Cannes: Críticas a Trump, nova aquisição da Warner, premiação e incentivo a projetos brasileiros
Os destaques dos últimos dias no festival da Riviera Francesa
Compartilhe:
(Foto: Divulgação)
O Festival de Cannes 2026 está chegando ao final, com encerramento no sábado (23), e muitas novidades seguem movimentando a indústria na Riviera Francesa. O Clockwork, novo selo da Warner, por exemplo, venceu a disputa por um dos projetos mais cobiçados do mercado do festival e garantiu os direitos de distribuição de The Brigands of Rattlecreek na América do Norte. O Brasil também esteve em destaque, com a cinebiografia de Carolina Maria de Jesus sendo premiada no programa Goes to Cannes e um projeto da diretora Laís Santos Araújo contemplado por incentivos europeus para seu desenvolvimento. Confira as informações dos portais Deadline, Variety, Estadão e Folha de São Paulo.
Premiação para filme sobre Carolina Maria de Jesus
O Brasil voltou aos holofotes na última segunda-feira (18), quando a cinebiografia de Carolina Maria de Jesus, dirigida por Jefferson De, foi premiada no programa Goes to Cannes, do Marché du Film, evento voltado para o mercado dentro do Festival de Cannes.
A iniciativa tem o intuito de premiar projetos em desenvolvimento para apoiar talentos promissores e impulsionar o setor do audiovisual. O longa brasileiro recebeu um dos três prêmios oferecidos na seção, o A.H. Media Production Award, que oferece € 10 mil (R$ 58 mil) aos produtores.
"Quando o Brasil ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962 com o filme O Pagador de Promessas, Carolina Maria de Jesus, apesar de ter sido convidada para a comemoração, foi impedida de entrar em um restaurante em São Paulo por ser uma mulher negra. Estar hoje em Cannes com um filme sobre sua vida carrega uma dimensão histórica, simbólica e profundamente emocionante para o cinema brasileiro", destacou Maria Gal, produtora do filme.
Curta brasileiro "Infantaria", premiado em Berlim, será transformado em longa-metragem
O curta-metragem Infantaria, da diretora Laís Santos Araújo fez sua estreia na Berlinale e, após sua exibição internacional, será transformado em longa-metragem. O novo projeto será conduzido pelo produtor Pedro Krull, da Aguda Cinema, através da Residência Cinéfondation de Cannes e de uma série de iniciativas de desenvolvimento europeias.
O filme, que se passa em Alagoas e aborda a questão do aborto clandestino no Brasil, já contou com o apoio do Projeto Paradiso enquanto curta-metragem, com uma consultoria de roteiros nacionais e internacionais, além de um dossiê personalizado destinado ao mercado global. Antes dos novos apoios anunciados em Cannes, o projeto também já havia selecionado La Fabrique Cinéma, BrLab, CineMundi e MAFF.
Agora, com orçamentos de US$ 1 milhão e US$ 684,4 mil garantidos pelos novos apoios, a equipe de Infantaria está no festival em busca dos elementos finais para a construção do filme. "Queremos aproveitar o tempo em Infantaria para desenvolver ainda mais o roteiro e nos conectar de verdade com os parceiros e o público europeus. Não queremos apressar as coisas. Por isso, estamos interessados não apenas no aspecto financeiro de uma parceria com coprodutores, vendedores e distribuidores, mas também em como isso contribuirá para o filme nesta fase final de desenvolvimento", destacou Krull.
Clockwork garante a distribuição de um dos projetos mais cobiçados de Cannes
Não faltavam interessados mas, na última terça-feira (19), a Clockwork - novo selo da Warner - deixou a concorrência para trás e garantiu os direitos de distribuição de The Brigands of Rattlecreek na América do Norte em um acordo estimado em dezenas de milhões de dólares.
O presidente do júri do Festival de Cannes, Park Chan-Wook, dirigirá o aguardado filme, que terá como estrelas o vencedor do Oscar Matthew McConaughey, o indicado ao Oscar Austin Butler, o quatro vezes indicado ao Emmy Pedro Pascal e a estrela chinesa Tang Wei.
O longa acompanhará um xerife e um médico em busca de vingança contra um grupo de bandidos que se aproveitam de uma tempestade para roubar e aterrorizar os moradores de uma pequena cidade nos Estados Unidos. As filmagens estão programadas para o primeiro trimestre do próximo ano. O projeto é o segundo anunciado pelo selo voltado para cineastas autorais após Ti Amo!, de Sean Baker.
Pedro Almodóvar se manifesta contra Donald Trump
Após a exibição de Natal Amargo, novo filme de Pedro Almodóvar, nesta quarta-feira (20) em Cannes, o diretor foi questionado por jornalistas sobre "Hollywood estar em crise e o Canal+ ameaçar criadores". A pergunta foi feita após Maxime Saada, presidente e CEO da plataforma francesa de streaming e TV por assinatura,, dizer que o conglomerado não irá trabalhar com profissionais que assinaram uma petição que alertava para o crescente controle do magnata Vincent Bolloré sobre os setores de entretenimento e mídia franceses. Nomes como Juliette Binoche, Arthur Harari e Bertrand Mandico estão entre os signatários do documento.
"Os artistas precisam se manifestar e falar com as instituições da sociedade contemporânea, é um dever moral. Silêncio e medo. O silêncio é uma expressão de medo. É um sintoma de que as coisas estão indo muito mal. É um sinal grave de que a democracia está ruindo. Os criadores precisam se manifestar", respondeu Almodóvar.
Na sequência, o diretor criticou Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, antes de estender os comentários ao presidente dos Estados Unidos. "Na Europa, temos leis, existem certos limites. Temos que agir como um escudo contra essa loucura. A Europa jamais deveria se submeter a Trump."
Selton Mello: "Ainda Estou Aqui mudou tudo para mim”
Selton Mello está no Festival de Cannes para a estreia de La Perra, filme da diretora chilena Dominga Sotomayor que é exibido fora de competição, na mostra paralela Quinzena dos Cineastas. O projeto conta com o ator brasileiro no elenco e ele destacou como Ainda Estou Aqui (Sony) causou uma mudança brusca em sua carreira. "O filme abriu as portas para o que temos de melhor e para nossos artistas. Passou a haver um interesse maior. Ainda Estou Aqui mudou tudo para mim, nessa altura da minha vida. E veio em um momento bonito, em que estou maduro", disse.
De fato, a carreira de Mello deu uma guinada internacional após o sucesso da produção brasileira. Além do próprio La Perra, ele participou de Anaconda (Sony), lançado no ano passado - "Quando anunciei a estreia de ‘Anaconda’, foi a primeira vez na minha vida que eu disse: ‘estreia hoje no mundo inteiro’”, lembrou o ator -, e ainda em 2026 gravará em São Paulo (SP) Zero K, filme do americano Michael Almereyda, com Caleb Landry Jones e Peter Sarsgaard.