28 Fevereiro 2020
O que fica é a experiência
Deu na Time: 2045 será o ano em que o homem se tornará imortal. A aceleração da inovação de tecnologia, conhecimento, circulação da informação, estão levando a uma rápida fusão entre o ser humano e as máquinas em um mundo de Inteligência Artificial já imaginada em muitos longas e séries de Black Mirror a Years and Years, entre outros. Desde meados de 2016, estamos vivendo a 4ª revolução industrial, essencialmente tecnológica. Usar a tecnologia para incremento da experiência do consumidor é a chave.
A etimologia da palavra experiência se resume em sair de si. Uma sala de cinema com excelência de som, imagem, acústica, poltrona, climatização ... é um espaço que transporta o espectador a uma experiência sensorial e imersiva. Buscamos um momento especial na sala de cinema e isso nos é oferecido pelo conteúdo e pelo ambiente.
Todavia, a experiência de consumo de uma atividade de lazer, seja ela boa ou ruim, acontece desde o momento da compra do ingresso, na bilheteria ou no ambiente online.
O percentual de compra de ingressos online para o cinema ainda não é tão significativo por aqui o site da Ingresso.com vendeu em 2019, 50% a mais em volume de tickets com relação a 2018 - dados divulgados pela empresa. Mesmo com este aumento expressivo no resultado de venda de ingressos online, a compra para ida ao cinema acontece em sua grande maioria no ponto-de-venda. É no cinema que nasce a experimentação do consumidor com a marca. E marca neste contexto é o cinema e o filme propriamente dito.
Já vi e vivi diversos processos de gargalo no atendimento no momento da compra do bilhete e na bombonière. É um fato. O cliente não é percebido como elemento do centro do processo. E valores, operação, empatia, afinidade com a marca...são pontos que muitas vezes não são levados em conta por quem está na linha de frente do atendimento; no primeiro contato do consumidor com sua experiência. Bill Gates tem uma frase célebre que nos diz: Seus clientes mais insatisfeitos são sua maior fonte de aprendizado. A questão é saber se estão sendo ouvidos.
Acabamos de ter acesso ao resultado da pesquisa anual feita pela imprensa de RJ e SP e vimos que efetivamente vários circuitos exibidores foram bem avaliados pelo usuário / espectador, levando-se em conta alguns quesitos. Mérito de todos! Muito bom poder saber onde está o melhor som, a melhor imagem, a melhor sala VIP. Mas e qual a sala onde encontramos todos estes elementos juntos, para que tenhamos uma boa experiência?
Pouco antes do carnaval, estive em uma cabine para a primeira exibição de um longa brasileiro que será lançado em 3D. Antes da sessão começar, a coordenadora de finalização do filme se apresenta e diz a todos que estamos reunidos naquele cinema, que se mostrou o melhor espaço para aprovação do produto final, por se tratar da sala com melhor projeção no Rio em 3D. Isso levando-se em conta inclusive os óculos que usaríamos. E ela complementa: precisei percorrer, antes desta escolha, sete salas, que tinham algum tipo de questão relativa à qualidade da projeção. SETE!
O grau de ceticismo do consumidor aumentou depois que as marcas começaram a tentar convencer que oferecem um bom produto, sem pensar na entrega efetiva. Vemos ao caso do Burger King que em sua comunicação assinava você importa e recebeu, entre outras, a seguinte mensagem de um consumidor que tuitou: e você paga ao seu funcionário 8 dólares a hora. O consumidor está em busca de experiências verdadeiras. Não vale só parecer bom. Tem que entregar. Um resultado de pesquisa da Dimensional Research nos mostra que 89% dos consumidores não voltam após uma única experiência ruim.
Só se pode criar experiências memoráveis quando se coloca o cliente no centro de todo processo. Quando adotamos este mindset, o foco é: observar padrões comportamentais, tendências de mercado, antecipando necessidades futuras. Vemos exemplos de empresas que já adotam este modelo de negócio: Amazon, Nubank, Apple, Netflix, Natura, Magazine Luiza e tantas outras. Clientes podem esquecer o que você diz, mas não esquecerão como você os fez se sentir.
Com o cinema 4D e o IMAX envolvemos o espectador com uma experiência diferente, que a poltrona da sala de casa não nos traz. A experiência da telona para alguns títulos é incomparável. Não se pode achar que Os Vingadores: Ultimato pode ser melhor percebido na tela de casa, como primeira escolha. Ler algoritmo e antecipar tendências com relação à produção do conteúdo que o espectador deseja assistir é essencial. Mas se a análise é feita com relação ao conteúdo e não ao melhor ambiente para assistí-lo, perdemos uma oportunidade. E basta uma experiência ruim no processo do cliente, para ele repensar e valorizar, daqui pra frente, a indicação de produtos relacionados, por exemplo.
Yuval Harari, historiador e escritor, nos diz: É preciso continuar se transformando ou então se tornará irrelevante. Esse pensamento precisa fazer parte do mindset do audiovisual, no que diz respeito a oferecer a melhor experiência de como e o que oferecemos. Entregar a melhor experiência exige estar atento à: governança, cultura, mensuração, tecnologia e processo. Existem algumas maneiras de se medir a satisfação de um cliente com relação à experiência que teve. A Uber usa Rating (estrelinhas), CES (customer effort score) avalia usando o concordo e discordo em escalas de medidas importantes, o NPS (net promoter score) mede em uma escala de 1 a 10 para análise de satisfação. São algumas as ferramentas de análise pós uso. Mas antes que cheguemos na análise pós consumo, que tal pensarmos antes, no famoso CX Customer Experience?
Vale um olhar atento sobre alguns números que podem nos ajudar a entender o comportamento do consumidor atual e de que forma ele interage com uma experiência de consumo, segundo pesquisa da Bright Local Research:
- 82% dos consumidores leem comentários online sobre serviços, produtos, experiências.
- Entre os consumidores que leem comentários, 97% leem as respostas das empresas aos seus comentários.
- O consumidor médio gasta 13 minutos e 45 segundos lendo opiniões, antes de tomar uma decisão.
**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**

Cris Cunha
Executiva com mais 20 anos de experiência na liderança de marketing de distribuição de filmes nacionais e estrangeiros. Esteve ligada ao lançamento, à estratégia e à distribuição de diversos longas, como: Cidade de Deus, A Vida é Bela, Madame Satã, Olga, Minha Mãe é Uma Peça, De pernas Pro Ar, Chico Xavier, Estômago, Todo Mundo em Pânico, entre outros. A partir de 2017, iniciou atividades ligadas à coordenação de lançamento de filmes - planejamento estratégico da campanha - e à realização de pesquisa de produto (quantitativa e qualitativa) para o segmento audiovisual.