Pesquisa sobre indústria de animação brasileira mostra consolidação da "pejotização" e desafios na retenção de talentos
Globalização e possibilidade de trabalho remoto atraem profissionais para mercados de moeda mais forte
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(Foto: Divulgação)
Um grande estudo sobre estúdios de animação no Brasil, apresentado com exclusividade nesta quarta-feira (11) ao Portal Exibidor, revelou que grandes transformações nas condições de trabalho e na gestão de pessoas do setor aconteceram ao longo dos últimos 13 anos. Conduzido pelas pesquisadoras Marta Machado e Adriana Pinto, o material identificou que, atualmente, o ambiente consolidou a contratação de profissionais via pessoa jurídica, fenômeno frequentemente chamado de “pejotização”. Além disso, hoje os estúdios nacionais enfrentam dificuldades crescentes para reter profissionais qualificados devido à força de moedas estrangeiras.
A pesquisa comparou entrevistas realizadas em 2012 com novos depoimentos coletados em 2025, identificando a transição de um ambiente marcado por relações informais e colaborativas para um modelo industrial baseado em projetos, com maior profissionalização, mas também maior instabilidade laboral.
Com apoio da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA) e Prefeitura de São Paulo, financiada com recursos da Lei Paulo Gustavo e realizada pelo Ministério da Cultura por meio de edital da Spcine, a pesquisa analisou quatro estúdios de animação localizados em São Paulo e no Rio de Janeiro. Treze anos após o primeiro levantamento, as pesquisadoras retornaram às empresas estudadas para entrevistar novamente gestores e profissionais, buscando identificar continuidades e mudanças nas dinâmicas de trabalho do setor.
Embora a "pejotização" já estivesse presente em 2012, esse foi um dos destaques da nova rodada de entrevistas: ela tornou-se praticamente padrão no setor, impulsionada tanto por limitações econômicas quanto por imposições institucionais. Nesse modelo, equipes são frequentemente montadas e dissolvidas conforme a duração das produções. Assim, os estúdios passam a funcionar como parcerias de caráter temporário e o profissional assume para si os riscos da instabilidade do mercado.
A pesquisa também destaca o impacto da globalização e do trabalho remoto sobre o mercado de animação brasileiro. Com a expansão das produções internacionais e a possibilidade de trabalhar à distância para estúdios estrangeiros, profissionais brasileiros passaram a disputar oportunidades em um mercado cada vez mais globalizado. Muitos desses contratos oferecem remuneração em moeda forte, o que torna o mercado internacional especialmente atraente para profissionais brasileiros, resultando na dificuldade de retenção citada anteriormente.
Esse cenário contribui para uma mudança na forma como os profissionais se relacionam com o setor. Se em 2012 predominava uma percepção de pertencimento a equipes e estúdios específicos, os depoimentos coletados em 2025 indicam uma identidade profissional cada vez mais associada à trajetória individual. Nesse contexto, a construção de portfólio e reputação passou a desempenhar papel central na carreira dos animadores, que frequentemente transitam entre diferentes projetos e empresas ao longo do tempo.
"O antigo ‘sonho de vida’ de construir o estúdio como um projeto coletivo deu lugar a uma visão individualista, onde o animador prioriza seu portfólio e sua carreira global em detrimento do pertencimento institucional. Esse fenômeno desencadeou um mercado de 'parcerias temporárias' que dificulta a manutenção da memória técnica e o aprendizado institucional", destacaram as pesquisadoras.
Outro ponto central identificado pela pesquisa é a tensão entre dois modelos de produção: a criação de propriedade intelectual própria e a prestação de serviços para produções internacionais ou publicitárias. Se no início da década passada a prestação de serviços era frequentemente vista como um estágio intermediário rumo à produção autoral, os dados mais recentes indicam que esse modelo se consolidou como parte estrutural da sustentabilidade financeira do setor.
O estudo também aborda as transformações no processo de formação dos profissionais da área. Em 2012, muitos trabalhadores da animação vinham de áreas correlatas e adquiriam grande parte das habilidades necessárias diretamente no ambiente de trabalho, por meio do aprendizado prático. Desde então, a expansão de cursos universitários e programas de formação em animação ampliou o número de pessoas que ingressam no mercado com formação acadêmica específica. No entanto, a expansão de cursos superiores de animação não eliminou lacunas na formação audiovisual. Segundo os entrevistados, muitos trabalhadores da área dominam ferramentas e técnicas específicas, mas ainda apresentam carências em repertório narrativo e fundamentos criativos.
Diante dessas transformações, o estudo aponta para a necessidade de políticas públicas e estratégias institucionais capazes de fortalecer a sustentabilidade da indústria de animação no país. De acordo com as pesquisadoras, compreender as transformações recentes do setor é fundamental para orientar decisões estratégicas e políticas que permitam consolidar o crescimento da animação brasileira sem aprofundar fragilidades estruturais nas relações de trabalho.
Para ampliar esse debate, no dia 25 de março às 18h, Marta Machado e Adriana Pinto apresentarão no canal do YouTube da Subversiva Studio, um seminário dedicado aos principais achados da pesquisa.