13 Fevereiro 2026 | Yuri Codogno
Secretária da Cultura do Estado de SP, Marilia Marton destaca evolução do audiovisual paulista: "A régua subiu"
Portal Exibidor conversou com a representante sobre o passado, presente e futuro da gestão
A Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado de São Paulo realizou, nos últimos quatro anos, durante a gestão Tarcísio de Freitas (RP), importantes medidas para diversificar o setor cultural no território estadual, como parcerias público-privadas, a criação de uma Film Commission Estadual e fomento ao mercado. Em seu último ano do atual mandato, conversamos com a secretária da pasta, Marilia Marton, sobre o balanço do período, as ações recentes e também em relação à aprovação do Plano de Desenvolvimento do Audiovisual Paulista.
Na última terça-feira (10), o Portal Exibidor foi até a Sala São Paulo, sede da Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado de São Paulo, para conversar com Marilia Marton. A entrevista pode ser lida na íntegra ao final da reportagem.
Durante o primeiro ano da atual gestão, em novembro de 2023, a gestora conversou com o Portal Exibidor para falar da expectativa da pasta para os anos seguintes. Desde então, algumas importantes medidas foram efetivadas, ampliando o alcance do braço cultural do estado.
“Se olharmos sobre o aspecto do audiovisual, 2023 foi um ano muito atípico para nós, porque em 2023 tinha a Lei Paulo Gustavo e com isso tivemos que mergulhar no setor. Foi um ano que conversamos muito sobre o audiovisual e estivemos muito próximos do setor, no sentido de entender quais eram as aflições, as demandas pós-pandemia, o que estava engavetando, quais eram as maiores dificuldades, independentemente da pandemia, mas ao longo do tempo fomos mapeando tudo isso”, destaca a titular da pasta.
Naquele momento, o setor ainda sangrava bastante pelo baque da pandemia, com atividades paralisadas (ou em início de retomada), além de uma diminuição de profissionais que abastecem toda a cadeia audiovisual. Foi a partir das demandas ouvidas do setor que a Secretaria de Cultura desenhou a estrutura que seria a ordem vigente para os próximos anos, mas com o objetivo primário de ajudar a dar partida no segmento. Como resultado, projetos engavetados foram para frente, e foi possível afunilar mais as demandas, entendendo as dores do momento e o que precisava ser feito nos anos seguintes.
“Quando vimos que começou a dar certo, e que realmente estimulou o mercado e despertou o interesse daqueles produtores, resolvemos pensar como que poderíamos construir isso ainda em começo de 2024, não pensando tanto num plano - o plano vem já na maturidade de 2025. Mas em 2024 pensando onde poderíamos de fato atacar, no sentido de fortalecer o ecossistema do audiovisual. E aí, já com o CultSP Pro [escola de profissionalização do setor dentro de São Paulo] lançado, começamos então a trabalhar em trilhas formativas para esses para essas produções. A partir, inclusive, da demanda da própria produção”, explica Marton.
Na prática, a ideia, no que tange à formação, foi ouvir das produtoras quais tipos de profissionais estavam em falta, construindo, a partir disso, uma política de formação voltada especificamente para o mercado.
Outra medida que faz parte do plano é a Film Commission Estadual, que atualmente já conta com 57 cidades vinculadas: Águas da Prata, Agudos, Amparo, Areias, Atibaia, Bananal, Bauru, Boituva, Bom Jesus dos Perdões, Botucatu, Bragança Paulista, Campina de Monte Alegre, Campos do Jordão, Cananéia, Caraguatatuba, Eldorado, Espírito Santo do Pinhal, Guaratinguetá, Guarujá, Hortolândia, Iguape, Ilhabela, Indaiatuba, Iporanga, Itapetininga, Itu, Jacupiranga, Jaguariúna, Joanópolis, Lençóis Paulista, Limeira, Lorena, Monte Alegre do Sul, Nazaré Paulista, Paranapiacaba, Peruíbe, Piracaia, Piracicaba, Porto Feliz, Ribeirão Pires, Ribeirão Preto, Santa Rita do Passa Quatro, Santo Antônio do Pinhal, Santos, São Bento do Sapucaí, São João da Boa Vista, São José do Barreiro, São José do Rio Pardo, São José dos Campos, São Miguel Arcanjo, São Pedro, São Sebastião, Serra Negra, Sete Barras, Taubaté, Valinhos e Vinhedo.
