30 Janeiro 2026 | Gabryella Garcia
Acessibilidade de conteúdo nos cinemas é caminho para formação de novo público e nova fonte de receita para exibidores: “A inclusão pode ser um investimento estratégico”
Hoje vista como obrigação para cumprimento de lei, acessibilidade pode ser convertida em renda para os cinemas brasileiros
A acessibilidade de conteúdo nos cinemas brasileiros é prevista por lei e também por uma ação regulatória da Ancine, mas muitas vezes é encarada apenas como uma obrigação por parte do mercado cinematográfico. Entretanto, de acordo com especialistas ouvidos pelo Portal Exibidor, trabalhar pela inclusão de pessoas com algum tipo de deficiência nos cinemas pode ajudar a resolver uma das grandes preocupações dos exibidores: a formação de público. Mais do que ajudar nessa questão, a acessibilidade pode também ser revertida em uma nova fonte de renda, oriunda de um público que por muito tempo foi excluído e impedido de ocupar as salas de cinema.
A lei do Estatuto da Pessoa com Deficiência garante recursos como Audiodescrição, Legenda Descritiva e Língua Brasileira de Sinais (Libras) para pessoas com deficiência visual e auditiva, considerando que os filmes exibidos em salas com mais de 20 assentos devem ter tais recursos em todas as sessões. Além disso, em 2020 a Instrução Normativa 128/2016 da Ancine implementou a obrigatoriedade, sob pena de multa, para que os cinemas nacionais oferecessem aparelhos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva.
Os aplicativos de acessibilidade, como o M LOAD (da MAV), MovieReading, GRETA e PingPlay (da ETC Filmes), foram homologados pela Ancine em 2023 dentro da instrução normativa, e desde então a distribuidora e a produtora responsáveis pelos filmes lançados no Brasil devem produzir esses recursos e disponibilizar em algum dos aplicativos homologados. "A vinda dos aplicativos trouxe benefícios para a cadeia como um todo e a pessoa com deficiência ganhou autonomia. Com seu aparelho celular ela baixa o aplicativo, escolhe o filme e consegue ter a experiência do cinema acessível", explicou Marcella Fazzio, diretora da MAV.
O modelo, entretanto, pode variar de país para país de acordo com as regulamentações específicas. Roberta Schimoi, gerente de produto da GRETA, que trabalha com aplicativos de acessibilidade nos cinemas em mais de dez países, sobretudo na Europa, pontuou que na França, por exemplo, a obrigação não se restringe às distribuidoras ou detentores dos direitos autorais dos filmes, mas é compartilhada entre diferentes elos da cadeia.
"Na França trabalhamos em um modelo que é compartilhado entre exibidor, que paga uma taxa mensal, e as distribuidoras, que também pagam. Acho algo justo porque não fica só com a distribuidora e essa responsabilidade é compartilhada. Mas em grande parte dos países a responsabilidade continua sendo das distribuidoras porque o que acontece em países que possuem uma legislação específica, como é o caso do Brasil, no orçamento do filme já pode ser incluída a questão da acessibilidade, então fica na mão de quem detém o direito do filme colocar esses recursos, mas é importante ressaltar que existem outros modelos", disse Roberta.
Voltando para a realidade brasileira, a instrução normativa da Ancine também destaca que precisa existir um acordo entre distribuidoras e salas de cinema para prover as acessibilidades. Hoje isso é feito através dos aplicativos, em aparelhos de celular, e apesar de parecer distante da realidade de muitas pessoas não possuir um celular, dados do IBGE de 2024 apontam que 88,9% da população brasileira acima de dez anos possui um celular, portanto pouco mais de 10% da população não teria meios para acessar o aplicativo. Nesses casos, o exibidor tem a obrigação de fornecer os recursos de acessibilidade - um celular, para a pessoa portadora de alguma deficiência auditiva ou visual que não possua o aparelho.
“Há anos trabalhamos pela ampliação da acessibilidade em nosso mercado, tanto nos cinemas quanto em outras janelas de exibição, por meio do PROACCESS, do PingPlay e de outras soluções, isso faz parte da nossa missão. Entendemos que quanto mais agentes envolvidos, melhor: aos poucos, vamos formando esse novo público, e o retorno dos investimentos acontece de forma consistente. O crescimento no número de aplicativos e de produtores de recursos é louvável, pois faz parte do crescimento, da evolução e da qualificação do setor”, ressalta Cássio Koide, diretor geral da ETC Filmes, responsável pelo PingPlay.
De acordo com a Ancine, aliás, 100% das salas de cinema do Brasil são acessíveis com ferramentas disponibilizadas pelos exibidores, ou seja, todos os filmes exibidos nos cinemas terão os recursos de acessibilidade disponíveis em algum dos aplicativos. Entretanto, para uma acessibilidade completa dos cinemas ainda faltam alguns avanços em questões que envolvem desde o entorno dos filmes, passando pela comunicação e treinamento das equipes, até o espaço físico dos cinemas e locomoção das pessoas com algum tipo de deficiência.
