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06 Maio 2026 | Gabryella Garcia

“Brasil é um dos melhores lugares para VFX na América Latina hoje”

Em entrevista exclusiva, Sandro Di Segni fala sobre amadurecimento do mercado de efeitos visuais no país

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(Foto: Reprodução)

Em 2026, os efeitos visuais ganham um novo marco de reconhecimento no audiovisual brasileiro: o Prêmio Especial VFX ABC, que nasce como uma articulação conjunta do setor para valorizar a excelência técnica e criativa em VFX e premiar os melhores trabalhos em longa-metragem e série de TV.



Integrada à programação do Prêmio ABC de Cinematografia, criado em 2002 pela Associação Brasileira de Cinematografia, a premiação especial está com votação aberta até o dia 12 de maio. Profissionais do audiovisual podem escolher entre os dez projetos finalistas, por meio da plataforma AVW, sendo cinco na categoria Melhor Efeito Visual em Longa-Metragem e cinco na categoria Melhor Efeito Visual em Série de TV.

A seleção foi realizada por um comitê técnico composto por 35 profissionais de destaque no mercado de efeitos visuais, incluindo representantes de produtoras, estúdios, plataformas e criadores independentes. A curadoria avaliou critérios como complexidade técnica, qualidade de execução, integração dos efeitos visuais à narrativa e a contribuição criativa dos projetos.

O prêmio especial foi idealizado por Marcelo Siqueira e Sandro Di Segni e patrocinado por Casablanca, Conspiração, Dot Cine, Mistika, O2 Pós, Picma Post e Quanta. O resultado será revelado no dia 16 de maio, durante a cerimônia do Prêmio ABC de Cinematografia.

Em entrevista exclusiva ao Portal Exibidor, Di Segni, que é executivo de VFX no Amazon MGM Studios, falou sobre o amadurecimento do mercado de efeitos visuais no Brasil, acesso às novas tecnologias e o futuro do VFX por aqui.

Como surgiu a ideia da criação do Prêmio Especial VFX ABC 2026 e qual a importância desse tipo de reconhecimento para o setor?

A criação do Prêmio Especial VFX ABC 2026 nasce de uma percepção muito clara de que o mercado brasileiro de efeitos visuais amadureceu e passou a ocupar um lugar mais estratégico dentro do audiovisual. Nos últimos anos, os VFX deixaram de ser vistos apenas como uma etapa complementar da pós-produção e passaram a participar de forma mais decisiva da construção criativa, técnica e narrativa de filmes e séries. Ao mesmo tempo, esse crescimento ainda não era acompanhado por um espaço de reconhecimento com critérios realmente aderentes à complexidade da área. Foi a partir desse entendimento que surgiu a articulação entre profissionais e empresas do setor, em diálogo com a Associação Brasileira de Cinematografia, para criar uma iniciativa dedicada especificamente aos efeitos visuais.

A importância de uma premiação como essa está justamente em dar legitimidade técnica ao reconhecimento. Em VFX, não basta olhar apenas para o impacto visual percebido em tela. Existe um processo muito sofisticado por trás desse resultado, que envolve decisões criativas, planejamento, pipeline, integração com outras áreas e soluções técnicas muitas vezes invisíveis ao público. Quando o setor cria um espaço de reconhecimento com esse nível de entendimento, ele valoriza melhor os profissionais, fortalece a cadeia produtiva e ajuda a consolidar parâmetros de excelência para o mercado.

Quais são as principais tecnologias usadas na criação de efeitos visuais hoje? Há um custo muito elevado para os produtores?

Hoje, o universo dos efeitos visuais envolve um conjunto amplo de tecnologias. Entre as principais, podemos falar de computação gráfica 3D, composição digital, simulações, captura de movimento, ferramentas de tracking, softwares de animação, ambientes de produção virtual com painéis de LED, além do uso crescente de inteligência artificial como apoio a determinadas etapas do processo. Estamos vendo também os Gaussian Splats ganharem espaço nos VFX como uma ferramenta importante de digitalização de espaços e de movimento também.

Mas é importante entender que tecnologia, em VFX, não significa necessariamente espetáculo ou gigantismo. Em muitos casos, os efeitos visuais são usados de forma discreta, quase invisível, para ampliar cenário, corrigir elementos, reconstruir época, criar continuidade visual ou aumentar o valor de produção de uma cena. Isso significa que os VFX não estão restritos apenas a grandes blockbusters. Eles podem ser viáveis e úteis em produções de diferentes portes, desde que sejam pensados com inteligência e alinhados à necessidade real do projeto.

O custo varia muito conforme a complexidade da solução. Evidentemente, sequências com grande volume de computação gráfica, ambientes totalmente digitais ou produção virtual exigem investimentos diferentes. Mas há muitos usos de VFX que são perfeitamente compatíveis com produções médias e até mais enxutas. O ponto central não é apenas o orçamento em si, mas a forma como essa ferramenta é incorporada ao projeto. Quando os efeitos visuais entram cedo no planejamento, eles tendem a ser mais eficientes, mais bem integrados e até mais econômicos.