Cada Film Commission municipal tem uma série de regramentos que precisam ser regulamentados no âmbito do município, como alvarás e autorizações. A Film Commission do Estado, por sua vez, se dedica a preparar aquele município para toda a parte legislativa e, obviamente, através do Estado, disponibilizar esse município para as produtoras.
“Na verdade, criamos uma teia, uma rede de cidades que tenham legislações, que tenham as suas fotografias mapeadas, então são os cenários, como casarões, igrejas, ruas, vias. O produtor diz ‘quero gravar nesse, nesse, naquele e naquele’. Entramos em contato, e cada município já sabe qual é o procedimento que vai tomar. É uma junção entre a força do Estado de apresentar essas cidades, e negociar essas cidades. Lembrando que tem uma equipe que fala com esses produtores - tanto paulistas, quanto internacionais - e a partir disso ofertamos a cidade. É entre o que a cidade vai ter que fazer, obviamente, porque precisa ter as legislações locais de segurança, e aquilo que a lei orgânica do município exige”, explana a secretária.
O material apresentado às produtoras, vale destacar, aponta não apenas para as cidades e pontos-chave de locação, como também está disponível em espanhol e em inglês, buscando atrair o investimento estrangeiro para São Paulo.
“Esse material fala de cada uma dessas cidades, que recebem a turma da Film Commission e prepara para fazer as legislações necessárias de adaptação. Ter esse interlocutor preparado para receber uma ligação de um produtor e saber o que faz, mas a própria Film Commission do Estado também recebe essa ligação, também conecta àquela cidade. Essa equipe olha essa lei orgânica, constrói as legislações para aquela adaptação daquele município, entrega e o prefeito apresenta na Câmara Municipal. Então a cidade fica apta a receber a partir daquela legislação, que facilita, fica uma única pessoa que vai tratar de tudo num único documento”, diz Marilia Marton.
O movimento vem se mostrando atrativo para as produtoras, segundo a Secretaria. Parte disso se justifica pelo fato de que filmar no interior pode ser substancialmente mais barato do que na capital ou nas cidades mais movimentadas. A explicação pela diminuição dos preços está no custo de produção, visto que viabiliza gravações diurnas, facilita a logística de infraestrutura e de mobilidade (como fechar ruas), entre outras ações. Vale ressaltar que o preço de cada profissional é igual na capital ou em outra cidade, e que a economia se dá, entre diversas questões, pelas razões citadas.
Importante citar que a transparência entre governos estadual e municipais é de suma importância para o funcionamento da comissão, visto que é preciso considerar que nem sempre uma cidade terá interesse em participar da rede, como lembra Marilia: “Todas as reuniões que vou com prefeitos, explicamos sobre isso. ‘Olha, tem que ser um pacto. Tem que estar todo mundo pactuado. Tem que chamar o cara do bombeiro, nós vamos começar a fazer isso, quer fazer isso. Os vereadores têm que saber. A cidade tem que querer receber’. Falamos tudo isso para os prefeitos, tem essa obrigação do Estado de orientar todos os aspectos, administrativo, jurídico”.
Aliás, tais medidas, como formação, fomento e as Film Commission, pertencem ao Plano de Desenvolvimento do Audiovisual Paulista, anunciado em fevereiro do ano passado. Hoje o plano está estruturado e entrou em fase final, para então ser apresentado e posteriormente aprovado. Um dos focos de 2026, aliás, é a aprovação do plano, que é estruturado para dez anos, com cinco anos para sua primeira revisão - segundo a legislação, os planos são geralmente de dez anos com uma revisão no meio.
“Agora começaremos a desenhar esse grande mapa de ações daquilo que foi feito e deu certo. E é importante aprendermos - uma coisa que não faz na política pública - é escrever sobre as lições aprendidas, então aquilo que fez e não foi tão bom assim (...). Entre erros e acertos, acertamos mais do que erramos. O cinema paulista cresceu”, conta Marilia.
A atual gestão também é marcada por fortes parcerias entre os setores público e privado, como a recém anunciada união com a Amazon/MGM, entre outras. Para isso, não é realizado nenhum tipo de curadoria, visto que é também objetivo da Secretaria que mais empresas ofereçam, dessa forma, serviços e conhecimentos para a população paulista. Inclusive, a ideia é sempre dar um retorno às empresas o quanto antes, evitando entrar num ciclo vicioso de protocolos - embora sempre respeitando as regras administrativas.
