê me permitiu conhecer profundamente os desafios de quem produz audiovisual no Brasil e, especialmente, na Bahia. Ao longo desses 14 anos participei da estruturação de projetos em diferentes formatos, da captação de recursos, da gestão financeira, da articulação de coproduções nacionais e internacionais e do acompanhamento de todas as etapas do ciclo de uma obra audiovisual, do desenvolvimento à produção, passando pela distribuição, comercialização e prestação de contas.
 
Também atuei diretamente na gestão regulatória dos projetos, acompanhando processos junto à Ancine, ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ao BRDE e a outros mecanismos de fomento. Essa experiência me proporcionou uma compreensão sólida dos instrumentos de financiamento público, das exigências regulatórias e da importância de uma gestão técnica e eficiente para garantir a sustentabilidade dos projetos e o fortalecimento das empresas do setor.
 
Essa vivência me dá uma compreensão muito concreta das necessidades da cadeia produtiva. Conheço alguns dos desafios enfrentados por produtoras, distribuidoras e profissionais, mas também conheço algumas oportunidades para tornar o ambiente de negócios mais competitivo e atrativo.
 
Na Bahia Filmes, esse olhar se soma a uma missão institucional. Nosso papel é formular políticas estruturantes, fortalecer o ecossistema audiovisual e criar condições para que empresas e profissionais possam crescer, gerar emprego, atrair investimentos e ampliar a presença da Bahia no mercado nacional e internacional. Ter vivido o dia a dia da produção vai me permitir colaborar com a construção de políticas públicas conectadas à realidade do setor.
 
EXIBIDOR: Como você enxerga o audiovisual baiano hoje, seja na estruturação da cadeia produtiva do setor, atração de novos investimentos e difusão de obras locais, e qual a importância da criação da Bahia Filmes neste contexto? Quais são os principais gargalos que você identifica?
 
KS: A Bahia possui um dos patrimônios culturais mais ricos do país e uma produção audiovisual reconhecida pela sua qualidade, diversidade e potência criativa. Contamos com profissionais talentosos, produtoras experientes, uma ampla diversidade de territórios e locações, são mais de 400 municípios, e uma tradição importante na formação de realizadores e na produção de obras que dialogam com o Brasil e com o mundo.
 
Ao mesmo tempo, ainda enfrentamos desafios estruturais para consolidar uma indústria audiovisual cada vez mais competitiva. Precisamos ampliar os mecanismos de financiamento, fortalecer toda a cadeia produtiva, atrair novos investimentos, estimular a inovação e ampliar a articulação entre os diferentes agentes do setor.
 
Outro desafio fundamental é fortalecer a distribuição, a exibição e a formação de público. Produzir obras de qualidade é essencial, mas é igualmente importante garantir que elas circulem, alcancem diferentes públicos e contribuam para ampliar o acesso da população ao audiovisual brasileiro e baiano. Formar público significa fortalecer o mercado, valorizar nossa produção e criar um ciclo sustentável para o desenvolvimento do setor.
 
A criação da Bahia Filmes representa um passo estratégico nesse processo, porque nasce para atuar de forma integrada, articulando políticas voltadas ao desenvolvimento econômico, ao fortalecimento do mercado audiovisual, à atração de produções, à produção de dados e inteligência sobre o setor e à promoção da Bahia como um destino competitivo para investimentos e filmagens.
 
Nosso objetivo é transformar o enorme potencial do audiovisual baiano em desenvolvimento econômico sustentável, geração de emprego e renda, fortalecimento da nossa identidade cultural e maior presença da Bahia nos mercados nacional e internacional.
 
EXIBIDOR: Hoje tem-se a impressão que o audiovisual brasileiro é muito fragmentado, sem muita união e consonância dos elos do setor. Concorda com essa percepção? Se sim, como a Bahia Filmes pretende atuar nessa frente?
 
KS: O audiovisual reúne muitos segmentos diferentes — produção, distribuição, exibição, formação, tecnologia, games, animação, televisão, streaming, festivais — e cada um possui desafios específicos. Naturalmente existem interesses diversos, mas acredito que há um consenso sobre a necessidade de fortalecer o setor como um todo.
 
A Bahia Filmes pode contribuir justamente como um espaço permanente de diálogo e articulação. Queremos aproximar poder público, mercado, universidades, entidades representativas e profissionais para construir estratégias compartilhadas. Os desafios atuais exigem cooperação. Quanto mais alinhados estivermos, maior será nossa capacidade de atrair investimentos, gerar negócios e fortalecer o audiovisual baiano.
 
EXIBIDOR: O fortalecimento da distribuição e exibição de obras baianas está entre as prioridades da Bahia Filmes em um primeiro momento? De que forma trabalhar essa questão?
 