"No que diz respeito aos recursos de acessibilidade em si, que são audiodescrição, Libras e legenda descritiva, podemos considerar 100% acessível. Mas quando falamos na experiência como um todo, precisamos lembrar que existe toda uma jornada da pessoa com deficiência para chegar até o cinema e utilizar o recurso da acessibilidade em si. Dentro de toda a jornada dificilmente vai ser 100% acessível, mas imagino que cinemas e exibidores estejam se preparando cada vez mais para receber esse público", destacou Murillo Kraus Santana, diretor de negócios e projetos do MovieReading.
Fazzio também apontou que uma das grandes questões que precisa ser trabalhada para uma acessibilidade plena é a comunicação feita com esse público, que muitas vezes não encontra as informações sobre acessibilidade ou sequer sabe qual aplicativo deve ser utilizado para determinado filme.
"O cinema no Brasil é acessível hoje? O filme é! Para falarmos que o cinema é acessível ainda precisamos dar alguns passos importantes. A comunicação não é acessível e as equipes ainda não estão treinadas, por exemplo. Mas também é importante olhar o copo meio cheio porque já temos os recursos e o público quer ir aos cinemas. O que falta hoje é comunicação e acolhimento para tornar de fato esse espaço comum para todo mundo. Os aplicativos chegaram para simplificar o que antes parecia impossível e muito difícil, mas hoje qualquer pessoa com deficiência pode assistir um filme com autonomia utilizando o celular. Temos a tecnologia a serviço da inclusão e a serviço da experiência do cliente, mas ainda precisamos melhorar a comunicação. Fazer uma comunicação que seja mais clara e mais acessível, e acho que isso abre uma possibilidade de atrair novos públicos e fidelizar espectadores que antes não estavam no radar das salas de cinema", disse Marcella Fazzio.
O treinamento das equipes, aliás, é de responsabilidade do exibidor, e Fazzio completa destacando que é necessário sensibilizar a população como um todo para que as pessoas com deficiência sejam acolhidas e sua presença nos cinemas - e em outros espaços que nunca foram ocupados - seja normalizada.
"Se falarmos da questão da acessibilidade só pela via da obrigação, fica muito difícil e ninguém quer escutar. Se eu listar quais são as obrigações dos exibidores é, por exemplo, fazer uma comunicação acessível. Isso não está exatamente escrito na instrução normativa, o que está escrito é que o exibidor precisa prover a possibilidade de acesso. Mas não está falando, por exemplo, que a comunicação precisa ser acessível, que os exibidores precisam treinar suas equipes, que a exibição do trailer acessível deveria ser uma condição importante e que a venda de ingressos também precisa ser acessível. Podemos listar diversas barreiras e devemos discutir a acessibilidade do ponto de vista social, mas também uma oportunidade real de negócio, de expansão de mercado e de formação de novos espectadores", disse.
A oportunidade de negócio e formação de público apontada pela diretora da MAV, aliás, foi uma das premissas para o surgimento da GRETA.
"Começamos à partir da premissa de um negócio de desenvolvimento de audiência e realmente ampliar o público. Muitas pessoas já conheciam e sabiam o que é cinema, mas haviam muitas pessoas que não podiam frequentar os cinemas e agora podem. Essa é a razão pela qual, além de disponibilizarmos os recursos de acessibilidade no aplicativo, também trabalhamos com a sociedade civil, associações e próprios indivíduos portadores de alguma deficiência. Queremos criar uma comunidade de novos amantes do cinema e é um trabalho para as pessoas ocuparem esse espaço e essa audiência se desenvolver", explicou Schimoi.
Dados da própria Ancine evidenciam a existência desse público, e em artigo publicado no portal Poder 360, Alex Braga, diretor-presidente da agência reguladora, apontou que entre 2023 e a metade de 2025 foram registrados mais de 123 mil downloads de recursos de acessibilidade para os filmes exibidos nos cinemas brasileiros.
"É um público que foi excluído por muito tempo e não tinha acesso aos recursos, além de diversas barreiras de acesso. É uma construção de público e no nosso entendimento deve ser uma construção conjunta entre produtores, distribuidores, exibidores e o governo. Nós produzimos o aplicativo e juntos temos um potencial enorme de construir esse novo público, que no médio e longo prazo vai se reverter em mais receitas. De 2023 até junho de 2025 tivemos um aumento de 880% no números de downloads do Movie Reading, então isso reflete que temos um público interessado em consumir", completou Kraus Santana.
Marcella Fazzio corroborou que a acessibilidade deve ser vista como uma nova receita, e não como uma obrigação, e que há um grande público que pode ser uma potencial oportunidade de negócio, desde que seja "trocada a lente" para enxergar a acessibilidade para além do cumprimento de leis.
"Muitas vezes penso em como podemos falar em acessibilidade além da obrigação legal, mas como uma vantagem competitiva em termos de receita e negócio. Estamos falando de um público imenso que quer entrar nas salas de cinema, consumir histórias e fazer parte da experiência cinematográfica. É uma oportunidade real de expansão de mercado e formação de novos espectadores. Falamos tanto de formação de público e temos uma oportunidade de fortalecer uma imagem institucional, do compromisso com a diversidade e a cidadania e ainda atrair novos públicos. Temos que pensar em como deixar esse pensamento de que a inclusão é uma despesa, mas perceber que a inclusão pode ser um investimento estratégico", refletiu.