“Para nós é uma obrigação, porque no final das contas, se vou para uma cidade para formar para um projeto específico, significa que quem estou formando vai estar empregado. Quem estou formando verá o objetivo daquilo que estamos fazendo. Com relação às grandes empresas, oferto para todas. A Quanta, Formata, Amazon, Google. Quer fazer negócio com a Secretaria? Vamos encaixar da melhor forma. Estamos abertos a todas as empresas”, diz a secretária.
REAÇÃO DO MERCADO E EXPECTATIVAS FUTURAS
Dentro dos últimos três anos, após tirar do papel as ideias e transformá-las em ação, a secretária observa um mercado mais pungente, reagindo às mudanças e ocasionando em produções com melhores narrativas, tecnologias mais avançadas e com possibilidades comerciais mais elevadas: “Sinto que o mercado audiovisual está muito empolgado, mesmo quando não ganham [editais], que fica a frustração do não ganhar, mas percebe que entendem que hoje lutam com os melhores projetos. O que aconteceu? A régua subiu”.
Na primeira conversa com a secretária, em novembro de 2023, a gestora ponderou sobre uma importante lição: “Governo passa, mas política de Estado fica”. Questionada sobre o que espera sobre sua herança para uma próxima gestão, seja com ela ou outra pessoa à frente, mudando ou permanecendo o governo vigente, Marilia Marton diz que deixa um legado de escuta.
“Conseguimos fazer uma política de muito diálogo. Então, hoje, as políticas públicas da Secretaria são construídas a partir do próprio setor. Tentamos ao máximo não ideologizar, não politizar, e olhar para a política pública cultural como um lugar de transformação, de economia e de indústria, que é o nome da Secretaria. A minha expectativa é que quem vier pode mudar nomes, fazer escola X ao invés da Y - porque todo mundo quer dar um pouco da sua cara, e tem a circunstância do momento -, mas que não perdesse essa identidade, de que esse lugar não pertence a quem está sentado, mas pertence a um conjunto de 2,5 milhões de profissionais que trabalham no Estado de São Paulo. Esse é o grande legado que deixamos, o legado dessa escuta. Acho que a Secretaria conseguiu construir uma coisa que foi se desvincular. Foi realmente trazer para os profissionais, aqueles que trabalham na cultura, que se desenvolvem e sustentam sua família na cultura, a oportunidade de trabalhar com qualificação, sem pressão político-partidária. Acho que esse é o maior legado que a Secretaria fez. E não fui eu. Foi o conjunto do momento e foram várias pessoas ao mesmo tempo construindo isso”, finalizou.
CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA
Conversamos no início do mandato, ainda em novembro de 2023. Então a primeira pergunta é: como você avalia o seu mandato até então?
Bom, se olharmos sobre o aspecto do audiovisual, 2023 foi um ano muito atípico para nós, porque em 2023 tinha a Lei Paulo Gustavo e com isso tivemos que mergulhar no setor. E falando não só do cinema, mas também dos outros segmentos correlatos, como games, etc. E foi um ano que conversamos muito sobre o audiovisual e estivemos muito próximos do setor, no sentido de entender quais eram as aflições, as demandas pós-pandemia, o que estava engavetando, quais eram as maiores dificuldades, independentemente da pandemia, mas ao longo do tempo. Fomos mapeando tudo isso.
Porque quando finaliza 2023, tínhamos uma fotografia daquilo que era o setor naquele momento, em frangalhos. Porque tinha acabado a pandemia, todo mundo tinha parado um pouco o seu trabalho, as pessoas tinham se desmobilizado, as pessoas tinham largado a profissão, uma série de coisas.
E aí desenhamos uma estrutura de como a Secretaria poderia colaborar nessa retomada para além da Paulo Gustavo, porque a Paulo Gustavo foi um único dinheiro, uma única vez. Então, já na Paulo Gustavo teve alguns sucessos com relação à forma de como resolvemos desenhar a política naquele momento, sem pensar muito no futuro, mas como o que queríamos para aquele momento a partir da demanda.
Então, foi um valor representativo de prêmio, que foi muito criticado na época, mas dizendo que era para realmente retomar os projetos que estavam parados, aqueles que estavam engavetados há anos. Começamos a colher esses resultados agora.
