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24 Abril 2026 | Redação

Tendências da CinemaCon devem agitar mercado brasileiro

Players brasileiros que estiveram em Las Vegas falaram ao Portal Exibidor sobre a expectativa da chegada de novidades ao Brasil

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(Foto: Bryan Steffy/Getty Images for CinemaCon)

A maior convenção do mercado de cinema do mundo chegou ao fim na última quinta-feira (16) e muito do que foi apresentado e discutido na CinemaCon 2026 deve ditar os caminhos a serem seguidos no setor cinematográfico nos próximos meses. O Portal Exibidor conversou com diversos players brasileiros que estiveram em Las Vegas e é consenso que a experiência premium, a partir de agora, se torna um novo padrão de mercado para atrair o público. Além das novas tecnologias apresentadas que devem ser grandes diferenciais em um mercado tão competitivo, blockbusters de grande apelo devem aquecer o mercado exibidor entre os meses de maio e julho.
 
Conteúdos publicados no Portal no decorrer do evento evidenciaram um clima de otimismo entre os participantes, e muito se deve ao fato de todos os elos da cadeia terem reforçado a importância de janelas de exibição mais longas nos cinemas. O próprio Michael O'Leary, presidente e CEO da Cinema United, dedicou uma atenção especial para a defesa da chamada "janela mais nobre" em seu discurso durante o painel "State of the Industry".
 
"Essa é a terceira CinemaCon que participo e sem dúvidas foi a que saí mais otimista", afirmou José Octavio Freitas, Diretor de Programação da Cinemark. "O tema da janela de exclusividade para os cinemas parece ser algo assimilado pelo mercado, como algo importante de manter e cuidar para que todos possam alcançar resultados mais robustos, algo que foi repetido por diversos estúdios, diretores e produtores de peso."
 
Luiz Fernando Morau, CEO da Integradora Digital, acredita que muitas novidades apresentadas no evento devem impactar diretamente a operação dos cinemas já no curto prazo. Ele pontuou que tecnologias de projeção a laser, sistemas de som imersivo e melhorias no conforto das salas já deixaram de ser diferenciais para se tornarem requisitos básicos. "Isso eleva o nível de exigência operacional, tanto em termos de atualização de equipamentos quanto na necessidade de manutenção mais rigorosa e constante. No Brasil, esse movimento se torna ainda mais relevante diante de um parque exibidor que, em parte, opera com tecnologias já próximas do limite de sua vida útil."
 
Depois de alguns anos com poucas novidades , em um período de recuperação dos cinemas pós-pandemia, a CinemaCon 2026 trouxe uma série de inovações tecnológicas que prometem contribuir para a era da experiência premium dentro das salas. Marcelo Lima, CEO da Tonks, destacou que soluções de software devem chegar rapidamente ao mercado brasileiro, enquanto novas tecnologias de hardware devem levar um tempo maior, já que têm como prioridade os mercados do hemisfério Norte, sobretudo Estados Unidos, e a China.
 
"A solução da NEC [Display Solutions] para melhorar o contraste e a própria solução da Christie VDR, que também tem soluções de contraste e melhorias de projeção, devem chegar rapidamente ao Brasil. Em hardware não vejo nada chegando tão cedo, muito pelas questões de imposto e também escala de produção para fazer sentido vir para o Brasil. Os maiores destaques são os projetores HD e também as telas LED, mas ainda é cedo para fazermos uma previsão antecipada até que a gente entenda qual vai ser a escala de produção desses produtos e o espaço que tem", disse.
 
