20 Maio 2026 | Mônica Herculano
O humor como linguagem e estratégia
Ary Rosa, da Rosza Filmes, fala sobre seu novo filme com Glenda Nicácio, que tem distribuição da ELO Studios
Estreia nesta quinta-feira (21) nos cinemas a comédia Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada, dirigida por Ary Rosa e Glenda Nicácio, com produção da Rosza Filmes e distribuição da ELO Studios. Filmado no Recôncavo da Bahia, o filme traz no título uma expressão comum da região, uma forma de dizer que aquilo que é devido será pago, de uma forma ou de outra.
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"Sempre gostamos de pensar que o título é praticamente uma reza, ou uma praga, a depender da circunstância, evocando a ideia de circularidade. É a própria lei do retorno. O título dialoga com o nosso mercado artístico, onde a autoria e a liberdade de criação atravessam uma corda bamba, lidando com grandes estúdios, limitações orçamentárias e a busca por público. Ainda assim, existe algo que nos pertence e que está salvaguardado pela tradição e pela comunidade, características intrínsecas ao Recôncavo da Bahia", explicam Ary e Glenda.
Protagonizado por Rodrigo Pandolfo e Renan Motta, o longa conta a história de Henrique Garcia, um cineasta de São Paulo que está vivendo uma crise durante a realização do seu filme. No meio do processo, ele descobre que houve problemas nas gravações e que precisará refazer parte da obra. No entanto, se depara com as dificuldades da produção: o dinheiro acabou e ele já não consegue encontrar meios de finalizar o filme. É quando recebe o convite para dirigir o show de Cristian Mugunzá, um pagodeiro do Recôncavo da Bahia que explodiu na internet e arrasta multidões com suas músicas. A partir desse encontro, começa um conflito entre dois universos muito distintos: o cinema intelectualizado do Sudeste e a potência popular, musical e coletiva do Recôncavo Baiano.
Por meio do humor, o filme aborda temas como arrogância intelectual, preconceito, diversidade, brasilidade e a pluralidade da cultura brasileira, elementos recorrentes na filmografia da dupla, responsável por títulos como Café com Canela (2017), Até o Fim (2020), Mungunzá (2022), Eu Não Ando Só (2022) e Na Rédea Curta (2022). "Ary e Glenda são parceiros de longa data da ELO Studios e cineastas com uma voz muito própria dentro do audiovisual brasileiro. Este novo filme reafirma a força dessa parceria e a nossa confiança em projetos que valorizam autoria, identidade e conexão genuína com o público", diz Sabrina N. Wagon, CEO da distribuidora.
Em entrevista ao Portal Exibidor, Ary Rosa defende que o humor no cinema pode ser, ao mesmo tempo, estratégia de comunicação e escolha de linguagem e que narrativas de fora do eixo Rio-SP geram interesse independente da região, ao mesmo tempo em que reflete sobre a frequência do público e a distribuição dos filmes nacionais nas salas de cinema.
O filme parte de um encontro entre universos muito distintos, abordando temas como preconceito, arrogância intelectual e diversidade, por meio do humor. A comédia tem sido um dos gêneros mais potentes em termos de bilheteria no Brasil. Isso é uma forma de ampliar o diálogo com públicos diferentes? Vocês pensam o humor mais como estratégia de comunicação com o público ou como linguagem autoral?
Eu gosto de dizer que a diversidade do filme se dá pela própria natureza das pessoas que acompanham Cristian Mugunzá. A diversidade já está presente no próprio Recôncavo da Bahia, que traz novos contornos para temas normalmente tratados a partir do eixo Rio-São Paulo, como sucesso, carreira, intelectualidade, cinema e audiovisual. Quando levamos essa discussão para o contexto do Recôncavo, surgem novos personagens, novas perspectivas e outras formas de existir. São os corpos pretos, a cultura do Recôncavo, o candomblé, o acarajé, o pagodão. Tudo dentro do filme nasce a partir dessa perspectiva e desse território.
O humor do filme surge justamente do ridículo. Henrique é um personagem ridículo. Existe também uma crítica nossa a esse cinema do eixo que muitas vezes se leva excessivamente a sério. É um cinema que se acha necessário, urgente, indispensável — e há algo de profundamente risível nisso. O filme brinca com essa postura porque entendemos que existe uma certa vaidade intelectual nesse universo. E, ao mesmo tempo, existe uma provocação sobre o próprio estado do cinema brasileiro, suas crises e suas dificuldades de se conectar com o público.
