01 Junho 2026
Cannes 2026: Uma Competição Sólida, Menos Alarde e Muita América Latina nas Margens
79ª edição do Festival termina sem um consenso dominante na competição, mas com uma presença significativa de cineastas latinos e ibero-americanos
A 79ª edição do Festival de Cannes terminou no dia 23 de maio da mesma forma que começou: sem um nome dominante de Hollywood na Croisette e sem um único filme que tivesse monopolizado o debate crítico desde os primeiros dias. O que havia, no entanto, era um programa cinematograficamente robusto, distribuído por múltiplas seções, com forte participação de cineastas da América Latina e da Península Ibérica - uma presença que merece atenção particular para os profissionais de distribuição e exibição no Brasil e no restante da região.
A Palma de Ouro e o Palmarés Principal
A Palma de Ouro foi para Fjord, do cineasta romeno Cristian Mungiu - seu segundo troféu máximo em Cannes, tornando-o apenas o 10º realizador a conquistar o prêmio duas vezes. O filme acompanha uma família de imigrantes romenos em conflito com as autoridades de bem-estar infantil na Noruega, estrelado por Sebastian Stan e Renate Reinsve. O júri foi presidido pelo diretor sul-coreano Park Chan-wook, que na coletiva pós-cerimônia admitiu com bom humor que a deliberação foi difícil: "Francamente, eu não queria dar a Palma de Ouro a nenhum filme. Por quê? Porque nunca ganhei uma! Mas não tínhamos escolha. E claro que 'Fjord' mereceu".
O Grande Prêmio do Júri foi para Minotaur, do russo Andrei Zvyagintsev, que examina a vacuidade moral da elite de Putin em meio à guerra na Ucrânia. O retorno de Zvyagintsev a Cannes após anos de ausência foi um dos momentos mais comentados da cerimônia. O prêmio de Melhor Direção foi dividido entre Pawel Pawlikowski, por Fatherland, e a dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi - conhecidos como Los Javis - por La Bola Negra. As premiações de interpretação foram igualmente divididas: Virginie Efira e Tao Okamoto compartilharam o prêmio de Melhor Atriz por All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, enquanto Emmanuel Macchia e Valentin Campagne repartiram o de Melhor Ator por Coward, de Lukas Dhont.
A distribuição generosa de prêmios refletiu uma competição de alta qualidade, mas sem um título que tivesse se imposto antes da cerimônia. Nenhum dos favoritos gerou o tipo de consenso antecipado que filmes como Parasita ou Anatomia de uma Queda produziram em suas respectivas edições. Para os distribuidores da região, isso significa que Fjord, Minotaur e All of a Sudden chegam ao ciclo de premiações de fim de ano sem o impulso que um vencedor mais unânime costuma proporcionar - o que exigirá um esforço de lançamento mais deliberado para construir audiência.
A presença ibero-americana na seleção oficial
O destaque mais expressivo da participação ibero-americana na competição principal foi justamente La Bola Negra. Dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi e co-produzido com a Movistar Plus+ e a El Deseo - produtora de Pedro Almodóvar -, o filme é uma adaptação da obra de Federico García Lorca com foco na experiência LGBTQ+. A presença espanhola em Cannes foi especialmente forte nesta edição, com La Bola Negra ao lado do novo longa de Pedro Almodóvar e de El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, também em competição. O prêmio de Melhor Direção conquistado pelos Los Javis foi recebido com entusiasmo na Espanha e representa um avanço concreto para o cinema em língua espanhola no circuito de festivais internacionais de prestígio.
Rodrigo Sorogoyen, de El Ser Querido, e o próprio Almodóvar, com Natal Amargo (Warner), completaram o trio espanhol em competição. Embora nenhum dos dois tenha saído com prêmios, a presença consolidada do cinema espanhol na competição principal sublinha a vitalidade da produção ibérica no circuito internacional.
América Latina: Un Certain Regard e Quinzena dos Realizadores
A participação da América Latina foi concentrada principalmente nas seções paralelas, mas com títulos de peso. Em Un Certain Regard, a cineasta chilena Manuela Martelli apresentou The Meltdown / El Deshielo, uma continuação temática de seu premiado 1976. Ambientado nos anos 1990, o filme acompanha uma jovem cujo período de férias em um hotel andino remoto toma um rumo sombrio após o desaparecimento de um esquiador alemão. Martelli é uma das vozes mais consistentes do cinema chileno contemporâneo e o filme deve encontrar espaço no circuito especializado da região.
