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20 Março 2026 | Yuri Cavichioli

Pesquisa aponta barreiras na jornada do público PcD nos cinemas

Levantamento inédito revela gargalos estruturais, comunicacionais e tecnológicos na experiência de pessoas com deficiência no mercado exibidor brasileiro

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(Foto: Divulgação)

Dados são frequentemente o ponto de partida para mudanças estruturais. Ao transformar percepções difusas em diagnósticos objetivos, pesquisas setoriais ajudam a orientar decisões e, no caso do segmento cinema, isso pode se refletir na produção, distribuição e exibição, além de influenciar estratégias de formação de público. Na acessibilidade, tema que envolve tecnologia, comunicação e experiência cultural, a consolidação de dados ainda é recente, mas passa a ganhar relevância no mercado.



Na última quarta-feira (18), foi apresentado em evento na capital paulista a Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas (PNAC) - Edição 2025, realizada pela consultoria de acessibilidade Acessara em parceria com Warner Universal. Durante a apresentação,  para a qual o Portal Exibidor foi convidado, Amanda Lyra, CEO da Acessara, destacou que a iniciativa parte da observação da jornada do espectador. “Acompanhar a pessoa dentro da pesquisa numa jornada completa foi o direcionamento adotado para estruturar o questionário.

A diretora de estratégia, Alessa Paiva, reforçou o caráter inédito da iniciativa. Segundo ela, a pesquisa buscou compreender não apenas a presença de recursos técnicos, mas a experiência real do público. “Acreditamos que a inclusão acontece de fato na experiência e esperamos que esse estudo possa contribuir para o acesso amplo, sobretudo à cultura, um direito humano fundamental”.

O levantamento contou com 28 perguntas organizadas em cinco etapas: dados pessoais, escolha do filme, compra do ingresso, acesso ao cinema e experiência durante a sessão. O formulário foi disponibilizado em ambiente digital com padrões de acessibilidade, incluindo Libras, audiodescrição e compatibilidade com leitores de tela.

Além disso, a pesquisa foi divulgada por meio de campanha 100% orgânica, com inserções em salas de cinema, eventos de lançamento, ações online e participação em encontros ligados à comunidade de pessoas com deficiência.

No total, 1.008 respostas completas foram consideradas. Entre os participantes, 62% fazem parte da comunidade de pessoas com deficiência e 11% atuam como acompanhantes ou responsáveis. Outros 38% não possuem deficiência.

Entre os tipos declarados, a deficiência física liderou com 39%, seguida por deficiência auditiva ou surdez (29%), transtorno do espectro autista (20%), deficiência visual ou cegueira (16%) e outras condições (10%).

Já no recorte de gênero, o público feminino predominou, com cerca de 66,6% das respostas. Em relação à idade, a maior concentração ficou entre 25 e 44 anos, indicando forte presença de millennials e da geração Z no levantamento.

Do ponto de vista territorial, a amostra apresentou concentração no Sudeste, com 61% dos respondentes — sendo 54% apenas nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Nordeste (19%), Sul (13%), Centro-Oeste (4%) e Norte (3%) aparecem em seguida. Lembrando que, das mais de 3.500 salas de cinema do país, mais de ⅓ está na região sudeste.

Quando questionados sobre a frequência de ida ao cinema, 47% afirmaram frequentar as salas de duas a cinco vezes por ano. Outros 21% vão de seis a dez vezes no período, enquanto 18% comparecem menos de uma vez.

Entre pessoas com deficiência, o índice de baixa frequência é maior: 23% vão menos de uma vez ao ano. No recorte por tipo, pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista) (25%) e deficiência auditiva (24%) registraram as menores presenças.

“Ir ao cinema não começa na sala. A gente precisa entender desde onde nasce a vontade de ir e quais barreiras aparecem ao longo dessa jornada.”, opinou Amanda durante o evento.

Dentro desse contexto, a deficiência física apresentou maior participação relativa, com apenas 14% indicando baixa frequência. Já pessoas com deficiência visual apresentaram maior índice proporcional de visitas mensais, com 16%.

Representatividade e comunicação

No campo da representatividade, o levantamento apontou que 59% dos respondentes raramente percebem personagens com deficiência nas produções audiovisuais. Outros 14,7% afirmaram nunca notar essa presença. “O que diferencia ter apenas alguns recursos técnicos de garantir um acesso pleno é a conscientização e a conexão entre as pessoas que fazem o cinema. As pessoas com deficiência querem, precisam e têm o direito de ocupar esses espaços”, esclareceu Edgar Jaques, ator, escritor, teatrólogo e consultor de áudio e descrição.

