12 Maio 2026 | Yuri Cavichioli
Brasil leva filmes, negócios e novos projetos a Cannes 2026
Festival reúne distribuidoras, coproduções e iniciativas voltadas à circulação internacional
O audiovisual brasileiro chega à 79ª edição do Festival de Cannes, que começa nesta terça-feira (12) e segue até 23 de maio, com participações distribuídas entre a Competição Oficial, mostras paralelas, programas de formação e o Marché du Film, braço de negócios do evento que reúne produtores, distribuidores, agentes de vendas e executivos da indústria audiovisual de diferentes países.
A participação nacional neste ano passa por coproduções internacionais, talentos emergentes, ações institucionais e movimentações comerciais. Há filmes com participação direta de produtoras brasileiras nas seleções oficiais, distribuidoras associadas a títulos internacionais da programação, projetos independentes a serem apresentados a compradores e investidores e programas voltados ao desenvolvimento de novos longas.
Além da visibilidade artística, Cannes é um dos principais pontos de encontro da indústria global de cinema. Enquanto o festival concentra estreias e reconhecimento crítico, o Marché du Film funciona como ambiente de negociação para distribuição, financiamento, coproduções e aquisição de direitos. Para produtoras e distribuidoras brasileiras, estar presente no evento significa acessar parceiros, ampliar relações comerciais e posicionar projetos em escala internacional.
A edição de 2026 acontece após um ciclo recente de destaque para o cinema brasileiro no circuito internacional. Em 2025, O Agente Secreto (Vitrine Filmes), de Kleber Mendonça Filho, venceu os prêmios de direção e atuação masculina em Cannes. Ao longo da história, o país acumulou passagens marcantes com títulos como O Pagador de Promessas, vencedor da Palma de Ouro em 1962, além de cineastas como Glauber Rocha, Walter Salles e Karim Aïnouz.
O longa Paper Tiger representa o principal elo brasileiro na Competição Oficial deste ano. O novo longa de James Gray disputa a Palma de Ouro, com produção da RT Features, de Rodrigo Teixeira, em parceria com Leone Film Group e Keep Your Head Productions. O elenco reúne Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller, com distribuição nacional da Diamond Films.
Com a seleção, a RT Features retorna à principal vitrine competitiva do festival. A produtora brasileira já esteve ligada a títulos como Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019) e Armageddon Time (2022), ambos também dirigidos por James Gray, consolidando sua atuação em produções internacionais de grande alcance comercial.
A trama de Paper Tiger acompanha dois irmãos envolvidos em uma operação criminosa enquanto tentam alcançar o sonho americano. A aquisição do longa pela Neon coloca o filme em posição estratégica para a temporada internacional. A empresa esteve à frente da distribuição de títulos que disputaram o Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional, como O Agente Secreto, Foi Apenas um Acidente, Sirat e Valor Sentimental.
Mostras paralelas
A atuação da RT Features em Cannes não se limita à competição principal. A produtora também foi selecionada para a Quinzena dos Realizadores, mostra paralela independente voltada ao cinema autoral, com La Perra. Dirigido pela chilena Dominga Sotomayor, o longa é uma coprodução da RT com a chilena Planta. Adaptação da obra de Pilar Quintana, traz Selton Mello no elenco ao lado de Manuela Oyarzún. O filme acompanha uma mulher que vive isolada em uma ilha remota no sul do Chile e desenvolve uma relação intensa com uma cachorra resgatada.
A seleção marca o retorno da RT Features à mostra paralela após sete anos. “Participar da prestigiosa Quinzena dos Realizadores é a cereja no bolo de um trabalho encantador desenvolvido com Dominga e Rodrigo. Minha primeira vez em Cannes, coroando um momento muito especial da minha trajetória”, comentou Mello.
Na mostra Un Certain Regard, seção da seleção oficial voltada a propostas autorais e novos realizadores, o Brasil aparece com Elefantes na Névoa. O longa do diretor nepalês Abinash Bikram Shah é uma coprodução entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega. A participação brasileira acontece por meio das produtoras Bubbles Project e Enquadramento Produções. O filme acompanha a líder de uma comunidade Kinnar em um vilarejo no Nepal, que precisa investigar o desaparecimento de uma jovem enquanto lida com conflitos pessoais e coletivos.
A escolha consolida o espaço das coproduções brasileiras em projetos internacionais de perfil autoral. A produção também dialoga com políticas públicas do setor, já que a coprodução foi viabilizada a partir do primeiro edital de coprodução internacional do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual).
Outra participação brasileira em Cannes será na Semana da Crítica, mostra paralela dedicada à descoberta de novos talentos. Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, dirigido pelo mexicano Bruno Santamaría Razo, foi selecionado para a competição oficial da seção. O longa é uma coprodução entre México, Brasil e Dinamarca, com participação da produtora pernambucana Desvia. O filme revisita memórias do diretor ambientadas na Cidade do México dos anos 1990, a partir de experiências familiares e descobertas da infância.