KS: Sem dúvida. Produzir é fundamental, mas garantir que as obras encontrem seu público é igualmente estratégico para o fortalecimento do setor. A Bahia Filmes pretende atuar na articulação de iniciativas que ampliem a circulação das produções baianas, estimulando a participação em mercados, festivais e eventos nacionais e internacionais, apoiando processos de internacionalização e promovendo o diálogo com distribuidores, exibidores e plataformas.
 
Ao mesmo tempo, é importante compreender a distribuição de forma mais ampla. Além do circuito comercial, existem redes fundamentais para a difusão do audiovisual, como as TVs públicas, os cineclubes, as escolas, as universidades e os espaços culturais. Esses ambientes desempenham um papel essencial na democratização do acesso, na formação de público e na valorização da produção audiovisual baiana.
 
Também queremos fortalecer o circuito local de exibição e ampliar as oportunidades para que a população tenha contato com as obras produzidas no estado. Quanto maior a circulação e a diversidade de janelas de exibição, maior será o impacto cultural, econômico e social do audiovisual baiano. Afinal, uma indústria audiovisual forte não se mede apenas pela quantidade de obras produzidas, mas também pela sua capacidade de alcançar diferentes públicos e gerar valor para toda a sociedade.
 
EXIBIDOR: De que forma a Bahia Filmes pode e pretende trabalhar com outras frentes do governo para estimular o crescimento do audiovisual baiano?
 
KS: O audiovisual dialoga diretamente com diversas áreas do desenvolvimento. Ele movimenta turismo, cultura, inovação, educação, tecnologia, economia criativa e geração de emprego. Por isso, a atuação integrada é um princípio da Bahia Filmes. Queremos trabalhar em articulação com diferentes secretarias e órgãos do governo para construir políticas complementares, potencializar investimentos e ampliar os impactos do setor. Essa visão transversal coloca o audiovisual numa posição de vetor estratégico de desenvolvimento econômico e social.
 
EXIBIDOR: Recentemente também houve a reestruturação da Bahia Film Commission para funcionar em conjunto com a Bahia Filmes. Como atrair produções para a Bahia e tornar o Estado um polo audiovisual? Que referências podem ser utilizadas de outras film commissions, como São Paulo Film Commission e Rio Film Commission, por exemplo?
 
KS: A Bahia reúne condições muito competitivas para se consolidar como um grande polo audiovisual. Somos um Estado organizado em 27 Territórios de Identidade, que abrangem 417 municípios, cada um com características culturais, paisagens, patrimônios e vocações distintas. Essa diversidade, aliada à qualificação dos nossos profissionais e à força da identidade baiana, representa um diferencial importante para atrair produções dos mais diversos perfis.
 
A Bahia Film Commission terá um papel estratégico nesse processo, atuando para facilitar a realização de filmagens, integrar os diferentes órgãos públicos, promover as locações e conectar produtoras nacionais e internacionais à cadeia produtiva local. Naturalmente, acompanhamos experiências bem-sucedidas de film commissions brasileiras, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, além de referências internacionais. Mas nossa proposta não é reproduzir modelos, queremos construir uma política adequada à realidade da Bahia.
 
Para isso, será fundamental construir uma rede de cooperação com as prefeituras e secretarias municipais, especialmente das áreas diretamente relacionadas à atividade audiovisual, como cultura, turismo, desenvolvimento econômico, meio ambiente, patrimônio e mobilidade. Essa articulação permitirá estruturar a atuação da Bahia Film Commission nos diferentes municípios, fortalecendo a capacidade de receber produções e ampliando os benefícios para as economias locais.
 
Mais do que atrair filmagens, queremos ampliar a geração de negócios, estimular a contratação de profissionais e fornecedores locais, fortalecer as empresas baianas e fazer com que cada produção deixe um legado econômico, social e cultural nos territórios onde é realizada.
 
EXIBIDOR: Para finalizar, gostaria de saber quais as principais urgências que você enxerga nesse primeiro momento e como projeta a Bahia Filmes e o audiovisual baiano no médio prazo?
 
KS: Neste primeiro momento, nossa prioridade é consolidar a estrutura da Bahia Filmes, fortalecer a Bahia Film Commission, produzir informações qualificadas sobre o setor e estabelecer um diálogo permanente com toda a cadeia audiovisual.
Também queremos ampliar a capacidade de atração de investimentos, fortalecer a competitividade das empresas baianas e criar condições para que mais produções sejam realizadas e circulem dentro e fora do país.
 
No médio prazo, imagino uma Bahia reconhecida como um dos principais polos audiovisuais do Brasil, capaz de atrair produções nacionais e internacionais, gerar empregos qualificados, fortalecer sua indústria criativa e transformar sua enorme potência cultural em desenvolvimento econômico sustentável. Esse é o horizonte que nos orienta.




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