O cérebro no controle: a ciência por trás da frequência no cinema
Conceitos da neurociência e da economia comportamental podem dar pistas para estratégias de atração e fidelização do público
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(Foto: Reprodução)
Dados recentes indicam que, mesmo em um cenário de mudança no consumo audiovisual, a ida ao cinema continua sendo percebida como uma experiência valiosa pelo público. De acordo com levantamento apresentado em abril pela Global Cinema Federation, 73% dos espectadores consideram isso importante para seu bem-estar e 52% recomendariam fortemente essa experiência a outras pessoas. O estudo indica também que apenas 7% dos entrevistados preferem assistir a filmes em casa. Atributos como qualidade de imagem e som (61%), telas grandes (57%) e conforto (56%) são destacados como fatores de alto valor para o público.
No entanto, há sinais de redução ou estagnação na frequência. Segundo o mesmo estudo, em média, os espectadores assistem a 2,2 filmes a menos por ano nos cinemas em comparação com períodos anteriores. Outros levantamentos internacionais confirmam que o consumo doméstico se tornou mais recorrente, sustentado principalmente por fatores como conveniência, custo e facilidade de acesso.
Para compreender como esses fatores se manifestam na percepção do público brasileiro, foi realizada, no âmbito desta reportagem, uma pesquisa com frequentadores de salas de cinema na região Sudeste do país. O levantamento contou com 65 participantes, majoritariamente pessoas mais maduras (72,3% dos respondentes têm mais de 45 anos), com pós-graduação (58,5%) e faixa de renda acima de R$ 5 mil mensais (72,3%). Ainda assim, apenas 32,3% dos participantes afirmaram ir ao cinema uma vez por mês ou mais, enquanto 36,9% frequentam as salas a cada dois ou três meses e 30,8% declararam ir raramente.
E isso não acontece por falta de percepção de valor: para 66,2%, a experiência no cinema é “muito mais intensa” do que assistir em casa, e para 27,7% “um pouco mais intensa”. Ou seja, mais de 90% dos participantes da pesquisa reconhecem um ganho emocional na experiência em sala. E os dados indicam uma forte associação com elementos ligados à experiência sensorial e emocional.
Entre as respostas mais recorrentes à pergunta sobre os fatores que influenciam a ida ao cinema, destacam-se a qualidade da imagem e do som (93%), o conforto da sala (86%) e o atendimento (58%). Já entre os fatores que mais prejudicam a experiência estão as distrações, como conversas, luzes e uso do celular (77%). Quando comparada ao consumo doméstico, 78,4% dos participantes disseram ter uma atenção “muito mais focada” no cinema, enquanto outros 13,8% indicaram uma atenção “um pouco mais focada”.
Além disso, 70,7% afirmaram que ter uma boa experiência no cinema aumenta muito a vontade de voltar, indicando que a vivência positiva deveria funcionar como um indutor de recorrência. No entanto, diversos fatores desestimulam a ida ao cinema. O preço aparece como principal barreira, citado por 56,9%, seguido pela falta de tempo (43%). Outros aspectos incluem o conforto de assistir em casa (26,1%) e o comportamento do público nas salas (23%).
Um dos assuntos mais falados entre os profissionais da indústria audiovisual nos últimos tempos é a importância de que os filmes tenham mais tempo exclusivo nas salas de cinema antes de serem disponibilizados nas plataformas de streaming. A questão é que, como mostram as pesquisas, fatores como tempo disponível, conveniência, esforço percebido e contexto pesam muito nessa escolha e, muitas vezes, falam mais alto do que a qualidade da experiência em si. Portanto, mais do que compreender por que as pessoas gostam de ir ao cinema, é fundamental entender por que elas não vão com a frequência que dizem desejar. E tudo isso está muito relacionado a como o cérebro humano funciona.
Onde entra a neurociência
Na obra O Erro de Descartes, António Damásio questiona o modelo dualista de René Descartes, que colocava razão e emoção como dimensões opostas do comportamento humano. A partir de estudos neurológicos e observações clínicas, o neurocientista português argumenta que pensar e sentir são processos integrados, e que as emoções são fundamentais para as tomadas de decisão, funcionando como marcadores somáticos que orientam escolhas a partir de experiências anteriores.
Marcadores somáticos são como sinais emocionais que o corpo usa para indicar se algo é bom ou ruim, antes mesmo de pensarmos racionalmente. Segundo Damásio, experiências passadas deixam registros no organismo que se manifestam como sinais emocionais e corporais, influenciando decisões futuras de forma rápida e nem sempre consciente.
No caso do cinema, experiências intensas podem gerar marcadores somáticos associados ao prazer, à imersão e ao envolvimento emocional, contribuindo para a construção de um alto valor percebido. No entanto, os dados analisados aqui indicam que embora o componente emocional tenha peso, ele não é suficiente para fazer com que esse comportamento se repita. Isso sugere que os marcadores somáticos influenciam a forma como a experiência é percebida, mas sozinhos não determinam a ação.