Michael Giliam, CEO da OrionPC, também destacou a consolidação da projeção a laser como um novo padrão da indústria e o avanço das telas LED, que devem ganhar espaço nos complexos brasileiros nos próximos anos. "O mercado brasileiro está ampliando seu foco na eficiência e sustentabilidade da operação e, nesse cenário, a projeção a laser já é uma realidade consolidada no Brasil, inclusive impulsionada por modelos como o programa de locação. Por outro lado, as telas de LED, apesar dos benefícios em qualidade e experiência, ainda apresentam um custo de implementação elevado. O mercado brasileiro, neste momento, não remunera esse diferencial na mesma proporção, o que limita sua adoção em larga escala”, analisa
 
Ainda sobre isso, Luis Henrique Ciocler, CEO da Centauro, lembrou que as soluções apresentadas na CinemaCon possuem aprovação da Digital Cinema Initiatives (DCI) e, diferente dos últimos anos, as fabricantes passaram a oferecer telas com permeabilidade acústica superior a 90%. Desta forma, os modelos mais recentes já conseguem se integrar perfeitamente aos sistemas de áudio de cinema existentes, mantendo a precisão de cores e o suporte a HDR.
 
"No entanto, quando olhamos para a viabilidade imediata no mercado brasileiro, essa tecnologia ainda se encontra distante da nossa realidade para uma adoção em larga escala. O obstáculo principal reside nos altos custos de aquisição do hardware que, quando somados à elevada carga tributária inerente aos processos de importação no Brasil, tornam o retorno sobre o investimento desafiador para a maioria dos exibidores no curto prazo. Acredito que, para os próximos anos, a transição para o LED ocorrerá de forma pontual, focada primeiramente em salas premium (PLF), antes de se democratizar no parque exibidor nacional", ponderou Ciocler.
 
Além das soluções de LED, também chamou a atenção de muitos players brasileiros a nova tecnologia ScreenX apresentada pela CJ 4DPLEX em um encontro promovido pelo Portal Exibidor. Ela consiste no primeiro formato de cinema com múltiplas telas que oferece um campo de visão imersivo de 270º. "Há tecnologias que provavelmente serão implementadas em algumas salas no Brasil, como a tecnologia ScreenX. Saber com antecedência sobre novidades que acreditamos que podem ser bem aceitas pelo público no futuro já faz com que pensemos em aplicações  na publicidade em um futuro não tão distante", disse Adriano Pereira, Diretor Comercial da Preshow.
 
Tudo isso também terá efeito sobre a programação das grandes majors, que devem buscar potencializar ao máximo suas produções utilizando as ferramentas disponíveis no mercado. "As novas tecnologias de projeção vão acabar mudando um pouco o conceito de visualização de imagem e  podem atrair mais público. Apesar de ainda serem um pouco distantes da nossa realidade por conta do preço, acredito que para o ano que vem deve entrar com tudo no mercado brasileiro", avaliou Bruno Machado, Diretor de Operações da Kelonik.
 
Bombonière e sistemas de venda
 
Além das novas tecnologias de som e imagem, inovações de sistemas de venda e novas soluções em bomboniere deixam de ser apenas um acessório e assumem um papel central na sustentabilidade dos cinemas. Nessa seara, Victor Sampaio, Consultor de Vendas da Ping Solutions, afirmou que a empresa está preparada para ofertar os mesmos produtos, e com a mesma qualidade, dos que são oferecidos nas grandes redes de cinemas norte-americanas, por exemplo. "O mercado americano, europeu e mexicano tem um pouco mais de acesso devido ao dólar, e aqui encarece muito porque o produto é feito fora do Brasil. Não temos uma tecnologia como a da China para fazer esse tipo de produção, mas falando de balde de pipoca e em agregar valor ao cinema, a Ping está pronta e preparada para ofertar produtos de qualidade o ano todo", disse.
 
Adrian Susin, Diretor Comercial da VendaBem, ainda destacou que em ERP, bilheteria, digital signage e venda online, o Brasil está alinhado com o mercado internacional, e até à frente em alguns pontos. O executivo disse que a CinemaCon validou o nível tecnológico brasileiro frente aos players mundiais e que há uma forte tendência de os exibidores priorizarem o controle de seus canais de venda diretos. "ERPs em nuvem com BI integrado, bilheteria mobile, autoatendimento com PIX e QR Code, digital signage dinâmico ligado em tempo real à programação e venda online com WhatsApp commerce já são realidade hoje em redes de diferentes portes", afirmou. 
 
