Disney: "Acreditamos profundamente em histórias locais com potencial de alcance global"
Em entrevista exclusiva ao PORTAL EXIBIDOR, distribuidora detalhou estratégia para filmes nacionais
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(Foto: Divulgação)
A Disney é responsável por alguns dos maiores sucessos de bilheteria no Brasil em 2026, com filmes como O Diabo Veste Prada 2 (6,87 milhões), Avatar: Fogo e Cinzas (3,48 milhões) e Zootopia 2 (3,4 milhões), além de Toy Story 5, que fez a segunda maior abertura do ano no último final de semana. O grande desempenho dos títulos de Hollywood, entretanto, não significa que o estúdio não está de olho e investindo nas produções nacionais.
Apostando em uma forte conexão com o público, seja por grandes histórias, nostalgia ou valorização da experiência cinematográfica, a companhia prepara campanhas de marketing robustas para Se Eu Fosse Você 3 (7/9), 100 Dias (29/10) e Nosso Lar 3: Vida Eterna (21/1/27). "Esses três títulos, em especial, contam com campanhas de grande escala", conta Bruno Bluwol, diretor de produções locais da Disney. “'Se Eu Fosse Você 3' é um IP amplamente reconhecido, com forte apelo afetivo junto ao público. '100 Dias' adapta um livro de grande sucesso e ganha agora uma versão para o cinema à altura — um filme emocionante, visualmente marcante e fiel às expectativas. Já 'Nosso Lar 3' dá continuidade a uma franquia consolidada, que levou 1,7 milhão de espectadores aos cinemas em 2024. Tanto '100 Dias' quanto 'Nosso Lar 3' também se destacam pelo alto nível de efeitos visuais e especiais, trazendo uma experiência cinematográfica ainda mais imersiva."
Além dessas três grandes apostas, o executivo cita outros projetos que estão em diferentes estágios de produção, incluindo Na Linha de Fogo, dirigido por Afonso Poyart, e No Jardim do Ogro – ambos frutos de uma parceria de coprodução inédita com a Globo –, além de A Grande Virada, nova comédia de Halder Gomes; A Arte do Roubo, um filme de ação de Marcos Jorge; Ataque ao Metrô, de Maurício Eça; Saltimbancos, a nova animação de Carlos Saldanha; e Encontrada, que é a sequência de Perdida (2023).
Em entrevista exclusiva ao PORTAL EXIBIDOR, Bluwol falou sobre a importância de histórias nacionais na estratégia da empresa, a valorização dos talentos locais e o que faz uma produção ultrapassar as fronteiras geográficas. Confira na íntegra:
EXIBIDOR: Celebrando o Dia do Cinema Brasileiro, vemos o mercado em um momento de extremos: por um lado, o sucesso recente de grandes fenômenos de bilheteria, como Ainda Estou Aqui, O Auto da Compadecida 2 e O Agente Secreto; por outro, apenas quatro filmes nacionais superaram 100 mil ingressos em 2026 até o momento, contra mais de 40 estrangeiros com a mesma marca. Como a Disney enxerga o atual momento do nosso cinema e qual é o peso estratégico do portfólio brasileiro dentro dos planos globais da companhia hoje?
Bruno Bluwol: O conteúdo local vem ganhando cada vez mais relevância para a companhia em diversos mercados. Acreditamos profundamente em histórias locais com potencial de alcance global. Nosso primeiro filme brasileiro foi lançado em 2003 e, desde então, temos demonstrado de forma consistente como o conteúdo nacional pode viajar, com diversos casos bem-sucedidos em vendas internacionais. O Brasil é um mercado estratégico para nossas iniciativas de produções locais, tanto pela riqueza criativa quanto pela capacidade de gerar histórias com forte conexão cultural e potencial para viajar além das fronteiras do país.
O momento atual do cinema, no entanto, exige mais. Já não basta contar boas histórias com alta qualidade de produção e experiência cinematográfica. É fundamental gerar conversa, criar identificação e conexão com o público. Os exemplos citados conseguiram fazer isso de forma muito potente, rompendo a bolha e alcançando diferentes audiências — mas esse continua sendo um desafio para toda a indústria. Por isso, seguimos atentos a novas formas de aproximar essas histórias do público.
EXIBIDOR: Diante desse cenário, onde a maioria dos filmes nacionais luta para conquistar o público, como funciona a curadoria da Disney para produções brasileiras? O que faz um projeto ser escolhido para investimento e como identificar e valorizar histórias locais que tenham um real potencial de alcance amplo?
BB: Nosso foco está em desenvolver filmes que transmitam uma sensação genuína de originalidade — que não pareçam apenas mais do mesmo. Buscamos histórias com propostas claras e marcantes, capazes de, em uma única frase, gerar compreensão imediata e despertar o desejo de assistir.
Para as produções brasileiras, também valorizamos histórias que carreguem uma identidade local autêntica, seja por meio dos personagens, do contexto, da cultura ou dos temas abordados. Acreditamos que histórias autenticamente brasileiras têm o potencial de levar nossa cultura, nossos personagens e nossos olhares para diferentes partes do mundo.
