29 Maio 2026 | Gabryella Garcia
Políticas públicas do audiovisual devem entender que territórios fazem parte do Brasil
Painel no Rio2C abordou como diferentes territórios podem potencializar as narrativas audiovisuais brasileiras
O painel "A Força dos Territórios na Indústria Audiovisual", realizado nesta sexta-feira (29) no Rio2C 2026, discutiu como diferentes territórios podem potencializar as narrativas audiovisuais brasileiras e quais são os principais desafios encontrados por essas produções. Aletéia Selonk, CEO e fundadora da Okna Produções, localizada em Porto Alegre (RS), pontuou que é preciso ter em mente que o Brasil não se resume apenas a Rio de Janeiro e São Paulo, que concentram 80% das produções nacionais, mas que um grande conjunto de territórios e ecossistemas é que constroem o que conhecemos como Brasil. Milena Anjos, gerente de audiovisual da Secult Salvador, e Tayana Pinheiro, sócia e produtora-executiva da Marahu Filmes, de Belém (PA), também participaram da discussão.
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Em relação às políticas públicas destinadas ao setor, Anjos destacou que o regionalismo ainda é um grande desafio, como se territórios fora do eixo não fossem parte do país."Também fazemos parte do todo e o maior desafio é pensar em políticas públicas entendendo o território como ele é. Não dá para fazer política pública sem entender o que de fato é um território e assim as políticas não são efetivas". Ela ainda citou uma experiência quando sua cidade natal, Valença, no interior da Bahia, foi contemplada pela Lei Paulo Gustavo e não executou todo o montante recebido. "A cidade não deu conta de executar, devolveu o valor e ficou conhecida como a cidade que não dá conta e não precisa de incentivo. Precisamos de dados assertivos para políticas públicas, para não sermos olhados como um território que não consegue dar conta das demandas", completou.
A executiva da Okna Produções concordou, dizendo que "mesmo fora do eixo existe um conjunto de ecossistemas que constroem o Brasil" e que é essencial que as políticas públicas entendam esse conceito. Para ela, são os diferentes territórios que possibilitam um audiovisual diverso, com diferentes tipos de produtos e narrativas. "Temos que desenvolver o mercado local, mas sem perder de vista as articulações com os mercados nacional e internacional, para não sairmos da rota da sustentabilidade. Quando falamos de territórios falamos de uma diversidade de expressão que ultrapassa o tema paisagem. Território é muito mais que uma paisagem", argumentou.
Pegando esse gancho, Tayana Pinheiro citou uma longa caminhada para que a narrativa amazônica não seja reduzida ao cenário, e por isso há uma necessidade constante de investir em processos de formação. Nesse sentido de capacitação, ela também citou a importância das coproduções como forma de "colaboração mútua" para o desenvolvimento profissional.
"É muito importante o estabelecimento de redes e cada vez mais pensamos em coproduções. Cada vez mais pessoas estão interessadas em nossas narrativas e também estão entendendo a importância da colaboração mútua para também saberem onde estão pisando, onde vão filmar, e terem um espaço de respeito com o local. A comunicação entre as partes é muito importante, porque a coprodução é como um casamento, e quando falamos de cinema e audiovisual vão vir problemas. A formação é importante também porque se não produzir com qualidade vai levar porrada, e temos que entender como a engrenagem gira para ela não passar por cima da gente", alertou.
Selonk também ressaltou a importância do intercâmbio criativo para o desenvolvimento do audiovisual em diferentes territórios, destacando que, na ausência de articulações externas, é essencial fazer essa troca dentro do próprio território e criar um sentimento de pertencimento que potencialize as histórias. "Temos nosso próprio ecossistema em nossos territórios e também nos fortalecemos nas articulações internas para pensar como o mercado local pode se fortalecer a partir de formação, pesquisa e consolidação de dados. Isso gera ocupação e resistência e percebemos que muita coisa pode ser produzida e compreendida a partir daquela rede de apoio. Isso nos faz posicionar de maneira diferente quando buscamos articulações com os demais territórios."
A gerente de audiovisual da Secult destacou que Salvador passa por um momento de fortalecer as produções locais, pois há diversos profissionais competentes no local. "Construímos políticas para também atrair produções que possam contribuir para o nosso desenvolvimento. Estamos construindo uma estrutura para receber produções e nossos realizadores têm competência para acolher essas produções. Levar uma equipe de fora não faz sentido e não gera renda para a cidade. Temos que nos provar competentes repetidamente."
Por fim, Anjos destacou que a criatividade é inesgotável dentro dos territórios, mas não basta ter as narrativas se não houver espaço para elas existirem. "Não faz sentido o pensamento criativo se não criarmos uma estrutura para o espaço criativo existir. Precisamos construir ainda mais políticas públicas e formar nos próprios territórios para não perdermos os talentos para outros lugares", finalizou.
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