O que ainda fica distante, segundo ele, não é a tecnologia em si, e sim a maturidade para extrair valor dela: precificação dinâmica baseada em IA, personalização em tempo real entre os canais, modelos de assinatura integrados ao ticketing e analytics de público mais avançados dependem de CRM consolidado, volume de dados consistente, ajustes de LGPD e de uma relação comercial diferente com as distribuidoras - “pré-requisitos que a maior parte do mercado ainda está construindo", finalizou.
 
Exibição aquecida
 
E quando falamos nos impactos da CinemaCon no mercado brasileiro é impossível não pensar no principal produto do cinema: os filmes. Eduardo Chang, Diretor de Programação da Cinépolis, citou a importância da janela de exibição destacada pelos estúdios e a atenção que deve ser dada à Geração Z e seus hábitos de consumo, uma vez que esse recorte geracional está na dianteira da retomada dos cinemas. 
 
O executivo destacou um primeiro semestre muito forte para os exibidores, principalmente entre maio e julho, com o lançamento de franquias consolidadas como Toy Story 5 (Disney), Minions (Universal), Homem-Aranha (Sony) e apostas como A Odisseia (Universal), Mestre do Universo (Amazon MGM), entre outros. "Para o segundo semestre será mais desafiador, mas acredito que teremos muitos títulos médios com potencial que poderão nos surpreender, como 'Verity' da Amazon e talvez um novo personagem da DC, 'Clayface'. Teremos muitos terrores que sempre funcionam no nosso mercado como 'Insidious' e 'Resident Evil', e animações como 'Patrulha Canina', 'A Ilha Esquecida', 'Gato na Cartola' e 'Hexed' da Disney", listou.
 
A diversidade de conteúdos também chamou a atenção dos exibidores, e a expectativa é de bons públicos nos cinemas durante todo o ano. "A diversificação de temas foi o que mais chamou a atenção e acho que é o que vai fazer com que todos os públicos retornem aos cinemas. Acredito que todos os estúdios têm suas apostas que vão impactar positivamente o mercado ao longo do ano, juntamente com um calendário mais equilibrado, ou seja, que todo grande lançamento seja potencializado na grade de programação", destacou Douglas Mandrot, CEO da Cineflix.
 
Flávio Canteruccio, Diretor da AFA Cinemas, projetou apenas até três filmes de grande bilheteria nos cinemas brasileiros em 2026, mas destacou a apresentação da Paramount, onde o CEO David Ellison prometeu janela mínima de 45 dias com a intenção de ampliar o prazo para 90 dias, e também pelo menos 30 lançamentos por ano na operação combinada com a Warner. "Acho que a apresentação da Paramount foi muito interessante, e se ele conseguir cumprir metade do que falou, está ótimo. A apresentação da Disney também surpreendeu com um foco em trazer o público e fazer tudo para o público, então foi bom. De forma geral, se cumprirem metade do que foi prometido e tivermos algumas surpresas será muito bom. Acho que teremos bons filmes, mas bons filmes não significam bons públicos", alertou.
 
Para Luiz Fernando Morau, tudo o que foi apresentado na CinemaCon 2026 evidencia que o modelo tradicional de exibição está evoluindo para um conceito mais amplo, no qual o cinema se posiciona como um hub de experiências imersivas e vai além da exibição dos filmes. Mas essa mudança implica em uma infraestrutura mais flexível e adaptável, preparada para o multiuso. “As salas deverão ser capazes de receber não apenas conteúdos cinematográficos, mas também eventos ao vivo, transmissões especiais, experiências interativas e até aplicações corporativas. Para isso, será fundamental investir em conectividade robusta, sistemas de áudio e vídeo mais versáteis e maior capacidade de integração tecnológica.”

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