Foi um prêmio naquele momento de R$ 6 milhões, foram quase 20 filmes premiados, filmes como “Chico Bento”, que acelerou a sua estreia por conta do recurso da Paulo Gustavo, porque foi o que permitiu correr com a produção. Todo mundo aqui sabe… mas os recursos chegam e tem as suas frações, a pré-produção, produção, pós-produção, lançamento, distribuição. É que poucas pessoas sabem quantas fases um filme tem até chegar no público, na tela. Então, como colaboramos com isso? Então, fomos numa pegada de entender, inclusive essas fases, porque também não era uma coisa que tinha muita clareza para a própria Secretaria, de como que é essa construção do filme.
E não é muito diferente em nenhuma das outras áreas. Os games também têm a mesma pegada, de pré-produção, produção, todos têm a mesma formatação. Claro que o produto final é outro, mas a mesma formatação. E aí quando vimos viu que começou a dar certo, e que realmente estimulou o mercado e despertou o interesse daqueles produtores que estavam muito desiludidos, que entendiam que tinham sido abandonados - de uma certa forma na política pública -, resolvemos pensar como que poderíamos construir isso ainda em começo de 2024, não pensando tanto num plano - o plano vem já na maturidade de 2025. Mas em 2024 pensando onde poderíamos de fato atacar, no sentido de fortalecer o ecossistema do audiovisual.
E aí, quando você pega 2024, já com o CultSP Pro lançado, como escola dedicada ao audiovisual, começamos então a trabalhar em trilhas formativas para esses para essas produções. A partir, inclusive, da demanda da própria produção.
Por exemplo: desde 2024, começamos a trabalhar em parceria com as produtoras. Então, as produtoras vêm e falam: ‘Olha, vou fazer um filme assim e preciso de x tipos de profissionais’. Então, construímos uma política de formação voltada especificamente para o mercado, dizendo que esse mercado pode contar conosco que ele terá mão de obra para trabalhar.
Por quê? Porque, obviamente, quando teve a pandemia, muita gente desistiu, muita gente foi embora, perdemos muitas pessoas. Então, voltamos a retomar isso. Junto com isso, começamos a entender que tem um outro mercado, que são as cidades fora do eixo da capital, que têm uma concentração, mas como essas cidades também podem se preparar para receber essas filmagens? Porque grande parte dessa dificuldade de mão de obra está muito no interior.
E aí, no final das contas, no interior ‘é um pouco mais fácil de gravar’, porque você tem uma facilidade de infraestrutura e de mobilidade… aqui em São Paulo para fechar uma rua não é uma coisa simples, numa cidade no interior você consegue fazer um desvio. Então, quando junta um olhar de que podemos pegar um pouco dessa produção e levar para o interior, começamos a pensar o que seria a Film Commission estadual.
Então, vai tendo uma sequência de ações da Secretaria, e aqui não é a secretária, mas o conjunto de pessoas que pensam a política pública a partir, inclusive, do próprio MIS, que é um braço da Secretaria, mas também conversando com o setor, chamando os produtores para conversar, vários produtores que ligamos, perguntamos, vamos para feiras internacionais, nos reunimos com eles. E um pouco que vai ouvindo de cada um, um pouco que vamos costurando, aí entendemos que é a necessidade de criar realmente algo um pouco mais sistêmico.
E o plano chega em 2025 como uma necessidade de organizar essas várias ações que a Secretaria foi tendo, de internacionalização, de promoção, de distribuição, de novos filmes, de roteiro. Porque também fomos nos dedicando um pouco mais na construção desse roteiro. Tivemos agora o lançamento do escritório da Netflix no Brasil e o CEO da Netflix disse o que eles esperavam do Brasil: “Não esperamos do Brasil ideias. Ideia todo mundo dá. Esperamos do Brasil histórias”.
A construção de histórias para o universo audiovisual são inúmeras, para filme é um jeito, para série é outro. E quem está formando esse profissional preparado para essa escrita? Então também fomos se preocupando um pouco. Mesmo as linhas dos editais hoje que olham para o roteiro, e a partir do roteiro sendo analisado por produtores, é justamente porque estamos tentando caçar histórias que possam realmente virar filmes. Então é um pouco esse lugar que nos encontramos hoje.
Claro, hoje o plano está estruturado. Ele chegou a 120 páginas, até brinquei que ‘precisamos agora sentar e dar uma compilada’ para que, agora, sentar com o setor e apresentar a estratégia desse grande plano, que vai, além das políticas que estamos fazendo, olhar para essas políticas do futuro e de qual rumo que o Estado de São Paulo quer dar.
