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15 Maio 2026 | Mônica Herculano

“Falta coletividade entre produção, distribuição e exibição no Brasil”

Em entrevista, a produtora Diane Maia, da AMAIA, avalia relação entre os setores e o potencial de filmes brasileiros nos cinemas

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Estreia nesta semana nos cinemas Eu Não Te Ouço, que encerra trilogia dirigida por Caco Ciocler e foi selecionado para a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e premiado no Festival do Rio (Melhor Ator para Márcio Vito na mostra Novos Rumos).



O filme retrata o caso de um manifestante que, na tentativa de impedir um caminhão de furar o bloqueio em um protesto político, se agarra à frente do veículo. De dentro da cabine, o motorista tenta uma conversa que se mostra impossível, seja pelo barulho do vento, seja pelo vidro que separava aqueles dois mundos. “O filme é também sobre esse vidro. Sobre o país que, segue tentando uma conversa consigo mesmo que soa cada vez mais impossível. Não mais pelo dito — a oposição dos discursos — e sim pelo que não se escuta”, explica Ciocler.

Inicialmente não era um plano criar uma trilogia, mas ela se apresentou com esse longa após dois documentários do diretor: Partida (2019) e O Melhor Lugar do Mundo é Agora (prêmio do público de Melhor Documentário na Mostra de São Paulo em 2021). Ao adotar a estrutura de road movie, gênero conhecido por simbolizar jornadas de mudança pessoal, Eu Não Te Ouço adota humor e leveza para abordar as divergências políticas que têm consumido o debate público brasileiro recente.

Eu Não Te Ouço foi produzido e tem distribuição da AMAIA, que em cinco anos de existência produziu e lançou três longas metragens: o segundo documentário de Ciocler; a comédia Vai Ter Troco, de Maurício Eça para o Disney+; e a cinebiografia de Sidney Magal, Meu Sangue Ferve Por Você, de Paulo Machline, em coprodução com a Mar Filmes.

Em entrevista ao Portal Exibidor, a produtora Diane Maia, que está à frente da AMAIA ao lado de Eduardo Nasser, falou sobre a expansão para o mercado de distribuição e o potencial de circulação de filmes brasileiros nos cinemas.

Este é o primeiro lançamento da AMAIA como distribuidora. O que motivou a decisão de expandir da produção para a distribuição neste momento?

Eu Não Te Ouço é um projeto atípico. Um cinema experimental, uma ficção filmada como documentário. Temos um único ator em cena, que interpreta dois personagens em um road movie político. Eu diria que é até teatral. Como também somos coprodutores, nós da AMAIA conhecemos de perto o projeto, suas particularidades e também seus pontos fortes. Como é um filme de temática política e carrega certas características específicas, desde o início idealizamos um lançamento menor. Foi aí que vislumbramos a oportunidade de inaugurar nosso braço de distribuição. Enxergamos neste projeto o momento ideal para começar em menor escala, experimentar e criar. Além do aspecto artístico, pensamos que cuidar da distribuição de um projeto com esse perfil nos daria maior controle sobre os números, seja no P&A, seja pela cross colaterização da venda.

A AMAIA construiu uma trajetória com projetos autorais e experiência em produções de grande alcance popular, como a franquia Carrossel. Como isso influencia a forma como vocês pensam a distribuição hoje?

A franquia Carrossel foi um projeto pensado por mim e produzido no período em que fui sócia da Paris Entretenimento. Não é uma produção da AMAIA mas, de qualquer forma, nosso portfólio tem exatamente o perfil que você descreveu: transita entre projetos autorais e - possivelmente - projetos de grande alcance popular. Na distribuição, a pretensão é escalar de filmes menores para lançamentos maiores. Mas tudo depende do modelo de negócio da produção e da distribuição também. A produtora não tem um projeto sequer que não seja em coprodução e é também no coletivo que pensamos a distribuição. Pretendemos nos associar a distribuidores que tenham visões e planos de negócio que possam ajudar a concretizar a ideia que temos para determinado projeto. Ou seja, vai de acordo com o plano necessário para o filme acontecer da melhor forma possível, com o maior alcance.

Eu Não Te Ouço foi premiado no Festival do Rio e agora enfrenta o desafio de alcançar o público no circuito comercial. Como vocês estão trabalhando essa transição entre o reconhecimento da crítica e o desempenho nas salas?

Acredito que seja um momento difícil para o cinema que não seja “filme evento”, ou seja, grandes produções, franquias. Então, diante disso, estamos trabalhando com cautela em um lançamento menor, que pode ir ganhando espaço a depender de um possível retorno de público. Para isso, focamos em comunicação, presença nas redes sociais e uma boa assessoria de imprensa. Atualmente, as pessoas não têm buscado pelos filmes, principalmente os com menor orçamento para campanha; as produções que vão até elas, como, por exemplo, através de posts no Instagram - que têm nos dado um retorno surpreendente de visibilidade ao filme. Então, temos buscado apostar em estratégias desse tipo, a expectativa é alcançarmos a curiosidade do público, seja pela tradução do meme ao cinema, ou pelo tema político do filme em pleno ano de eleição. E, claro, seguimos na árdua tarefa de tentar tirar as pessoas do celular e levá-las para o cinema.