Para o mercado de produção e distribuição, o dado reforça discussões sobre diversidade de casting e desenvolvimento de personagens. A ausência de representação pode influenciar não apenas a experiência simbólica, mas também a decisão prática de consumo.

Quando o tema é divulgação de filmes, as redes sociais surgem como principal canal de descoberta, mencionadas por 74% dos participantes. Em seguida aparecem indicação de pessoas (52%) e sites das redes exibidoras (40%).

Ainda assim, o grau de acessibilidade dessas campanhas é considerado baixo. Seis em cada dez respondentes classificam a comunicação como pouco ou nada acessível. “O cinema hoje já conta com os recursos, os aplicativos estão disponíveis, mas ninguém sabe. A venda do ingresso não está acessível, as pessoas não sabem como acessar a sala ou em qual aplicativo o filme está. A prioridade agora é a comunicação”, afirmou Marcella Fazio, da MAV, empresa acessibilidade audiovisual para o cinema e mercado de mídia.

Na leitura analítica do estudo, esse ponto aponta uma oportunidade direta para marketing de distribuição e exibidores. A inclusão de informações acessíveis nas campanhas pode atuar não apenas como ação institucional, mas também como estratégia de formação de público.

Quanto à presença de recursos em trailers e comerciais exibidos antes dos filmes, 53% afirmaram não perceber qualquer acessibilidade. Outros 35% disseram não lembrar.

Na etapa de compra, 59% afirmaram adquirir ingressos online de forma autônoma. Ainda assim, 31% das pessoas com deficiência relataram dificuldades para garantir o direito à meia-entrada. “Quando falamos de acessibilidade digital, não estamos falando só de pessoas com deficiência. Estamos falando de pessoas idosas, com baixo letramento digital, imigrantes e muitos outros públicos que também precisam acessar a informação”, reiterou Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos e fundadora da Espiral Interativa.

Durante o acesso às salas, a principal barreira identificada foi a comunicacional, citada por 47,5% dos participantes. Questões físicas, atitudinais e arquitetônicas aparecem na sequência.

Do ponto de vista operacional, o estudo também mostrou que pessoas com deficiência visual são as que menos frequentam o cinema sozinhas. Em contrapartida, o maior índice de autonomia foi registrado entre pessoas com TEA e deficiência auditiva.

Já na avaliação sobre o preparo das equipes, apenas 6% consideram os profissionais muito bem preparados. Ao todo, quase metade classifica o atendimento como pouco ou nada adequado. Esse cenário impacta diretamente o sentimento de acolhimento. Enquanto pouco mais de 10% das pessoas sem deficiência relatam insegurança ao ir ao cinema, esse índice chega a quase 45% entre pessoas com deficiência.

No campo tecnológico, a pesquisa revelou que 55% dos participantes não sabem da existência de aplicativos de acessibilidade. Entre acompanhantes e tutores, o desconhecimento atinge 71%. Entre os aplicativos citados, o MovieReading aparece como o mais conhecido, com 22% de menções, além de Mload-MAV (10%) e Greta (5%). Ainda assim, o dado que mais chama a atenção é o de desconhecimento: cerca de 70% afirmaram não conhecer nenhum recurso digital.

“O recurso [aplicativos] está disponível e tecnicamente já funciona. O desafio agora é fazer com que essa informação circule dentro de toda a cadeia, da produção ao exibidor, chegando de forma clara ao público. Muitas pessoas deixam de acessar porque simplesmente não sabem que podem utilizar essas ferramentas”, disse Murillo Kraus, representante da Iguale.

Quanto aos recursos utilizados durante as sessões, a legenda descritiva aparece em primeiro lugar, seguida por audiodescrição e sessões específicas para TEA. Apesar disso, a avaliação geral indica lacunas no atendimento das demandas. Entre pessoas com deficiência auditiva, 39% afirmam que as necessidades não são atendidas.

Falhas técnicas também impactam a experiência. Cerca de 43% afirmaram já ter interrompido o uso de recursos por problemas de suporte ou sincronização. Relatos apontam dificuldades como necessidade de dividir a atenção entre celular e telão, ausência de legendas em filmes nacionais e problemas de sincronia na audiodescrição.

Sob a ótica estratégica, o estudo sugere que a evolução da acessibilidade no cinema brasileiro passa não apenas pela tecnologia, mas pela coordenação entre produção, distribuição, exibição e comunicação.

Diante desse cenário, apenas 25% dos respondentes avaliam a experiência de ir ao cinema como razoável ou ótima. A maioria recomenda a atividade com ressalvas, indicando a necessidade de melhorias ao longo de toda a jornada de consumo cultural.

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