Então o Plano de Desenvolvimento do Audiovisual Paulista é o foco deste ano?
O foco deste ano é aprovar esse plano. Obviamente tenho uma série de coisas que tenho que fazer, como ir até o chefe, apresentar para ele. Estamos falando de um plano que vai ter dez anos, com cinco anos para sua primeira revisão. Porque os planos são geralmente de dez anos com uma revisão no meio, assim que a legislação manda. Então quais são as metas que vamos alcançar nesses dez anos? Quais são as primeiras revisões de meta do primeiro ano? Quais são os novos programas que vamos incrementar?
Cash Rebate é uma coisa que vale para o Estado de São Paulo? Estamos analisando isso. Numa filmagem, numa produção, não tem recolhimento de ICMS. Faz sentido para o Estado ter um cash rebate, ou faz sentido para o Estado ter outra coisa? Começamos a fazer esses editais em coprodução internacional. Isso é algo que tem chamado muita atenção do mundo. Será que precisamos de mais recursos? Precisamos discutir isso dentro internamente do Governo. Agora começaremos a desenhar esse grande mapa de ações daquilo que foi feito e deu certo. E é importante aprendermos a fazer - uma coisa que não faz na política pública - é também escrever sobre as lições aprendidas, então aquilo que fez que não foi tão bom assim. E tudo bem, não tem compromisso com erro; temos compromisso com o acerto. Quando erramos tentamos consertar o rumo… se não for essa estratégia, é outra estratégia e vamos desenhar outra estratégia.
Então, entre erros e acertos, acertamos mais do que erramos. O cinema paulista cresceu. Começamos a ver, a partir da decisão do ano de 2024 e indo para o terceiro ano em 2026, em que ainda vamos lançar os editais, de direcionar parte do recurso para o interior. Dando certo, inclusive, produções que às vezes nem têm dinheiro do Estado indo para o interior, porque estão conseguindo enxergar naquelas regiões estrutura mais barata do que São Paulo, mais barata no sentido de que não preciso filmar de madrugada, por exemplo, porque isso tem um outro valor. Não necessariamente mais barato porque pago pior as pessoas, o valor do profissional é o mesmo porque o profissional está aqui no nosso território, ele cobra o mesmo. Mas quando for fazer uma gravação na madrugada na capital, claro que o preço das pessoas é outro, tem adicional noturno. Se está numa cidade menor e consegue se organizar, eventualmente grava de dia. Se vou gravar à noite uma cena de dia, tenho que pôr holofote, mas se estou gravando de dia, é mais barato, porque não preciso contratar holofote para poder fazer. Para quem já viu gravação de madrugada que simula de dia, é uma quantidade de holofote enorme, que parece que está de dia mesmo. Então, quando digo que é mais barato, não é que estou pagando menos o profissional, mas estou tendo um custo de produção menor. Então, isso é uma coisa que começou a atrair os olhos das pessoas e aí as pessoas começam a ter o entendimento de o que o interior paulista consegue te ofertar.
Isso vai bastante de encontro com o que você falou em nossa conversa anterior, que transformar o estado de São Paulo em um set de filmagem era uma das prioridades.
E era uma prioridade do governador, porque ele, por exemplo, falou isso numa reunião em Nova York: ‘o estado de São Paulo pode ser um grande cenário’. Então ele mesmo tinha essa expectativa de que São Paulo poderia se tornar uma grande cena ofertada para o mercado nacional e internacional como um espaço de filmagem, em que incrementa a receita do município e profissionaliza as pessoas naquela região.
Ribeirão Preto, por exemplo, uma Film Commission que é nova, já está filmando filme internacional e não tem nada a ver com o dinheiro do Estado. Sempre acho que poderíamos ter feito mais, mas no tempo que teve, na força em que conseguimos unir o setor, acho que não só a Secretaria entregou, mas o próprio mercado se reconheceu nesse lugar e começou a entregar mais.
E como tem sido a reação do mercado diante dessas mudanças?
Sinto que o mercado audiovisual - e estou falando do mercado amplo -, sinto que todos estão muito empolgados, mesmo quando elas não ganham [editais], que fica a frustração do não ganhar, mas percebe que entendem que hoje lutam com os melhores projetos. O que aconteceu? A régua subiu.