O filme encerra a trilogia política do Caco Ciocler e parte de um episódio muito simbólico do Brasil recente. Na sua visão, os sucessos de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto devem ajudar filmes que dialogam com contextos políticos a terem mais espaço no circuito comercial?

Apesar do sucesso de ambos os filmes, na verdade, já encontramos barreiras nesse sentido. Um dos grandes circuitos exibidores negou o filme por ser ano de eleição. Infelizmente, não acredito que apenas o sucesso desses títulos possa favorecer outros projetos nacionais com um contexto político. O que precisamos mesmo é que a recente revisão da cota de tela possa surtir efeito prático e material no circuito de cinema brasileiro. Além disso, para que filmes de baixo orçamento tenham a chance de prosperar, é necessário um maior estímulo à abertura de salas fora do eixo comercial dos shoppings, ou seja, salas que estejam interessadas em programar filmes artísticos e sócio-políticos, não apenas blockbusters internacionais.

⁠A AMAIA tem trabalhado com projetos bastante diversos em linguagem, escala e público. Hoje, o que define para vocês o potencial de circulação de um filme nos cinemas?

Antes de mais nada, um bom roteiro e o envelopamento do projeto seguem sendo o primeiro pensamento para entender o potencial de alcance, antes mesmo da fase de produção. Por exemplo: quem são os talentos envolvidos na frente e atrás da câmera? Qual o gênero? Qual a familiaridade do público com o tema?

Em seguida, já na produção, buscamos sempre o diálogo amplo com os realizadores pensando no projeto como um todo, ou seja, no valor de produção que podemos imprimir, na linguagem artística somada ao tipo de público que ele quer alcançar etc. Em caso de projetos autorais, para conseguir alcançar um maior potencial de circulação, também é necessário trabalhar a resposta da crítica especializada e dos festivais de cinema que chancelam o filme. É principalmente isso que gera expectativa para o lançamento de um filme de menor orçamento. Em seguida, contamos com a confiança e o apoio dos exibidores, além de estratégias de comunicação, para conseguir um melhor resultado no circuito exibidor.

Porém, para expandir a circulação de um filme, na ponta deste longo trabalho, é necessário o investimento em marketing. Atualmente, um maior investimento se tornou ainda mais essencial para cativar o público das novas gerações, que são bombardeadas por conteúdos de produções internacionais de grande porte em todas as janelas.

Em termos de escolha, olhamos um projeto pelos pontos citados acima, mas, além disso, sempre apostamos em histórias que nos movem. Afinal, também somos público. Ouvir quem trabalha conosco é o primeiro ponto nas decisões dos projetos em que a AMAIA aposta.

Como produtora e, agora, distribuidora, o que você sente que falta no diálogo entre produção, distribuição e exibição no Brasil?

Sinto falta de coletividade. O diálogo entre produção, distribuição e exibição no Brasil enfrenta desafios estruturais crônicos. Para além das mudanças de hábito dos consumidores com a constante evolução das telas e da tecnologia, somos uma indústria em construção e que enfrenta mudanças de política de fomento que, em alguns pontos, variam conforme os governos que assumem - além de termos pouca previsibilidade em geral. Isso gera uma síndrome de “salve-se quem puder”: empresários tentando salvar seus negócios e olhando pouco para o coletivo. A história do cinema brasileiro recente aponta para a retomada, desde o 3º Congresso Brasileiro de Cinema e, a partir dali, a criação do Gedic (Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria do Cinema) e da Ancine através do trabalho de cineastas e produtores que se uniram para construir algo mais sólido e estruturado. Hoje, o crescimento me parece não se pautar nessa história de sucesso, mas sim na busca por resultado rápido e singular. Temos inúmeras questões que vão desde um market share de 6% nas salas de cinema atualmente à falta de regulação para os streamings. Me parece ser urgente um olhar integrado para a cadeia audiovisual.

⁠Como distribuidora, a AMAIA está trabalhando em próximos projetos que já poderiam nos contar?

Vamos lançar O Personagem, de Fábio Mendonça, que foi convidado para o Marché du Film de Cannes 2026 no projeto “Goes To Cannes”. O filme é uma ficção que acompanha a vida de um imigrante haitiano em São Paulo e foi rodada em uma ocupação que se estabeleceu aqui há seis anos e já tem 250 famílias vivendo em comunidade. O longa abarca temas importantes e nossa ideia é trabalhar o circuito de festivais, aquecer o filme e buscar um lançamento em salas de cinema, mas que alcance também as ocupações em São Paulo, os espaços públicos e, tomara, que chegue ao poder público. Que ele possa não só atingir as pessoas na esfera cultural, mas também na esfera política e da educação. A ativista Preta Ferreira será a coordenadora deste lado não convencional do lançamento pela AMAIA, ampliando a comunicação. Está sendo um privilégio trabalhar com ela e pensar o filme dessa forma. Estamos também avaliando a codistribuição deste projeto com parceiros. Para além disso, temos mais dois projetos em fase de contratação, portanto ainda sem divulgação. Um deles, inverso a esse, é uma comédia romântica, com a qual vamos buscar uma distribuição mainstream em mais uma experiência nova e instigante na distribuidora. A ideia é começar com cautela, mas dosar uma pitada de ousadia, com olhar 360º, para além das telas do cinema, e trabalhar o crescimento da distribuidora, sem pressa, mas buscando permanência.

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