Também em Un Certain Regard, a cineasta costarriquenha Valentina Maurel (I Have Electric Dreams) apresentou Forever Your Maternal Animal / Soy Tu Animal Materno, drama existencial estrelado pela atriz mexicana indicada ao Oscar Marina de Tavira (Roma). O filme explora o choque de uma mulher que retorna da Europa ao seu país de origem e se vê presa entre as crises familiares e um impulso irrefreável de fuga.
Ainda em Un Certain Regard, o filme Ben'Imana, da realizadora ruandesa Marie-Clémentine Dusabejambo, foi selecionado para o prêmio Caméra d'Or - e acabou conquistando o troféu, marcando a primeira vez que um filme dirigido por um cineasta ruandês foi incluído na seleção oficial do festival. O título foi distribuído internacionalmente pela MK2 Films.
Na Quinzena dos Realizadores, a presença latino-americana foi expressiva. O argentino Lisandro Alonso retornou ao festival com Double Freedom / La Libertad Doble, uma sequência de seu aclamado longa de estreia de 2001, La Libertad, retomando a figura do lenhador Misael em uma meditação sobre o tempo e a solidão. Alonso é um nome consagrado no circuito de arte e ensaio, e o retorno a um personagem de seu passado promete atrair atenção dos exibidores especializados.
A chilena Dominga Sotomayor, de Tarde Demais Para Morrer, apresentou La Perra, adaptação do romance visceral de Pilar Quintana sobre as dinâmicas sufocantes do desejo e da sobrevivência em uma ilha remota. Sotomayor é uma das diretoras mais reconhecidas de sua geração no contexto do cinema de autor latino-americano, e La Perra já desperta interesse de distribuidores de cinema especializado no Brasil. Completando o trio da Quinzena, o venezuelano Jorge Thielen Armand trouxe Death Has No Master / La Muerte No Tiene Dueño, centrado em uma mulher que retorna à plantação de cacau de sua família após trinta anos, enfrentando os fantasmas de uma paisagem transformada pelo tempo.
Na Semana da Crítica e Cannes Première
A Semana da Crítica contou com a participação do cineasta mexicano Bruno Santamaría Razo com Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, seu debut na ficção. Filmado em 16mm e ambientado na Cidade do México dos anos 1990, o drama autobiográfico acompanha um garoto de onze anos cujos primeiros sentimentos amorosos colidem com o diagnóstico de HIV do pai. O título representa uma voz emergente no cinema mexicano, com potencial de circulação em festivais brasileiros e no circuito de arte e ensaio.
Na seção Cannes Première, a co-direção argentina de Juan Cabral e Santiago Franco apresentou The Match / El Partido, uma reconstrução meticulosa da lendária partida da Copa do Mundo de 1986 entre Argentina e Inglaterra - um título com apelo óbvio para o público esportivo da região. Já o mexicano Diego Luna retornou à cadeira de diretor com Ashes, adaptação do romance de Brenda Navarro sobre a jornada desapontante de uma jovem mexicana em Madri, retratando a experiência da migração e suas fraturas.
Cannes Classics e a Memória do Cinema Latino-Americano
A seção Cannes Classics incluiu duas restaurações significativas para o patrimônio audiovisual da região. O argentino Leopoldo Torre Nilsson retornou ao festival com A Casa do Anjo, de 1957, agora em restauração 4K - quase sete décadas após sua première original em Cannes, o filme é amplamente considerado uma das obras fundadoras do cinema moderno argentino. A outra restauração com forte ressonância para o público ibero-americano foi a versão 4K de O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, comemorando 20 anos de seu lançamento original.
Perspectivas para a região
Para os profissionais de distribuição e exibição brasileiros, o festival deixou um mapa de títulos com potencial de mercado. La Bola Negra e Fatherland - ambos com Mubi atuando como distribuidora em territórios-chave incluindo a América Latina - devem entrar em cartaz ainda em 2026. A A24 adquiriu Club Kid, de Jordan Firstman, o título mais comercialmente acessível do festival. Fjord, nas mãos da Neon - que acumula sete anos consecutivos com o vencedor da Palma de Ouro -, chegará ao ciclo de premiações de fim de ano com o impulso da vitória máxima, mas precisará construir seu público gradualmente.
A 79ª edição foi uma edição de acumulação lenta, não de revelações imediatas. Os frutos, como sempre em Cannes, virão com o tempo.
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J. Sperling Reich
É sócio da Covergent, uma empresa que presta consultoria, orientação e apoio às indústrias de mídia e entretenimento. É também editor-executivo da Celluloid Junkie, uma base online líder no setor dedicado ao mercado global de filmes e cinema. Além disso, Sperling é especialista e consultor renomado em tecnologia de cinema tradicional e digital.