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Artigo / Mercado

16 Dezembro 2020

A Estrela+ Azul

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São poucas as canções do cinema tão celebradas quanto ‘When You Wish Upon a Star’, ou A Estrela Azul na versão em português. Lançada em 1940 na adaptação do clássico Pinóquio para o cinema, ela se tornou ao longo das décadas seguintes um ícone tão marcante da Walt Disney Company, que sua melodia faz parte do logo da empresa. A letra fala de uma estrela que pode atender a um pedido, mesmo que pareça impossível. Em 2004 a AFI (American Film Institute) divulgou a lista das 100 maiores canções do cinema no século XX. Dentre dezenas de canções memoráveis, ‘When You Wish Upon a Star’ ficou em 7º lugar. A melhor colocação para uma canção da Disney. Nessa última semana, foi necessária uma constelação de estrelas azuis para atender tantos desejos de exibidores pelo mundo do afora.

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Com mais de quatro horas de duração, o Disney Investor Day divulgou não apenas uma lista repleta de séries e filmes para os próximos meses e anos, como também a estratégia que será utilizada pela major. Foi um evento muito aguardado e quase obrigatório para quem trabalha com entretenimento. O que se viu foi uma apresentação voltada para o futuro. E se depender dos resultados divulgados, a importância do streaming dentro da Disney será cada vez maior e irá pavimentar o caminho traçado para a empresa nos próximos anos, ou décadas. O objetivo inicial da plataforma lançada em 2019 era alcançar entre 60 e 90 milhões de assinantes até 2024. Esses números foram agora ajustados entre 230 e 260 milhões!

O desejo dos exibidores era que os blockbusters da Disney seguissem adiante com a janela de lançamento na telona. E assim foi feito. Os executivos reforçaram a importância do cinema nos resultados dos filmes e para a experiência audiovisual. Apenas o filme Raya and the Last Dragon foi confirmado com um lançamento simultâneo nos cinemas e no streaming, via Premium Access, como aconteceu com Mulan. Porém, ao longo da apresentação, o discurso - cuidadosamente escrito para os ouvidos de investidores - demonstrou claramente o foco numa distribuição através do formato DTC (Direct-to-Consumer). Ou seja, sem intermediários. Foram mais de 50 títulos apresentados e, em sua extensa maioria, indo direto para a plataforma Disney+. Entre eles, a versão live-action de um boneco que deseja se tornar um menino de verdade.

Pinocchio, com Tom Hanks no elenco, foi inicialmente planejado para os cinemas, mas agora alterado para um lançamento exclusivo no Disney+. Nem todas as versões live-action dos clássicos da Disney tiveram performances robustas nas bilheterias, porém, o apelo da história e elenco fariam de Pinóquio uma boa aposta para as salas de cinemas. Sem dúvida atrairá assinantes para o streaming. E não se trata de um caso único. Até mesmo várias séries apresentadas no evento possuem apelo para o cinema, caso fossem criadas para o formato. Qual exibidor não gostaria de ter um line-up com Loki, Obi-Wan Kenobi, Zootopia Plus, Ahsoka ou Moana? Os fãs, contudo, ganharão muito mais conteúdo, não se limitando ao par de horas da uma sessão. E, considerando as reações positivas recebidas por O Mandaloriano (recomendo o documentário Disney Gallery sobre sua produção), essas novas séries não devem ficar atrás em qualidade de produção ou elenco estrelar de Hollywood.

Indo além do Disney+, mas guiada pela mesma estrela, a empresa confirmou para a América Latina a chegada de um novo serviço de streaming em junho de 2021. Star+ terá um catálogo de filmes e séries que não entraram no Disney+, produções locais e esportes através da marca ESPN, inclusive com jogos ao vivo. A empresa ainda não confirmou os preços oficiais em cada país para o novo serviço, mas muito provavelmente haverá pacotes promocionais com Disney+ e Star+. Com isso, a maior parte do vasto catálogo da Disney estará disponível aos clientes da região. Hulu, outro streaming de destaque da empresa, com quase 40 milhões de assinantes, ficará concentrado no mercado americano.

Com tantas opções DTC chegando, o modelo antigo de distribuição pode ser engolido em pouco tempo. Mas, assim como aconteceu com o velho Gepeto, mesmo que seja engolido, permanecerá vivo. E nesse momento, é preciso mudar como empresa e como profissional. Cortar as cordas que limitam os movimentos e adaptar-se a uma indústria de entretenimento em processo de renovação. E, como Pinóquio, é preciso reviver transformado numa nova realidade, já que a outra opção é de deixar as longas orelhas de pé.

Ricardo Bollier
Ricardo Bollier |

Profissional com mais de 15 anos de experiência na indústria do entretenimento, tendo passado por empresas globais como Fox Film, Warner Bros, Dolby e D-BOX. Atua nos mercados da América Latina e Estados Unidos, juntando conteúdo, experiências e tecnologia.

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