Uma possível explicação para isso está na Teoria do Pensamento Inconsciente, dos psicólogos Ap Dijksterhuis e Loran Nordgren. De acordo com eles, nem todas as decisões são conduzidas por processos conscientes e deliberativos. Em contextos de maior complexidade, com múltiplas variáveis a serem consideradas simultaneamente, o pensamento inconsciente pode desempenhar um papel decisivo.
A teoria foi apresentada em 2006 e gerou polêmicas, justamente por questionar o valor da racionalidade nas decisões. A ideia central é que o inconsciente consegue integrar um número maior de variáveis, mesmo quando a pessoa não está pensando ativamente nelas. Além disso, sugere que o pensamento inconsciente é fortemente sensível ao contexto. Ou seja: elementos como ambiente, estado emocional momentâneo e estímulos disponíveis influenciam a forma como informações são processadas, muitas vezes sem que o indivíduo tenha essa consciência. Isso significa que a decisão final não é necessariamente o resultado de uma avaliação racional.
É possível associar essa conclusão à teoria do pensamento dual de Daniel Kahneman - diferente da dualidade defendida por Descartes e questionada por Damásio, pois não se trata de separar razão e emoção, e sim de diferentes formas de processamento cognitivo. Segundo o psicólogo e economista israelense-americano, as decisões são resultado da interação entre dois sistemas: um deles é rápido, automático e intuitivo (Sistema 1), o outro é mais lento, deliberativo e racional (Sistema 2).
Quando falamos em consumo audiovisual, a preferência declarada pelo cinema pode ser associada ao Sistema 2, que reconhece o valor da experiência. Mas ele demanda mais atenção, tempo e esforço mental, e o cérebro tende a recorrer com maior frequência ao Sistema 1, que privilegia soluções imediatas e de menor esforço. Por isso, mesmo quando a pessoa reconhece o valor da experiência, muitas vezes ela tende a privilegiar alternativas que exigem menos esforço, como o consumo doméstico via streaming.
O paradoxo da escolha
A economia comportamental oferece outras chaves para entender essa relação entre esforço e recompensa. Essa abordagem parte da ideia de que nossas escolhas são atravessadas por vieses, limites cognitivos e pelo contexto em que acontecem, como também argumenta Kahneman. Por isso, não decidimos a partir de uma avaliação perfeita das alternativas, mas com base em atalhos mentais que reduzem esforço e complexidade.
Dentro dessa lógica, o cérebro tende a operar a partir de uma avaliação implícita entre o benefício esperado e o custo percebido de cada escolha. No caso do consumo audiovisual, mesmo que o cinema ofereça uma recompensa maior em termos de experiência, o esforço necessário – incluindo deslocamento, tempo e planejamento – pode reduzir sua atratividade em comparação com alternativas mais acessíveis e imediatas.
E quando as opções se multiplicam, entra em cena o chamado paradoxo da escolha, conceito desenvolvido pelo psicólogo estadunidense Barry Schwartz. Ele diz que um grande número de alternativas pode, por um lado, dificultar a tomada de decisão, e por outro, diminuir a satisfação com a escolha realizada. Em outras palavras, ainda que possa ser positivo, o excesso de opções também pode gerar sobrecarga cognitiva, levando o indivíduo a evitar decisões mais complexas ou a optar por soluções mais simples.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que, diante de múltiplas possibilidades de consumo – diferentes títulos, horários e plataformas –, o espectador tende a privilegiar alternativas que exigem menor esforço decisório. Assistir a um filme em casa torna-se uma escolha com menor custo cognitivo em comparação com a ida ao cinema, que depende de um conjunto de condições mais específicas e às vezes mais difíceis.
No ambiente das plataformas de streaming, algoritmos organizam conteúdos de modo a antecipar preferências, reduzir barreiras, destacar recomendações e facilitar a continuidade do consumo por meio de recursos como reprodução automática. Isso tudo ajuda a diminuir a necessidade de decisão deliberada e favorece escolhas rápidas e de baixo esforço cognitivo. Dessa forma, o ambiente digital não atua apenas como um espaço de oferta de conteúdo, mas como um sistema que organiza e orienta comportamentos.
A teoria da arquitetura da escolha, desenvolvida por Richard Thaler e Cass Sunstein, é outro conceito da economia comportamental que ajuda a entender esse processo, ao mostrar que a maneira como as opções são apresentadas interfere diretamente na decisão. De acordo com os autores, indivíduos não escolhem em ambientes neutros: a organização das alternativas, a ordem em que são apresentadas e os estímulos disponíveis no momento da decisão tendem a direcionar o comportamento, muitas vezes de maneira automática. No digital, os algoritmos funcionam como arquiteturas de escolha, tornando determinadas ações mais prováveis do que outras.