Por isso, quando me perguntam se trabalhar o humor é uma estratégia de comunicação "ou" uma escolha de linguagem, eu gosto de trocar o "ou" pelo "e". Nós pensamos o humor como estratégia de comunicação com o público e, também, como linguagem narrativa. Em um país com profundos problemas socioeconômicos, a crise criativa de um cineasta, em nossa opinião e gosto, só pode se dar no regime do humor.
Mas Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada não é apenas uma comédia. O filme trafega pelo drama, pelo musical, pelo bangue-bangue, e brinca constantemente com os gêneros. Isso é uma característica muito presente na filmografia de Glenda Nicácio e minha. Ao longo dos nossos filmes, o humor sempre esteve presente, mas não como um elemento isolado. Ele aparece como ferramenta de aproximação, de crítica e, também, de afeto. Quando apresentamos um filme sobre um cineasta fracassado, alguém que não consegue levar pessoas para a sala de cinema, inevitavelmente estou olhando para o nosso próprio ofício com ironia. Existe algo de profundamente ridículo nisso tudo, porque, de alguma forma, nós ainda não conseguimos completar o ciclo da obra cinematográfica, que termina justamente no encontro com o espectador.
Acho importante entender que não existe uma fórmula simples para o público no cinema brasileiro. Fazer comédia não garante bilheteria. Fazer drama, suspense, musical também não. Muitos dos filmes que conseguiram mobilizar público nos últimos anos vieram acompanhados de outros fatores: presença em festivais internacionais, indicação ao Oscar (Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto), personagens já conhecidos (Homem com H), artistas populares ou renomados (Perrengue Fashion, Vitória) ou universos previamente estabelecidos no imaginário coletivo (Chico Bento, Auto da Compadecida 2). Perceba que não há mais uma hegemonia da comédia entre as maiores bilheterias da virada de 2024 e o ano de 2025.
Pensando na experiência em sala, o que vocês acreditam que diferencia esse filme dentro da programação, especialmente em um cenário competitivo com grandes lançamentos?
Acho que essa pergunta acaba impondo outra: o espectador ainda está interessado em narrativas diferentes das que estão sendo colocadas pelos grandes filmes? Que público é esse? As pessoas não estão indo ao cinema porque os filmes contam histórias que elas não querem assistir ou existe uma desconexão mais profunda entre o mercado exibidor, as distribuidoras e o próprio modelo de financiamento da Ancine em relação aos filmes que estão sendo produzidos?
Os dois filmes que lancei comercialmente em salas, Café com Canela (2018) e Na Rédea Curta (2022), tiveram cerca de dez mil espectadores cada. E eu realmente me pergunto: isso é muito ou é pouco? Dez mil pessoas assistindo a um filme brasileiro independente em sala de cinema é um fracasso ou é um sucesso? Vale a pena fazer filmes para essas dez mil pessoas ou seria melhor simplesmente não fazer esses filmes? Levando em consideração que mais de 50% dos filmes brasileiros lançados no último ano não conseguiram sequer mil espectadores nas salas, talvez os nossos tenham sido sucessos dentro das suas possibilidades e contextos.
Nós estamos fazendo um filme no Recôncavo da Bahia. A nossa pretensão é concorrer com Marvel Studios? Com Avatar? Imagino que não. O que buscamos é encontrar um público que talvez goste desses filmes também, mas que queira assistir a uma comédia brasileira ambientada no Recôncavo da Bahia, que fale sua língua, dialogue com sua cultura e apresente personagens críveis, reconhecíveis, próximos da realidade de quem está assistindo.
Às vezes, as perguntas parecem sugerir que o problema está em fazer cinema no interior do país, em fazer um "cinema autoral" ou em utilizar a comédia quase como um apelo desesperado para alcançar um público que supostamente já não existe mais. Só que talvez a questão seja mais complexa do que isso. Lançar um filme no Brasil é muito difícil. E, depois de lançado, fazer com que as pessoas saiam de casa para assisti-lo é ainda mais difícil. Claro que parte dessa responsabilidade está no diretor, no roteirista, na produtora - em quem realiza a obra. Mas é um diálogo muito solitário quando as instâncias responsáveis por fazer essa mediação parecem ter outros interesses prioritários: o exibidor preocupado em sobreviver com os grandes lançamentos internacionais, a distribuidora tentando vender filmes para o streaming e a Ancine funcionando muitas vezes apenas como reguladora de um sistema que produz muitos filmes, mas que ainda não consegue garantir o encontro dessas obras com o público.