Então hoje tem mais produções com melhores narrativas. Tem produções com tecnologias melhores. Com uma possibilidade comercial muito alta e as pessoas empolgadas para fazerem esse tipo de filme. E aqui não há nenhum preconceito com nenhum tipo de filme. Temos visto o DocDrama… porque o documentário por si só é ótimo, fazemos muito bem, mas antes focava muito nisso e precisamos diversificar esse mercado. Mas todo mundo ia concorrer [pelos mesmo editais de documentário].
Então, começou a ter DocDrama, que é algo inovador, temos visto filme de terror, que tinha acabado no Brasil, voltando, vimos romance voltando, ação. A impressão que tenho é que o público não está acostumado a ver filmes nacionais nessas outras linguagens. Então precisamos também começar a trabalhar esse tipo de filme para que ele também entre na sala de cinema.
Quase que como uma formação de público especificado…
- Então parece que estamos fadados a fazer só aquilo. De modo geral, entendo que o mercado começou a se enxergar um pouco mais valorizado, porque foi ouvido. E aí é um mérito do Governo de ouvir. Temos várias pessoas aqui que fazem essa interlocução em vários lugares, não só na Secretaria da Cultura, secretários de outras pastas… significa que as pessoas estão conversando sobre.
Quando fomos para o primeiro festival, Cannes em 2023, depois em Berlim em 2024, já sentimos diferença da presença do Brasil, com mais filmes paulistas concorrendo. Então, isso tudo significa que realmente ajudamos a impulsionar. É só o Estado? Claro que não, mas é essa energia em que, entre entidade pública e o privado, entendeu que se não dermos a mão e for todo mundo junto, não vai dar certo.
Ainda sobre a Film Comission Estadual, como funciona mais exatamente para os municípios? Ela ajuda a criar uma Film Commission municipal?
Na verdade, é. Porque na Film Commission tem uma série de regramentos municipais que precisam ser regulamentados no âmbito do município. Por exemplo, alvará. Em tese, tem que pedir o alvará do do bombeiro, aí depois pede o alvará de não sei o quê, depois pede autorização daqui… E o que é a Film Commission do Estado? Criamos, dentro do MIS, um grupo que se dedica a preparar aquele município para toda a parte legislativa e, obviamente, através do Estado, levamos esse município para as feiras internacionais.
E preparamos esse material, feito em espanhol e em inglês. Esse material fala de cada uma dessas cidades, que recebem a turma da Film Commission e prepara para fazer as legislações necessárias de adaptação. Ter esse interlocutor preparado para receber uma ligação de um produtor e saber o que faz, mas a própria Film Commission do Estado também recebe essa ligação, então também conecta àquela cidade.
Na verdade, criamos uma teia, uma rede de cidades que tenham legislações, que tenham as suas fotografias mapeadas, então são os cenários, como casarões, igrejas, ruas, vias. E o produtor diz: "Quero gravar nesse, nesse, naquele e naquele". Entramos em contato, e cada município já sabe qual é o procedimento que vai tomar. Então, é uma junção entre a força do Estado de apresentar essas cidades, e negociar essas cidades. Lembrando que tem uma equipe que fala com esses produtores - tanto paulistas, quanto internacionais - e a partir disso ofertamos a cidade. Então, é entre aquilo que a cidade vai ter que fazer, obviamente, porque ela precisa ter as legislações locais de segurança, aquilo que a lei orgânica do município exige.
Essa equipe olha essa lei orgânica, constrói as legislações para aquela adaptação daquele município, entrega e o prefeito apresenta na Câmara Municipal. Então a cidade fica apta a receber a partir daquela legislação, que facilita, fica uma única pessoa que vai tratar de tudo num único documento.
Por outro lado, eventualmente, alguns municípios que queiram dar desconto do ISS [para a produção], em vez de 5%, ser 2%. Enfim, essas coisas são todas negociadas, sabemos que cada prefeitura tem a sua Câmara Municipal, para cada uma dessas vamos orientando. Então, na verdade, é uma Film Commission Municipal integrada a uma estratégia de Film Commission Estadual.
