Distribuído no Brasil pela O2 Play, filme tem superado expectativas e reacende o debate sobre potencial dos filmes médios
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(Foto: Atsushi Nishijima / Divulgação)
Mês de julho: período de férias escolares em que, tradicionalmente, os exibidores miram o público infantil e famílias, reservando suas salas aos blockbusters. Em 2026, para aumentar a concorrência no universo do entretenimento, Copa do Mundo. No meio disso tudo, porém, os cinemas brasileiros receberam uma aposta. E ela vem se mostrando bastante acertada.
O Convite, dirigido por Olivia Wilde e estrelado por ela, Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton, estreou em 9 de julho. “A gente apostou na qualidade do filme e na sincronicidade com o lançamento norte-americano. Nos Estados Unidos ele foi lançado pela A24 e a gente trabalhou aqui nas mesmas datas”, contou ao PORTAL EXIBIDOR Igor Kupstas, diretor da O2 Play, distribuidora do título no Brasil. Desde então, tem superado as expectativas.
Parte da estratégia foi promover o filme aos poucos e por fases. Para começar, todo o conteúdo produzido pelo elenco pré-lançamento foi distribuído nas redes da O2 Play, o que ajudou a criar um bom burburinho entre os – muitos – fãs tanto da própria A24 quanto da diretora do filme e da atriz espanhola. A pré-estreia aconteceu no dia 27 de junho, um sábado, em torno de 100 salas, e teve cerca de 1.500 ingressos vendidos. Neste mesmo final de semana, a Cinemark exibiu o título em uma Sessão Secreta – experiência em que a pessoa compra o ingresso e só descobre qual é o filme, inédito ou antecipado, quando já está na sala. Na semana seguinte, as sessões antecipadas já renderam mais de 17 mil ingressos.
Outra ação foi uma série de cabines de imprensa, em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Porto Alegre (RS) e Recife (PE), com formadores de opinião, jornalistas, críticos e influenciadores, sem nenhum tipo de embargo. “Teve muita gente que viu um pouco antes, já comentou e recomendou o filme e, quando estreou de fato, já havia uma massa crítica e muito boca a boca, o que ajudou muito no resultado do primeiro final de semana”, diz Kupstas.
A primeira cine semana com a produção oficialmente em cartaz – já sem a seleção brasileira no Mundial de futebol – teve um circuito de 167 salas e, de acordo com dados da Rentrak, somou R$ 64,7 mil pessoas e R$ 1,99 milhão de renda, conquistando a 5ª posição no ranking Brasil. “Apesar da tristeza como torcedor pelo Brasil ter saído da Copa, foi ótimo para o negócio”, comenta o diretor da distribuidora.
Outra estratégia foi ter apenas cópias legendadas, por haver um entendimento de que o título era mais voltado ao público de salas premium ou de cinema de arte. Kupstas contou que no Cinemark do Shopping Cidade Jardim, com um alto ticket médio, o filme alcançou a melhor renda na sua primeira semana. Já na Cinesala, tradicional cinema de rua da região de Pinheiros, também na capital paulista, as sessões de estreia lotaram (mais de 200 ingressos em cada).
“Já tínhamos uma expectativa alta, porque é um grande filme e reúne elementos que dialogam muito com o público da Cinesala. Ainda assim, a dimensão do boca a boca nos surpreendeu. A repercussão cresceu rapidamente e transformou o filme em um verdadeiro acontecimento”, afirma Paulo Velasco, sócio-fundador da sala. Segundo ele, é importante sempre oferecer mais de uma opção de filme em cartaz, mas O Convite vem apresentando “uma performance excepcional” em diferentes dias e horários, o que demonstra que ainda há uma demanda muito forte e, por isso, o filme deve ter uma trajetória longa na sua programação.
Velasco explica que alguns sinais são muito claros de que uma produção tem potencial para crescer: a manutenção da procura ao longo da semana, o bom desempenho em horários menos concorridos, a venda antecipada e, principalmente, a baixa queda de público de uma semana para outra. Outro indicador menos mensurável, mas muito importante, é quando o filme sai da sala de cinema, vira assunto e começa a circular entre diferentes grupos e públicos. “O Convite é exatamente esse caso. É um filme que gera conversa antes e depois da sessão.”
Driblando a concorrência
Muito tem sido comentado sobre a qualidade de O Convite, seja pela direção, pelo elenco, pela maneira como foi filmado e como aborda assuntos como casamento e sexualidade, com humor mas também provocando reflexões profundas e até lágrimas. “É o tipo de experiência perfeita para se ter numa sala de cinema. Você ri com outras pessoas, você se emociona com outras pessoas, você quer falar sobre isso quando sai da sala de cinema”, aponta o diretor da O2 Play, que acredita que as salas precisam oferecer mais diversidade de temas.
