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29 Abril 2026 | Yuri Cavichioli

Longa pioneiro em formato IMAX no Brasil, '2DIE4' traz experiência imersiva

Primeira produção nacional no formato, longa aposta em linguagem híbrida entre ficção e realidade

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(Foto: Tim Oliveira)

A velocidade costuma ser tema recorrente no cinema. Em 2DIE4: 24 Horas no Limite, ela vira linguagem. Concebido para colocar o espectador dentro da mente de um piloto em plena 24 Horas de Le Mans - uma das mais tradicionais corridas automobilísticas do mundo -, o longa transforma imersão em proposta narrativa e faz da experiência de exibição parte central do projeto.

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Distribuído pela O2 Play, o filme da Abdala Brothers chega ao circuito com a chancela de “primeiro longa brasileiro lançado em IMAX”, sustentado por uma combinação pouco usual entre experiência premium, narrativa subjetiva e posicionamento tecnológico que tensiona as fronteiras entre documentário, ficção e cinema experimental.

Além de acompanhar a cabine para exibidores, realizada na última semana no Cinépolis do Shopping JK Iguatemi, o Portal Exibidor entrevistou os diretores André Abdala e Salomão Abdala na sede da O2, em São Paulo (SP). Ao longo da conversa, a dupla tratou de escolhas narrativas, da estratégia de pós-produção e do potencial do projeto para o mercado exibidor.

Definido pelos produtores como um docudrama, 2DIE4: 24 Horas no Limite acompanha Felipe Nasr na disputa de Le Mans a partir de um ponto de vista em primeira pessoa. Embora dialogue com elementos documentais, os diretores enfatizam que o projeto nasceu como filme, e não como documentário. Segundo eles, o ponto de partida foi usar a corrida real como matéria-prima para um objeto cinematográfico, e não um registro factual.

Com 90% de material captado na corrida e 10% de elementos ficcionais estruturados posteriormente na montagem, o enredo foi construído na pós-produção a partir dos eventos reais da prova, incluindo monólogos em narração em off escritos depois das filmagens para costurar a narrativa.

Os diretores também relacionam essa escolha a um movimento mais amplo do cinema contemporâneo, de valorizar autenticidade e registros práticos em vez de soluções artificiais. Levar esse impulso ao limite — filmando uma corrida real com consequências reais — foi parte do que orientou a concepção do projeto, com a proposta menos de se encaixar em um gênero e mais em provocar “uma experiência imersiva”.

Salomão Abdala defende que o formato premium, para o projeto, não funciona apenas como diferencial comercial, mas como selo de rigor técnico. “O filme IMAX é basicamente uma garantia de que o pessoal da pós-produção gasta o dobro ou o triplo do tempo no filme para garantir qualidade nele”, explica. 

E a preocupação com a experiência do público também se estende para além do circuito premium. Segundo os diretores, mesmo com o lançamento em um número restrito de salas IMAX no Brasil, houve calibração específica para salas convencionais, incluindo orientações para projeção e níveis de volume conforme o perfil das salas, buscando preservar a proposta sonora do filme em diferentes formatos de exibição.

Já a duração enxuta do longa, pouco acima de 90 minutos, aparece como decisão narrativa pessoal e também operacional, favorecendo janelas maiores de programação para exibidores.

Sobre referências criativas, os Abdala relativizam influências diretas de F1: Dirigir para Viver, da Netflix, e F1: O Filme (2025), da Apple, embora reconheçam paralelos. As menções passam por As 24 Horas de Le Mans (1971), de Steve McQueen, Grand Prix (1966), Blade Runner - O Caçador de Androides (1982), Dunkirk (2017), Apocalypse Now (1979) e até Tropa de Elite (2007), sobretudo na construção da narração subjetiva. Os diretores também ressaltam que o desenvolvimento do projeto ocorreu paralelamente ao de F1: O Filme, com ambas as produções compartilhando inclusive o ambiente de preparação na Panavision, coincidência que, segundo eles, ajuda a explicar algumas aproximações visuais e dramáticas entre os filmes. 