A Produção Virtual com Painéis de LED, apesar de vista como um sinônimo de preço alto, pode ser a forma mais econômica de contar a sua história. Fazemos estudos detalhados de economias geradas após terminar projetos para entender se as decisões tomadas foram corretas e já economizamos muito em projetos que usaram a tecnologia extensivamente. Em uma outra produção de baixo orçamento conseguimos usar Produção Virtual em quase 80% de um filme e a tecnologia fez uma diferença enorme na qualidade do produto oferecido aos nossos clientes.

Como você vê o mercado de efeitos visuais hoje no Brasil? Como estamos em relação a outros países e quais as nossas principais dificuldades atualmente?

O Brasil sempre teve profissionais talentosos, criativos e tecnicamente preparados, mas durante muito tempo esse potencial ficou pulverizado, com menos escala, menos continuidade de projetos e menos estrutura para competir de forma consistente com mercados mais consolidados. Nos últimos anos, isso começou a mudar. O crescimento das produções originais, a presença mais forte das plataformas de streaming e a exigência crescente de qualidade elevaram o nível do setor. Hoje, o Brasil já demonstra capacidade de entregar trabalhos complexos, com mais organização, mais integração entre empresas e uma atuação muito mais profissionalizada. Hoje, o Brasil é um dos melhores lugares para fazer VFX na América Latina e começa a se posicionar de forma mais competitiva também no cenário internacional.

Ao mesmo tempo, ainda existem desafios importantes. Um deles é a escala. Mercados mais consolidados contam com uma continuidade de demanda maior, o que permite manter estruturas mais robustas por mais tempo. Outro desafio é o investimento em tecnologia e desenvolvimento local. O Brasil avançou bastante na aplicação de ferramentas e processos de ponta, mas ainda precisa fortalecer seu ecossistema de inovação, formação especializada e retenção de talentos. Também há uma questão de percepção de valor: muitas vezes, os efeitos visuais ainda são tratados como custo, quando na verdade são parte estratégica da linguagem e da ambição de uma obra.

Um outro fator importante são os mecanismos de atração de produções audiovisuais, como os cash rebates ou tax credits, que fazem com que os mercados sejam mais atrativos para o investimento internacional. O Uruguai e a Colômbia, por exemplo, já têm incentivos audiovisuais a nível federal significativos e, com isso, atraem muitas produções internacionais ao país. No Brasil os incentivos acabam não tendo previsibilidade e não têm um caráter anual, e isso acaba por limitar muito os projetos, em virtude da falta de certeza jurídica.

O mercado de VFX é muito ligado ao setor de tecnologia e, no Brasil, a tecnologia ainda é muito cara por conta de impostos. Seria muito importante conseguir um acesso mais fácil à tecnologia de ponta com um preço competitivo. Nosso maior bem nesse mercado é o know how e fica muito difícil competir num mercado internacional se nossa matéria-prima ainda é mais cara aqui do que no resto do mundo.

E como você enxerga o mercado de efeitos visuais no médio e longo prazo no Brasil?

Vejo um cenário bastante promissor, desde que o setor continue evoluindo em organização, colaboração e investimento. No médio prazo, a tendência é que os efeitos visuais se tornem ainda mais integrados ao processo de criação e produção, deixando de ser uma área acionada apenas em momentos pontuais para atuar desde o desenvolvimento dos projetos. No longo prazo, acredito que o Brasil tem condições reais de se consolidar como um polo relevante de VFX na América Latina e de ampliar sua presença em projetos internacionais. O país já reúne talento artístico, repertório criativo e capacidade técnica. O que pode acelerar esse processo é a combinação entre demanda consistente, reconhecimento do setor, formação de profissionais e adoção de tecnologias que permitam maior escala e competitividade.

Também vejo um futuro em que o Brasil participe de forma mais ativa de modelos colaborativos internacionais, em que diferentes empresas e equipes atuam em rede, contribuindo para grandes projetos globais. Esse tipo de inserção depende de confiança, previsibilidade, qualidade de entrega e estrutura. E o mercado brasileiro tem dado passos importantes nessa direção.

Gostaria de adicionar algo que acha relevante e pertinente sobre efeitos visuais para os cinemas e o mercado brasileiro?

Acho importante reforçar que os efeitos visuais não devem ser vistos apenas como um recurso técnico, mas como uma linguagem que amplia possibilidades narrativas, visuais e produtivas. Eles podem ser invisíveis ou espetaculares, discretos ou centrais para a experiência, mas em todos os casos têm potencial para transformar a forma como uma história é contada.

No caso do cinema, isso é especialmente relevante porque o VFX ajuda a expandir a ambição da obra. Ele permite recriar contextos históricos, construir atmosferas, ampliar locações, viabilizar cenas complexas e entregar ao espectador uma experiência mais rica e mais imersiva. Isso vale tanto para grandes produções quanto para filmes que utilizam os efeitos de forma sutil e inteligente.

Para o mercado brasileiro, o momento é importante porque há uma combinação rara de talento, experiência acumulada e crescimento de demanda. O país já mostrou que pode responder a projetos complexos e se integrar a padrões internacionais de produção. O próximo passo é continuar fortalecendo esse ecossistema, para que os efeitos visuais sejam cada vez mais reconhecidos não como exceção, mas como parte natural da evolução do audiovisual brasileiro.

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