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22 Maio 2026 | Yuri Cavichioli

Acessibilidade no cinema para além da obrigação regulatória

Fundadora da Conecta Acessibilidade fala sobre potencial de público que a indústria audiovisual parece estar ignorando

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(Foto: Divulgação)

A discussão sobre acessibilidade no cinema brasileiro costuma ser associada ao cumprimento de normas, aplicativos e exigências técnicas, mas raramente entra no centro da conversa sobre experiência do público e estratégia comercial. Enquanto há discussões sobre conforto, tecnologia, fidelização e formatos premium para atrair espectadores, uma parcela relevante da audiência ainda enfrenta barreiras básicas para acompanhar uma sessão com autonomia. 

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Uma pesquisa recente sobre a jornada do público PCD nos cinemas, mostrou que obstáculos de atendimento, comunicação e infraestrutura ainda fazem parte dessa experiência (leia aqui matéria sobre o estudo). E é nesses pontos que atua a Conecta Acessibilidade, empresa criada em 2017 e especializada na produção e distribuição de recursos de acessibilidade audiovisual. Entre eles estão: audiodescrição, narração que descreve elementos visuais para pessoas com deficiência visual; janela de Libras, com interpretação em Língua Brasileira de Sinais inserida na exibição; e legendagem descritiva, que inclui não apenas diálogos, mas informações sonoras relevantes para a compreensão da obra. Além da produção dessas versões, a empresa também opera seu próprio aplicativo para distribuição dos conteúdos acessíveis em cinemas e outras plataformas.

Recentemente, a companhia lançou um suporte físico pensado para resolver uma demanda prática relatada por usuários surdos: o desconforto de precisar segurar o celular durante toda a sessão para acompanhar legendas ou interpretação em Libras pelo aplicativo. Desenvolvido para encaixe no porta-copos das poltronas, o dispositivo foi testado no Grupo Estação e busca oferecer uma solução operacional simples para exibidores interessados em adotar a tecnologia.

Para a fundadora da Conecta, Joana Peregrino, a principal barreira não está necessariamente no desenvolvimento técnico das ferramentas, mas na falta de familiaridade do setor com esse público. Embora o Brasil tenha legislação consolidada sobre acessibilidade, a percepção da executiva é que a inclusão ainda é tratada majoritariamente como resposta regulatória, e não como parte de uma política efetiva de relacionamento, atendimento e crescimento de audiência.

Em entrevista ao Portal Exibidor, Peregrino fala sobre a origem da Conecta Acessibilidade, os desafios de sensibilizar o mercado audiovisual, a recepção da nova solução entre exibidores e por que considera que o cinema brasileiro ainda está distante de compreender plenamente o potencial do público com deficiência.

A Conecta Acessibilidade nasceu com foco em acessibilidade audiovisual. Que necessidade de mercado vocês observaram quando decidiram criar a empresa? Em que momento ela surgiu e qual era seu propósito dentro do mercado audiovisual?

A Conecta surgiu em 2017, após a minha saída da TV Ines, uma TV voltada para pessoas surdas e suas famílias, onde fiquei à frente por cinco anos. A TV Ines foi um projeto pioneiro e importantíssimo para a comunidade surda, e que hoje, infelizmente, está descontinuado.

O meu propósito, quando fundei a Conecta, foi produzir um trabalho de acessibilidade de qualidade, que também, naturalmente, se tornou um trabalho de sensibilização e educação para o mercado audiovisual e cultural. Isso porque percebi grandes lacunas a partir do meu trabalho na TV, quando tive a oportunidade de atuar diretamente com profissionais surdos. Desde então, estamos o tempo todo em contato com os produtores que nos procuram, explicando como funciona essa parte da cadeia produtiva e a importância de valorizarem as versões acessíveis de seus projetos.

Quais são as soluções disponibilizadas pela Conecta e como elas chegam ao público final e aos exibidores de cinema?

Além de produzirmos acessibilidades para diversas mídias, distribuímos os recursos para salas de cinema e outras plataformas por meio do nosso próprio aplicativo. Por estarmos na fase de pós-produção dos projetos, naturalmente, nosso foco também foi direcionado para as demandas de tradução e legendagem em vários idiomas. Hoje, atendemos players importantes, como Globo, streamings diversos, produtoras e projetos de todos os portes. Também realizamos consultorias e capacitações para produtoras e empresas, com foco no atendimento à pessoa com deficiência e em outras pautas anticapacitistas. Essas capacitações são ministradas por profissionais com e sem deficiência.

O que uma pessoa ouvinte dificilmente percebe sobre a experiência de uma pessoa surda em uma sessão de cinema?