O filme traz elementos muito enraizados no Recôncavo, mas também temas universais. Como vocês enxergam o potencial de circulação em diferentes regiões do país?
Não me parece estranho ao público brasileiro que narrativas fora do eixo Rio-São Paulo façam sucesso. Isso já acontece há muito tempo nas novelas, nas séries e no próprio cinema brasileiro. O Auto da Compadecida 2, por exemplo, é uma obra profundamente nordestina e encontrou um enorme público. O Agente Secreto conseguiu dialogar com o mundo inteiro a partir de uma perspectiva muito ligada a Pernambuco, à ditadura e às nossas próprias instituições. Então eu realmente não acredito que o território seja uma barreira para o espectador. Ao contrário. Acho que o público brasileiro é muito aberto a esse intercâmbio cultural. Um espectador do Nordeste pode se interessar por histórias do Sul e do Sudeste, assim como um espectador do Sul pode se interessar profundamente pelas culturas do Norte, do Centro-Oeste ou da Bahia. Nós falamos a mesma língua. O que muda são os contornos culturais, e são justamente esses contornos que tornam as histórias mais ricas, bonitas e interessantes.
A história que estamos contando é, essencialmente, sobre um cineasta em crise que não consegue finalizar seu filme e vai para o interior produzir um artista muito famoso da música popular. Isso poderia acontecer no Recôncavo da Bahia, no Norte do Brasil, no Sudeste ou em vários outros lugares. O que muda é a maneira como cada território atravessa essa narrativa. E, honestamente, acho que partir da Bahia acaba sendo uma potência. A Bahia desperta curiosidade, afeto e interesse em praticamente todo o país. Existe uma força simbólica, musical, cultural e afetiva muito grande ligada ao estado. Então me parece que, longe de afastar o público, esse universo aproxima.
Vocês ainda veem desafios para a presença de filmes produzidos fora do eixo Rio-São Paulo nas salas comerciais de maneira geral no Brasil? O que precisaria mudar para que a descentralização passe a ser também uma realidade no circuito exibidor?
Sim, acho que existe um problema muito sério de circulação do filme brasileiro, em geral, no Brasil. E, quando falamos de filmes produzidos fora do eixo Rio-São Paulo, isso se torna ainda mais complexo, porque toda a estrutura econômica do audiovisual — distribuição, exibição, mercado e até a própria sede da Ancine — estão concentrados nesse eixo. Então, tudo que foge desse circuito acaba enfrentando dificuldades ainda maiores do que os próprios filmes produzidos dentro dele.
Agora, uma justiça precisa ser feita: nos últimos 20 anos, a Ancine teve um papel muito importante na descentralização da produção audiovisual brasileira. Filmes do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste passaram a ganhar cotas, editais específicos, políticas públicas e atenção institucional que foram fundamentais para o fortalecimento do cinema nacional fora do eixo tradicional. O problema é que essa descentralização da produção nunca se converteu, de fato, em descentralização da exibição, da distribuição e da comercialização desses filmes. Esse processo simplesmente não avançou na mesma medida. E isso é uma grande dificuldade do cinema brasileiro hoje.
Dos nossos sete longas-metragens, apenas três chegaram às salas de cinema. Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada é o terceiro. Os outros quatro circularam por festivais, ganharam prêmios, foram vistos em outros espaços, mas não conseguiram entrar no circuito exibidor. E, ao mesmo tempo, eu reconheço que já é algo muito significativo: cineastas do Recôncavo da Bahia, que começaram e permanecem trabalhando no próprio Recôncavo, terem conseguido lançar três filmes em salas comerciais é algo muito bonito e motivo de orgulho. Mas não dá para ignorar que outros quatro filmes não conseguiram fazer esse percurso — e não porque não fossem filmes pensados também para a experiência da sala de cinema.
Então, sim, existem questões muito sérias a serem debatidas sobre descentralização no audiovisual brasileiro nas salas de cinema. E essa resposta, infelizmente, precisa ser direcionada justamente para quem ocupa o espaço entre o filme e o público: os agentes públicos, os exibidores e as distribuidoras. Porque são eles que, em última instância, fazem — ou deixam de fazer — essa ponte acontecer.
No material de divulgação, vocês mencionam a "corda bamba" entre autoria e as demandas do mercado. Na vida real, como equilibram liberdade criativa com a necessidade de alcançar público?