Além da coprodução, o projeto reúne profissionais brasileiros na pós-produção e conta com o ator cearense Demick Lopes no elenco. A seleção mantém a trajetória internacional da Desvia, que já vinha acumulando participações recentes em grandes festivais.
Na La Cinef, mostra oficial dedicada a estudantes de cinema e novos realizadores, o Brasil aparece com Laser-Gato, curta do paulistano Lucas Acher. O filme foi selecionado entre milhares de inscrições de escolas de cinema de diferentes países. A produção acompanha um adolescente atravessando São Paulo durante a madrugada, em uma narrativa que mistura suspense, humor e observação urbana. Sobre a seleção, Acher resumiu o impacto do anúncio: “É estranho, porque é um filme muito íntimo, feito sob constante dúvida, e de repente ele está nesse lugar gigante”.
Mercado de negócios
Além das produções com ligação direta ao Brasil, distribuidoras nacionais também chegam a Cannes com títulos estratégicos em seu calendário de lançamentos. A Diamond Films confirmou a distribuição no Brasil de três filmes selecionados para a edição de 2026: Fjord, Paper Tiger e Victorian Psycho.
Dirigido por Cristian Mungiu, Fjord integra a Competição Oficial. Já Victorian Psycho, de Zachary Wigon, foi selecionado para a mostra Un Certain Regard. Embora não sejam produções brasileiras, a inclusão dos títulos no catálogo da distribuidora mostra como Cannes também influencia a programação comercial do mercado nacional.
No braço de negócios do festival, a atuação institucional brasileira também ganha relevância. O Projeto Paradiso chega à edição de 2026 apoiando filmes, profissionais e iniciativas voltadas à internacionalização do audiovisual brasileiro.
Entre os projetos ligados à instituição estão coproduções selecionadas em mostras oficiais, além de brasileiros escolhidos para programas como La Fabrique Cinéma, Casa Cine, Queer Palm Lab, La Résidence e Focus SCRIPT, iniciativas voltadas a desenvolvimento de projetos, mentorias e articulação com players internacionais.
Durante o Marché du Film, a instituição também participa do anúncio da nova edição do Screen Brasil, iniciativa realizada em parceria com a Embratur para apoiar a circulação internacional de filmes brasileiros por meio do fortalecimento de agentes de vendas.
Outra movimentação institucional prevista para Cannes envolve o HBF+Brasil, programa dedicado ao desenvolvimento de longas-metragens brasileiros. A iniciativa reúne o Hubert Bals Fund, ligado ao Festival de Roterdã, além de Projeto Paradiso, RioFilme, Spcine e Embratur.
Após a edição piloto realizada em 2025, o programa terá continuidade com novos aportes para projetos em desenvolvimento. O anúncio será feito durante um painel no Marché du Film, consolidando Cannes também como espaço de articulação institucional e construção de políticas para o setor.
Entre os títulos brasileiros apresentados ao mercado está Ilhéus, longa dirigido por Manu Sobral, selecionado para o showcase da VDF Connection, plataforma voltada ao cinema independente e à conexão entre projetos e compradores internacionais. Filmado majoritariamente na Prainha Branca, no Guarujá (SP), o terror psicológico acompanha uma estudante de arqueologia que chega a uma ilha remota para investigar vestígios de rituais funerários e acaba mergulhando em uma experiência sobrenatural.
Também no ambiente de negócios, Deixe-me Viver, dirigido por Walther Neto, terá exibição no festival. O longa estrelado por Mônica Carvalho, Cat Dantas e Humberto Martins integra a agenda de mercado da edição. Produzido pela Yva Filmes, com coprodução da WN Filmes, o drama acompanha a relação entre mãe e filha após o diagnóstico terminal de uma jovem e integra a programação de mercado do festival.
Love Kills, thriller dirigido por Luiza Shelling Tubaldini, retorna ao Marché du Film representado pelo agente de vendas Reel Suspects, após trajetória iniciada no circuito internacional de cinema de gênero, tendo a O2 Play como distribuidora dentro do território brasileiro.
Já Covil, suspense dirigido por Rodrigo Lages e estrelado por Vitória Strada e Daniel Rocha, também integra a agenda do Marché du Film, ao mesmo tempo em que prepara seu lançamento no Telecine. Premiado no Fantaspoa, o filme utiliza a passagem por Cannes como etapa adicional de circulação internacional, mesmo com estreia doméstica programada diretamente no streaming e televisão por assinatura.
O ator e roteirista Gabriel Coppola estreia no mercado de negócios de Cannes com Olhos em Mim, drama psicológico ainda em desenvolvimento e em busca de coproduções, fundos internacionais e potenciais parceiros. Desenvolvido com a produtora Bahaez, o projeto marca a entrada de Coppola no circuito de mercado internacional com uma obra independente de temática LGBTQIA+. “Estrear no Marché du Film com ‘Olhos em Mim’ representa muito mais o início de um movimento do que um ponto de chegada”, disse o roteirista.
- 0 medalha