Olha, eu nunca vou saber de fato como é a experiência de uma pessoa surda, porque, além de eu não ser uma pessoa com deficiência, cada indivíduo é único. Mas os relatos que ouço falam do desconforto dos aplicativos para essas pessoas. Além disso, há uma demanda histórica da comunidade surda brasileira para que as nossas produções sejam exibidas com legendas descritivas em português, finalizadas na tela. Hoje, essa é a maneira mais confortável para uma pessoa com deficiência auditiva usufruir de um filme. Sinceramente, eu não entendo por que essa demanda não pode ser atendida.

Houve algum relato de usuário que fez vocês pensarem: “precisamos resolver isso agora”?

O que me impulsionou a realizar o suporte, além de estar atenta aos relatos das pessoas surdas sobre suas experiências nos cinemas, foi o incômodo de a Conecta ter o próprio aplicativo, mas continuar sem oferecer uma solução que desse um mínimo de conforto ao público surdo. Imagine segurar um celular por duas horas, colocá-lo à sua frente e ficar tentando acompanhar, em duas telas, as legendas ou Libras enquanto assiste ao filme? Creio também que a convivência com pessoas surdas durante muitos anos me deixou mais sensível e atenta às demandas desse público.

A acessibilidade ainda é tratada pelo mercado exibidor como uma obrigação regulatória ou como uma oportunidade real de público?

Como uma obrigação regulatória, sem dúvida. Quantas salas hoje estão, de fato, preocupadas e sensibilizadas com o público com deficiência? Pouquíssimas. E uma das nossas bandeiras aqui é convencer a todos de que um olhar verdadeiramente atento a esse público pode ser um motor de transformação não só para o mercado em si, mas também para a sociedade. Porque, na minha opinião, nós nos transformamos a partir da convivência com pessoas diversas.

Vocês acreditam que o mercado de cinema ainda não dimensiona plenamente o potencial desse público? Por quê?

Porque o mercado não está acostumado com esse público, não o conhece, não o coloca como prioridade e dificilmente pensa sobre isso. Produzir e distribuir as acessibilidades, hoje, é o mais “fácil”. O que dá trabalho é colocar a pauta como uma estratégia contínua: buscar informações, deixar sempre na cabeça que é preciso pensar o tempo todo em como atrair esse público, em como a comunicação pode ser mais eficaz para essas pessoas e em como a minha sala de cinema pode atender pessoas com deficiência de uma forma mais acolhedora. Não é ter tudo perfeito. É dar o primeiro passo e ir transformando o cenário.

Para um exibidor, implementar esse tipo de solução exige um investimento complexo ou é algo operacionalmente simples?

É muito simples. O suporte encaixa no porta-copos da poltrona e traz um segundo porta-copos acoplado, para que a pessoa coloque a sua bebida. A única diferença de cinema para cinema é que os diâmetros dos porta-copos são um pouco diferentes, mas esse é um ajuste simples de projeto.

O que vocês aprenderam nos testes com o Grupo Estação que outros exibidores deveriam observar?

O Grupo Estação recebeu a nossa ideia de forma incrível. Nos deixou testar, discutiu conosco algumas melhorias, ou seja, foi uma empresa aberta ao assunto. O que eu acho que os exibidores deveriam observar é se suas equipes estão capacitadas para ajudar e orientar quem precisa utilizar a tecnologia — não só essa, como as outras existentes. E que haja um interesse genuíno em acolher esse público, com empatia e bom atendimento.

O maior desafio foi desenvolver a tecnologia ou adaptar a solução à realidade física das salas brasileiras?

O maior desafio foi encontrar uma equipe capacitada e sensibilizada para o projeto. E tive sorte, porque são profissionais já muito atentos às demandas de pessoas com deficiência e que entenderam perfeitamente a necessidade da Conecta.

O fato de pessoas surdas recorrerem a soluções próprias mostra uma lacuna histórica na experiência de acessibilidade oferecida pelo setor?

Sim, porque, historicamente, as pessoas com deficiência estão sempre relegadas a segundo plano. Não falo sobre as leis, porque o Brasil é um exemplo para o mundo. Mas, se você não tem uma deficiência e nem contato com alguém com deficiência, essa pauta não passa pela sua cabeça. E, se o mercado não coloca essa pauta como prioritária, como transformar essa situação?

Qual seria, para vocês, o cenário ideal de acessibilidade no cinema brasileiro a curto, médio e longo prazo?

Em curto prazo, penso que o marketing das empresas de audiovisual - falo de toda a cadeia - deve pensar imediatamente em estratégias de atração e retenção desse público. A médio prazo, seria maravilhoso se essas mesmas empresas começassem a integrar em seus times profissionais com deficiência, como forma de ampliar o olhar sobre a causa. E, a longo prazo, os governos poderiam criar selos de qualidade e contratar apenas pessoas com deficiência para a validação de tantas acessibilidades produzidas desde que as leis e normas de acessibilidade começaram a valer, em 2014. Porque também não adianta oferecer ao público uma comunicação incrível se os recursos estiverem malfeitos, né?

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