E o hábito pode ser analisado a partir do modelo proposto por B. J. Fogg: a fórmula B = MAP (Behaviour = Motivation + Ability + Prompt). Segundo o autor, um comportamento acontece quando motivação, capacidade e estímulo convergem no mesmo momento. No caso do streaming, esses três elementos tendem a operar de forma simultânea:
- a motivação pode surgir a partir do desejo de relaxar, se distrair ou assistir a um conteúdo específico;
- a capacidade de execução é alta, já que o acesso ocorre de maneira imediata;
- plataformas digitais oferecem gatilhos constantes (notificações, recomendações personalizadas e reprodução automática), que estimulam continuamente o consumo.
Já a ida ao cinema apresenta uma dinâmica diferente, pois embora a motivação possa ser igualmente elevada, a capacidade de execução tende a ser menor e os estímulos costumam ser menos imediatos e menos integrados ao cotidiano.
Jornada do cliente, persuasão e influência
Mais do que uma decisão pontual, a ida ao cinema pode ser compreendida como um processo que se desenrola ao longo do tempo e envolve diferentes etapas desde a intenção inicial até a ação. Nesse percurso, a escolha pode se enfraquecer ou ser interrompida a cada novo ponto de decisão, que inclui a escolha do filme, a definição do horário, a organização do tempo disponível e o deslocamento até a sala.
Cada uma dessas etapas introduz pequenas barreiras que, somadas, aumentam a probabilidade de adiamento ou substituição da experiência. Por outro lado, o consumo doméstico elimina grande parte dessas etapas, permitindo que a decisão e a ação ocorram quase simultaneamente. Essa diferença estrutural ajuda a explicar por que, mesmo quando existe intenção, o comportamento nem sempre se concretiza. Assim, o desafio não está apenas em gerar interesse pela experiência cinematográfica, mas em reduzir as barreiras nessa jornada.
Como vimos até aqui, de modo geral, o cérebro favorece escolhas que demandam menos esforço mental. Portanto, o desafio é desenhar uma jornada que reduza barreiras práticas e mentais, tornando a ida ao cinema mais viável no contexto real da vida cotidiana. Assim, facilitar o acesso à informação, reduzir o número de etapas necessárias para a compra, oferecer opções mais claras e objetivas, com recomendações ou curadoria, podem ajudar a reduzir a carga decisória e gerar mais recorrência.
Além disso, criar condições que favoreçam a decisão no “agora”, como estímulos que ativam a ação no momento oportuno: avisos de estreia, lembrete de última sessão, promoção válida “hoje”, alerta de ingressos quase esgotados, notificação de sessões começando em breve e compra rápida para o mesmo dia.
E as estratégias de persuasão e influência também desempenham papel relevante nesse percurso, já que a forma como a experiência é comunicada, os estímulos utilizados e a construção de valor percebido têm influência direta na intenção de consumo. Segundo Robert B. Cialdini, a prova social, a autoridade e a escassez são alguns dos gatilhos que ajudam nesse sentido.
A prova social baseia-se na tendência de observar o comportamento de outras pessoas como referência para a própria escolha. No caso do consumo audiovisual, rankings, bilheterias, avaliações e recomendações funcionam como indicadores que validam a escolha e aumentam a probabilidade de interesse. Já a autoridade seria a credibilidade atribuída a especialistas, críticos ou veículos reconhecidos, influenciando a percepção de qualidade e relevância de uma obra. E a escassez explora a percepção de limitação – seja de tempo, disponibilidade ou acesso – para aumentar o valor atribuído a uma experiência.
Esses mecanismos ajudam a simplificar a decisão, reduzem dúvidas e reforçam o valor percebido da experiência. No entanto, sua eficácia depende da capacidade de criar condições para que ir ao cinema seja a escolha no momento em que surge o desejo de assistir a um filme.
Os dados e teorias apresentados aqui indicam que o papel dos exibidores deve envolver não apenas a construção de desejo, mas a redução das barreiras que separam intenção e comportamento. Isso significa pensar a experiência não apenas como algo desejável, mas como algo viável dentro da rotina das pessoas.
Atrair o público para as salas não depende apenas de convencer que ir ao cinema vale a pena. Isso, em grande medida, já se sabe. O desafio maior está em desenvolver campanhas, curadorias, recomendações e estímulos de urgência, que tendem a ser mais eficazes quando acompanhados de condições que facilitem a concretização da escolha.
*Essa matéria é uma adaptação de estudo produzido para obtenção do certificado de conclusão do MBA em Neurociência, Consumo e Marketing pela PUC-RS, aprovado em junho de 2026