Por fim, outra barreira apontada pelos especialistas para a plena inclusão foi a variedade de aplicativos, que tornam acessíveis diferentes filmes, e a dificuldade do espectador saber qual aplicativo deverá ser utilizado para determinada produção.
"A quantidade de aplicativos que estão surgindo no Brasil por conta da legislação deixa o usuário um pouco sem saber qual é o aplicativo que vai usar para determinado filme. Acho que seria uma grande ajuda se os exibidores pudessem também compartilhar de uma forma mais acessível, de repente na bilheteria física, qual é o aplicativo do filme. A quantidade de aplicativos é algo que realmente está se tornando mais um obstáculo", pontuou Schmoi.
Uma possível solução apontada por Marcella Fazzio seria uma espécie de agregador de aplicativos, mas ela novamente destacou a defasagem na comunicação como um fator que dificulta ainda mais o público saber exatamente qual o aplicativo deve ser utilizado em cada sessão.
"Muitos aplicativos disponíveis é ótimo para o mercado porque o distribuidor e o produtor conseguem escolher aquele aplicativo que melhor se enquadra dentro da sua estratégia, mas para a pessoa com deficiência não é muito bom. Se a comunicação para as pessoas com deficiência já é difícil, imagina para ela tentar achar qual é o aplicativo que atende determinado filme que ela quer assistir. É uma questão que está posta e precisamos pensar em saídas e soluções. Um agregador poderia ser uma possibilidade, mas seria necessário discutir os meios de fazer isso acontecer. Acho que antes de um agregador, precisamos trabalhar mais em uma comunicação clara e direta sobre como a pessoa com deficiência vai achar o aplicativo e o recurso daquele filme que ela quer assistir", finalizou.
Quem faz a acessibilidade acontecer nos cinemas brasileiros?
- - MAV
A MAV é uma empresa global que tem sede no Brasil e trabalha com serviços de localização e acessibilidade que atendem todo o ecossistema audiovisual, desde produtoras que fazem publicidade, séries, TV e filmes, passando por redes de televisão e cinema. A MAV também se coloca no mercado como uma empresa de tecnologias assistivas e hoje trabalha com o MLOAD, que é um dos aplicativos de acessibilidade para cinema e outras telas.
Além disso, a MAV também possui o VocLoad, que inclusive foi a tecnologia utilizada na Expocine 2025 para legendas e tradução ao vivo com reconhecimento de voz.
A MAV também se coloca à disposição dos exibidores para entender formas de simplificar processos, inclusive na comunicação, e auxiliar no treinamento das equipes.
- - GRETA
A GRETA é uma empresa especializada em soluções de acessibilidade e foi responsável pelo primeiro aplicativo de acessibilidade no cinema há mais de dez anos. É um aplicativo alemão e hoje, além do Brasil, a GRETA atua em países como Alemanha, Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Itália, França, Suécia, Índia, Portugal, Israel e Estados Unidos.
A empresa trabalha com legendas descritivas, línguas de sinais, audiodescrição e amplificação sonora. Também oferece opções de colocar outras dublagens nos filmes e legendas em outros idiomas.
A empresa também trabalha com assessoria para exibidores e destaca que seu aplicativo possui uma sessão de feedback para cada filme em que o recurso de acessibilidade é utilizado, mantendo um contato direto com o público alvo para possíveis melhorias.
- - MovieReading
O MovieReading é uma tecnologia utilizada para disponibilizar recursos de acessibilidade como audiodescrição, libras e legendas descritivas. O aplicativo também disponibiliza legendas multi-idiomas e funciona por reconhecimento de áudio, permitindo autonomia ao público com deficiência.
Hoje, além do Brasil, atua em cerca de 10 países como Itália, Ucrânia, Dinamarca, França, Noruega, Finlândia e Índia, que aprovou uma lei de acessibilidade para os cinemas em 2025.
Também possui uma plataforma chamada Cine Acessível onde são divulgadas informações dos cartazes dos filmes, sinopses, horários e cinemas em que determinado filme está disponível. Por fim, a empresa oferece um serviço de consultoria e treinamento para equipes de cinemas, com uma sensibilização com os colaboradores do cinema para que possam atender esse público e levar todas as informações necessárias para uma boa experiência.
- - PingPlay
O PingPlay é muito mais que um aplicativo, é uma solução estratégica 100% brasileira desenvolvida pela ETC Filmes. Carrega o DNA de uma empresa com mais de 20 anos de tradição, reconhecida por ser pioneira na implementação de diversas tecnologias e atuante em todos os segmentos do audiovisual — do cinema à internet.
Sua sólida bagagem histórica permite que o PingPlay entregue diferenciais únicos.
À frente do tempo, apresentará em breve ao mercado novidades inovadoras na forma de se consumir acessibilidade, elevando a experiência do usuário em algo nunca antes visto. Com o PingPlay, a inclusão deixa de ser apenas uma norma para se tornar um diferencial de mercado de alto impacto.
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