“É um prazer para mim levar meu filho para ver um filme da Disney, por exemplo. Mas às vezes eu quero ter o meu passeio com a minha esposa e eu vou no mesmo shopping, então tem que ter uma sessão diferente”, exemplifica o distribuidor, lembrando que, na estreia, O Convite foi o melhor título em outro shopping de elite em São Paulo, o Iguatemi, mesmo com menos sessões do que outros títulos. “Então é evidente que o público dessas salas queria esse filme, e eu acho que os filmes médios bem trabalhados oxigenam a plateia, trazem um público diferenciado numa época especial de férias e melhoram o resultado das salas e do distribuidor independente, que trabalha de um jeito diferente, focado num público e não só lançando em muitas salas de forma indiscriminada.”
Possivelmente por conta da final da Copa, houve uma pequena queda no resultado do filme na segunda cine semana – público de 51 mil pessoas e renda de R$ 1,54 milhão, caindo para o 6ª lugar na lista da Rentrak –, mas ele voltou a crescer e, no ranking divulgado hoje (27/7), está de novo entre os cinco primeiros títulos mais vistos pelos brasileiros, com mais de 58 mil ingressos vendidos e R$ 1,8 milhão de faturamento.
“Tudo que a gente tem falado sobre o filme se comprova”, defende Kupstas. “Todos os filmes costumam cair final de semana após final de semana, o nosso cresceu. A demanda só continua e a gente também vê cada vez mais influencers, celebridades e pessoas que estão organicamente recomendando o filme, como é o caso da Dani Calabresa, que tem três milhões de seguidores no Instagram. Mas também tem psicólogos, sexólogos…”
Para Flavio Carvalho, head de programação da rede Kinoplex, esse tipo de história está em alta nos cinemas e O Convite também agradou o público masculino. “Sabíamos que ele tinha potencial, mas realmente foi além do esperado”, diz. E confirma que as pré-estreias ajudaram bastante. “A força do boca a boca é um indicador fundamental de que o título tem potencial de crescimento, mas ele precisa estrear com um bom resultado para se sustentar”, explica.
Às vezes o fator sorte pode ajudar também. E O Convite também contou com isso no Brasil. O cantor britânico Harry Styles, que fez uma série de shows em São Paulo – e é ex-namorado de Olivia Wilde –, foi assistir ao filme no Espaço Petrobras de Cinema no dia 15 de julho. Viralizou, claro. “A coisa do Harry Styles para mim foi o momento mais maluco, mais caído do céu”, ri Kupstas.
Naquela semana, a equipe da O2 Play conversava justamente sobre qual ação de marketing poderia lançar para o filme “sair da bolha” e chegar além do público cinéfilo e dos fãs do elenco. No dia seguinte saiu a notícia sobre o espectador ilustre. “Então é óbvio que a gente aproveitou e tentou impulsionar isso”, admite o diretor. A distribuidora publicou posts bem-humorados nas redes sociais e, segundo ele, a audiência cresceu na própria sala da Rua Augusta.
Nos últimos dias, a maior concorrência foi com A Odisseia (Universal), mas segundo Carvalho, o filme segue com bons números nas áreas mais nobres. “Agora ele enfrentará outro gigante, mas nesses cinemas mais sofisticados tende a permanecer por mais quase quatro semanas”, analisa.
Dobrando a aposta
Kupstas, no entanto, dobra a aposta: para ele, ainda há potencial para oito semanas em cartaz. “A gente estava muito confiante na qualidade do filme e na estratégia, mas é lógico que a gente não sabia exatamente como o mercado ia funcionar com os blockbusters. A Odisseia é um filme adulto e que poderia tirar parte do nosso público, mas isso não aconteceu. Nesta semana tem Homem-Aranha (Sony) chegando, que vai ser avassalador. Mas nosso filme é para uma faixa etária um pouco acima, então acho que ele ainda tem perna não só nas salas de arte, mas também em boas sessões nas salas comerciais”, defende o executivo.
Nesse sentido, ele também convida os exibidores a seguirem acreditando na força dessa produção. Para ele, além de causar uma percepção ruim para o público, o fato dos títulos saírem logo de cartaz não dá a chance de conhecer a audiência. Por isso, o mercado deveria trabalhar mais junto para construir “esses pequenos fenômenos que ajudam todo mundo a pagar a conta”, que reforçam e diversificam a plateia do cinema.
Perguntado se o desempenho de O Convite deve mudar a forma como as redes enxergam lançamentos de filmes médios e de distribuidoras independentes, Carvalho é cauteloso: “Não podemos generalizar. Atualmente poucos filmes médios estão funcionando. O Convite é diferenciado. Assim como A Substância e outros. O desafio é criar um roteiro inovador ou levantar um tema atual para atrair o público”, avalia.
Velasco complementa que equilibrar a pressão por abrir espaço para novos lançamentos com a manutenção de um título que continua atraindo público é um dos principais desafios da programação. “Em muitos momentos, optamos por preservar a diversidade e abrir espaço para novos títulos, pensando também no público recorrente, que já assistiu aos filmes em cartaz, em vez de manter uma obra apenas por sua força comercial. É um constante exercício de equilíbrio entre curadoria, renovação e demanda.”
Ainda assim, Kupstas segue apostando: “A gente está com uma meta muito alta aqui. Eu acho que O Convite pode chegar muito perto dos R$ 10 milhões de bilheteria”.