Eu honestamente não consigo enxergar antagonismo entre a autoria e o popular. Não vejo oposição entre um filme pensado em sua linguagem, em sua expressão estética e narrativa artística, e um filme capaz de dialogar com um espectador comum. O público brasileiro é extremamente inteligente, sagaz e possui uma formação audiovisual muito sofisticada. Somos um país profundamente atravessado pela televisão, pelo cinema, pela internet, pelas imagens. Então não consigo acreditar que pensar um filme artisticamente seja, por si só, algo contrário ao interesse do espectador.
O que me parece existir é um problema na forma como essa comunicação está sendo construída. Existe um problema nessa ponte entre o filme e o público. Eu simplesmente não consigo acreditar que, de mais de 200 filmes produzidos no último ano no Brasil, apenas cinco, seis ou dez tenham realmente capacidade de dialogar com o espectador. É evidente que alguns filmes talvez não consigam estabelecer essa conexão. Isso faz parte da arte. Mas tenho certeza de que a maioria desses filmes possui, sim, um público potencial.
A questão é que esse público não está encontrando os filmes — e os filmes também não estão encontrando seu público. E aí não dá para colocar essa responsabilidade apenas sobre a obra. Se estivéssemos falando especificamente da performance de Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada, talvez eu pudesse refletir sobre as minhas escolhas de narrativa, elenco, diálogos, estrutura ou linguagem. Mas não se trata de um problema isolado. Estamos falando de um fenômeno geral do cinema brasileiro.
Esses mais de 200 filmes abarcam comédias, dramas, thrillers, musicais, produções feitas em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia, no Pará, no Rio Grande do Sul. É uma massa enorme de filmes realizados, financiados e concluídos que simplesmente não estão conseguindo encontrar o espectador. E isso pode acontecer por vários motivos: porque não há distribuidora interessada em salas de cinema; porque a distribuidora não compreende os filmes; porque não existe espaço suficiente nas salas de cinema ou porque ainda não há uma regulação realmente eficiente para garantir que esses filmes cheguem ao circuito exibidor.
O que vocês acreditam que, do ponto de vista dos exibidores, pode aproximar ainda mais filmes brasileiros do público nas salas?
Acredito que muitos exibidores e distribuidoras não possuem, de saída, uma estratégia consistente para conectar o cinema brasileiro ao público. E, em muitos casos — especialmente quando pensamos nas grandes redes exibidoras — talvez nem exista realmente interesse nisso. Porque o sistema acaba funcionando de forma mais confortável e previsível a partir dos grandes lançamentos internacionais, que já chegam com campanhas milionárias, reconhecimento imediato e um público previamente mobilizado.
Então, o cinema brasileiro, principalmente o cinema produzido fora do eixo ou fora dos modelos mais industriais, entra quase sempre em condição desigual. E aí surge uma pergunta importante: quem está pensando estratégias reais para que esses filmes encontrem seus espectadores? Porque não basta apenas produzir o filme. Não basta financiar o filme. Existe toda uma etapa posterior de mediação, circulação e formação de público que continua muito fragilizada no Brasil.
Vocês diriam que esse é um filme que precisa ser visto no cinema — e não apenas em outras janelas?
Glenda Nicácio e eu, antes de tudo, somos espectadores apaixonados por cinema. Somos realizadores que amam pensar linguagem cinematográfica. Fazemos filmes acreditando profundamente na experiência da sala escura, na experiência coletiva, no encontro entre pessoas mediado pela arte. Quando estamos filmando, pensamos justamente nisso: que um dia alguém vai entrar numa sala de cinema e assistir aquele filme coletivamente. Vai rir junto com outras pessoas, vai se emocionar junto, vai compartilhar silêncios, reações e sentimentos. Para nós, o cinema continua sendo esse espaço onde arte, prazer, emoção e convivência acontecem simultaneamente. Talvez por isso a gente continue insistindo tanto na experiência cinematográfica, mesmo diante de todas as dificuldades. Porque ainda acreditamos que existe algo muito poderoso no experimentar coletivamente um filme em uma tela.
Queremos convidar os leitores do Portal Exibidor para irem ao cinema assistir Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada e viver essa experiência tão bonita que o cinema proporciona. A sala de cinema continua sendo um espaço de encontro, de emoção coletiva, de risada compartilhada e de troca entre pessoas. Acreditamos que o cinema alimenta a subjetividade, a coletividade e também a nossa capacidade de refletir criticamente sobre o mundo. Quando assistimos a um filme brasileiro, estamos entrando em contato com a nossa própria cultura, com nossos afetos, nossas contradições, nossos modos de falar, rir, amar e existir.
Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada nasce no Recôncavo da Bahia, mas deseja dialogar com o Brasil inteiro.
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