Para André, o diferencial estava justamente em buscar uma perspectiva inédita do automobilismo. “Nós queríamos trazer uma visão diferente. Achamos que a audiência nunca teve dentro de um cinema a experiência de ver na realidade a autenticidade que é ser uma pessoa como o Felipe, ali num carro a 340 km por hora arriscando a vida”. O diretor também resumiu a proposta como um filme “sem filler, direto ao ponto”.

Essa recusa em seguir modelos consagrados do subgênero de corrida aparece, segundo os diretores, na escolha de permanecer na perspectiva de um único piloto. Em vez de distribuir a narrativa por equipes, boxes e subtramas paralelas, o filme concentra a experiência na visão de Felipe Nasr e no que os diretores definem como uma imersão na sua subjetividade.

Um teste para o premium brasileiro

A dupla enxerga o projeto como potencial precedente para produções nacionais em formatos premium e large premium (LPF). Mais do que um caso isolado, o filme seria um ensaio sobre como o cinema brasileiro pode dialogar com padrões técnicos historicamente associados a grandes estúdios. “Quando você faz uma coisa pela primeira vez, você abre a porta para todos os outros irem agora e quererem fazer também. Você mostra que é possível e que já existe um caminho ali trilhado”, afirma André.

Ao discutir mercado, os diretores vinculam esse movimento a uma ambição maior de reconhecimento internacional para projetos independentes brasileiros. Na avaliação deles, uma boa resposta do mercado doméstico ajuda a sinalizar para players internacionais que há demanda para iniciativas desse porte.

Produzido de forma independente, com equipe reduzida, poucas câmeras e apenas dois dias de captação principal, o filme é apresentado pelos realizadores como prova de conceito de que projetos tecnologicamente ambiciosos também podem surgir fora do eixo tradicional de financiamento. “Todo mundo falou para não fazer, que não dava para fazer e que era impossível. Ter esse filme só existindo já é um milagre”, salienta André.

Os desafios de execução também aparecem como parte central desse argumento. Feito com equipe de apenas oito pessoas — dimensão que, segundo os diretores, em produções convencionais poderia estar concentrada apenas na operação de câmera — o projeto foi viabilizado em escala reduzida e com forte centralização criativa. André Abdala destaca ter liderado a montagem e a pós-produção do longa, experiência que, segundo ele, também ajudou a transformar um projeto improvável em modelo possível para outros realizadores independentes. Parte desse processo, acrescentam os irmãos, vem sendo compartilhado publicamente pelo canal da dupla no YouTube, onde detalham etapas técnicas da produção e da pós.

Os diretores relacionam esse esforço a mercados que operam com forte apoio interno, como China e Índia, onde o público local ajuda a legitimar produções nacionais perante grandes centros decisórios. Ao mirar esse paralelo, 2DIE4 aparece novamente menos como exceção e mais como tentativa de abrir precedente. Os diretores associam o apoio doméstico ao filme a algo estratégico para o posicionamento do cinema brasileiro. Para eles, esse tipo de respaldo pode ampliar espaço para projetos independentes nacionais em circuitos de maior escala. 

Também pesa nessa equação a relação construída com parceiros tecnológicos como IMAX e Panavision, citados pelos diretores como viabilizadores centrais do projeto. Para a dupla, esse respaldo legitima um filme que, por escala, origem e perfil autoral, dificilmente seguiria os caminhos tradicionais da indústria.

Ao fim, o projeto sugere que discussões sobre inovação no cinema brasileiro podem passar não apenas por linguagem ou produção, mas também por pós-produção e modelos de exibição. Num mercado que costuma associar o premium sobretudo a Hollywood, 2DIE4: 24 Horas no Limite tenta se colocar como um raro caso nacional em que essa conversa parte de um projeto independente.

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