EXIBIDOR: Hoje a Disney atua fortemente no circuito comercial das salas de cinema e também no streaming. Ao avaliar o portfólio brasileiro, qual é a fronteira que separa esses dois mundos? Que elementos narrativos ou comerciais são inegociáveis para que o estúdio decida que um filme nacional tem a envergadura necessária para enfrentar a competição das bilheterias?
BB: Cinema e streaming oferecem experiências distintas, mas complementares. Existe uma linha cada vez mais tênue entre os conteúdos pensados para cada janela, e seguimos atentos à evolução do comportamento do público. O Disney+, por exemplo, amplia as possibilidades de acesso e descoberta dessas histórias, permitindo que diferentes perfis de audiência encontrem conteúdos brasileiros de forma contínua.
Ao mesmo tempo, seguimos acreditando no papel fundamental da experiência cinematográfica e no valor da janela de exibição para o desenvolvimento sustentável do mercado. Todos os nossos filmes são lançados primeiro nos cinemas, respeitando uma janela que valoriza a experiência nas salas e contribui para fortalecer todo o ecossistema da exibição cinematográfica.
Nosso objetivo é manter um portfólio diverso, sem padronizar narrativas. Ao mesmo tempo, reconhecemos que alguns elementos comerciais — como elenco, direção, IP conhecido ou histórias reais — agregam força aos projetos. Naturalmente, não é necessário reunir todos esses fatores em um único filme, mas entender como combiná-los de forma estratégica é parte essencial do processo.
EXIBIDOR: O setor debate há anos a insuficiência de recursos para a circulação das obras brasileiras. A Buena Vista International tem um trabalho essencial dentro da Disney para a distribuição global de seus filmes. Como funciona essa parceria no mercado brasileiro e como a companhia atua na produção e coprodução de longas nacionais que vão para os cinemas?
BB: Atuamos de forma ativa em todos os projetos do nosso portfólio, independentemente do modelo de negócio — que, por natureza, é bastante diverso. Estamos presentes em todas as etapas, do desenvolvimento à pós-produção, sempre em parceria com os talentos envolvidos. Também trabalhamos de forma integrada com nossas equipes de distribuição e marketing para construir estratégias que ampliem o alcance dos filmes e fortaleçam sua conexão com o público.
Valorizamos a liberdade criativa como princípio, e nosso papel é somar, contribuir com um olhar complementar, colaborar nas decisões estratégicas e construir cada projeto de forma conjunta.
EXIBIDOR: O desenvolvimento do audiovisual nacional não acontece apenas com o aumento da bilheteria, mas também com a valorização de quem faz o cinema acontecer. Como funciona a estratégia da Disney no investimento e na descoberta de talentos locais? Qual é o peso de apostar em novas vozes brasileiras, tanto na frente das câmeras quanto nos bastidores?
BB: A valorização de talentos é fundamental para o desenvolvimento sustentável do audiovisual. Por isso, fazemos questão de estar presentes nos principais eventos regionais de mercado e sessões de pitching. São nesses espaços que descobrimos novos talentos e iniciamos relações que, na maioria das vezes, se constroem no longo prazo.
Existe um valor enorme em acompanhar a evolução de profissionais e projetos ao longo do tempo. Muitas vezes vemos ideias amadurecerem a partir das trocas realizadas nesses encontros, mas também buscamos identificar vozes originais, novos olhares e histórias que possam contribuir para a renovação da indústria. Apostar em novos talentos, tanto na frente quanto nos bastidores, é parte importante desse processo.
EXIBIDOR: Hollywood se sustenta muito em IPs capazes de se reproduzir ao longo do tempo e que tragam histórias universais. O que falta para o cinema brasileiro deixar de depender de sucessos isolados e construir uma presença mais consistente não apenas nas bilheterias nacionais mas também no mercado internacional?
BB: O Brasil tem talentos extraordinários e produz filmes de alta qualidade, mas, muitas vezes, o desafio está em fazer esses filmes encontrarem seu público. Muitos lançamentos ainda enfrentam o desafio de construir reconhecimento e conexão com o público a cada nova estreia, justamente pela ausência de um fluxo contínuo de títulos relevantes para diferentes perfis de audiência. Essa consistência não se constrói de forma imediata — é um processo de longo prazo, que depende de regularidade e presença constante no mercado.
EXIBIDOR: Historicamente, debate-se muito a necessidade de alinhar os interesses de produtores, distribuidores e exibidores. O que ainda falta para unir de fato esses elos? Como a Disney avalia e atua na integração dessa cadeia no Brasil?
BB: Todas as áreas da empresa participam ativamente de eventos e fóruns de alinhamento da indústria. Acreditamos em uma atuação colaborativa como caminho para o crescimento sustentável do setor. No relacionamento com produtores, por exemplo, buscamos ir além da discussão de novos projetos. Mantemos um diálogo constante sobre o mercado, trocando visões e experiências que contribuem diretamente para a evolução contínua da nossa forma de trabalhar.