Se tiver alguma dificuldade, a equipe vai até lá. Brinco que quando vamos lidar com uma gravação, ela pode ter intercorrências e pode mudar, no dia, dependendo do humor do cineasta, inclusive. Vou fazer uma filmagem de carro? Aí agora resolvi por quatro pessoas dentro do carro, mas não estava combinado isso com a polícia. Então, como é que você lida com esse tipo de coisa? É uma delícia para os prefeitos receberem, porque realmente o orçamento da prefeitura sobe, claro, todo mundo comendo na cidade, todo mundo se hospedando na cidade. E contratando gente na cidade, a cidade vira uma festa, né? Mas tem os perrengues, os perrengues chiques, então gosto de avisar os prefeitos.
Todas as reuniões que vou com prefeitos, que eles falam sobre a função pública, explicamos sobre isso. ‘Olha, tem que ser um pacto. Tem que estar todo mundo pactuado. Tem que chamar o cara do bombeiro, nós vamos começar a fazer isso, quer fazer isso. Os vereadores tem que saber. A cidade tem que querer receber’. Então, por exemplo, tem cidade que abraça, tem cidade que se diverte. Mas pode ser que a cidade não se interesse pelo perfil da cidade. Essa gentileza da cidade receber faz muita diferença. Então falamos tudo isso para os prefeitos, têm essa obrigação do Estado de orientar os prefeitos em todos os aspectos, administrativo, jurídico.
Outro ponto que queria abordar é sobre as parcerias entre o público e o privado. Em sua gestão, houve muitas parcerias, como com Amazon/MGM e o Sebrae, além de inúmeras outras. Como é feita essa espécie de “curadoria” para escolher as empresas para as parcerias?
Não faço curadoria, todo mundo que me liga é muito bem-vindo, todas as empresas que vem, mesmo as produtoras. Para nós é uma obrigação, porque no final das contas, se vou para uma cidade para formar para um projeto específico, significa que quem estou formando vai estar empregado. Quem estou formando verá o objetivo daquilo que estamos fazendo. Não só na área do cinema, mas entretenimento, turismo, aqui se faz do jeito que o cliente quiser.
Com relação às grandes empresas, oferto para todas. A Quanta, Formata, Amazon, Google que já tivemos em games. Quer fazer negócio com a Secretaria? Vamos encaixar da melhor forma. O que é legal nesses aspectos? Que junto a expertise com a vontade de comer, porque aqui tem a vontade de fazer acontecer. Quando tenho uma Amazon/MGM que tem grandes profissionais que estão dispostos a sentar e dar masterclass para falar sobre mercado, para explicar… tenho um público que anseia por isso, não tenho a menor dúvida que podemos fazer essa junção. Estamos aberto a todas as empresas.
Toda vez que recebo aqui uma ligação, às vezes atendo na hora, porque a velocidade do Governo não é a mesma que gostaríamos. Então, se fico ‘tem que passar, tem que protocolar, tem que não sei o que, pede uma reunião daqui um mês’, aí esquece, não vai acontecer. Então, temos feito de uma forma dinâmica e dentro, obviamente, do que é mais conveniente para a administração, dentro das regras administrativas, mas obviamente olhando para o resultado daquilo que aquele programa que está sendo ofertado vai acontecer.
Para fechar, em nosso último encontro, você ressaltou que “governo passa, mas política de Estado fica”. Qual que você gostaria que fosse sua herança, pensando em política de Estado, independente do próximo governo, de ser você ou outro secretário ou secretária?
Conseguimos fazer uma política de muito diálogo. Então, hoje, as políticas públicas da Secretaria são construídas a partir do próprio setor. Tentamos ao máximo não ideologizar, não politizar, e olhar para a política pública cultural como um lugar de transformação, de economia e de indústria, que é o nome da Secretaria. A minha expectativa é que quem vier pode mudar nomes, fazer escola X ao invés da Y - porque todo mundo quer dar um pouco da sua cara, e tem a circunstância do momento -, mas que não perdesse essa identidade, de que esse lugar não pertence a quem está sentado, mas pertence a um conjunto de 2,5 milhões de profissionais que trabalham no Estado de São Paulo. Esse é o grande legado que deixamos, o legado dessa escuta.
Mas acho que a Secretaria conseguiu construir uma coisa que foi se desvincular. Foi realmente trazer para os profissionais, aqueles que trabalham na cultura, que se desenvolvem e sustentam sua família na cultura, a oportunidade de trabalhar com qualificação, sem pressão político-partidária. Acho que esse é o maior legado que a Secretaria fez. E não fui eu. Foi o conjunto do momento e foram várias pessoas ao mesmo tempo construindo isso.
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