Mediterrane Film Festival coloca Malta no mapa do audiovisual e impulsiona economia local
País se tornou destino recorrente para produções de Hollywood e audiovisual já gerou € 1,5 bilhão desde 2018
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(Foto: Divulgação)
Criado pela Malta Film Commission e crescendo ano após ano, a quarta edição do Mediterrane Film Festival, realizado anualmente em Valletta, Malta, terminou no último dia 28 de junho e colocou definitivamente a pequena ilha no mapa do audiovisual global. O festival abriu as inscrições para produções de todo o mundo pela primeira vez em 2026. O evento se tornou um dos motores da economia local, e desde 2018 a indústria cinematográfica gerou € 1,5 bilhão em valor agregado bruto para a economia maltesa.
Ainda antes do encerramento do festival, Johann Grech, comissário de cinema de Malta, concedeu entrevista ao Celluloid Junkie para falar sobre o momento do audiovisual no país, além do crescimento do evento.. Após a participação ser restrita apenas para países do Mediterrâneo nos dois primeiros anos, no terceiro o festival se abriu para toda a Europa e, neste ano, para todo o mundo. "Malta sempre foi estratégica em nossa história. Sempre fomos estratégicos. E queremos que este festival seja tão estratégico quanto a própria Malta, para atrair negócios para cá, para participar do cenário global, para construir esta marca e continuar competindo."
Para ele, além do propósito de oferecer um ótimo cinema ao público, o festival se destaca - e cresce - pelo marketing e pela missão de buscar e trabalhar em coproduções. O Mediterrane Film Festival é visto pelo comissário como uma ferramenta estratégica de negócios para Malta atrair mais investimentos e apresentar sua produção local para produtores, diretores, executivos de estúdio, cineastas e imprensa de todo o mundo. "Sempre tivemos sucesso em trazer cineastas para filmar suas histórias aqui, mas a indústria era sazonal. Quando me tornei comissário, não estava satisfeito com o status quo. Você está feliz com 200 pessoas trabalhando apenas por um período muito curto? Não. E hoje temos mais de 1.800 pessoas trabalhando no cinema, a maioria delas o ano todo, de uma produção para outra."
Mas, ainda antes da criação do festival, Malta já começou a repensar o audiovisual local em 2018, quando lançou um programa de reembolso de 40%, um dos mais competitivos da Europa. Um estudo independente elaborado pelo diretor de economia do Banco Central de Malta revelou que, desde então, a receita tributária gerada pela atividade cinematográfica superou em muito o custo dos reembolsos.
Entre outras constatações, o levantamento revelou que o benefício fiscal líquido para o governo maltês totalizou € 94 milhões entre 2018 e 2025. Em comparação com o período entre 2005 e 2017, esse valor quadruplicou, passando de cerca de € 3 milhões para € 12 milhões anualmente. "Para cada euro que investimos, a indústria gera quatro de volta", explicou Grech. "Apoiamos o financiamento do nosso país e, portanto, não somos um fardo para o contribuinte. Aliás, em 2023, a indústria cinematográfica representou um sexto do crescimento econômico de Malta."
Muito além do turismo
Malta possui pontos turísticos belíssimos como Valletta, Mdina, Blue Lagoon, Marsaxlokk e Blue Grotto, mas desde que adotou um olhar estratégico para o audiovisual, a pequena ilha se tornou muito mais do isso, um verdadeiro polo cinematográfico. Nos últimos anos o país recebeu grandes produções de Hollywood para filmagens como Jurassic World: Domínio (Universal), Jurassic World: Recomeço (Universal), Napoleão (Sony) e Gladiador II (Paramount). "Estamos tendo uma fidelização de clientes", disse Grech.
Um dos grandes trunfos para consolidar a posição de Malta no cenário mundial é que, durante o Mediterrane Film Festival, além das exibições de filmes, painéis e masterclasses, também são oferecidas visitas guiadas aos Estúdios de Cinema de Malta e à própria ilha, permitindo que diretores, produtores, gerentes de locação e outros profissionais conheçam potenciais projetos e percebam o que Malta tem a oferecer.
Um exemplo do sucesso da estratégia é que o cineasta britânico Stephen Poliakoff, que participou do festival neste ano, aproveitou para procurar locações para seu próximo thriller político em oito partes, The Order, uma adaptação do romance do autor maltês Peter Portelli. Ambientada nos meses que antecederam o famoso Grande Cerco de Malta em 1565, a série está sendo produzida por Helen Flint.
O dinheiro que está sendo atraído para Malta também está sendo revertido em formação para profissionais locais. No final de junho, Grech anunciou um fundo de € 2 milhões para treinar e capacitar membros da equipe. "A mudança é um processo, não um fim. E tomaremos medidas ainda mais ousadas para garantir que estamos consolidando e assegurando que este modelo de criação de uma indústria cinematográfica de classe mundial seja bem-sucedido e sustentável."
Parte dos planos para o futuro ainda incluem a construção de um superestúdio de som da Malta Film Studios, projetado para oferecer às produções cinematográficas ambientes tanto em terra quanto no mar. Com as licenças e aprovações governamentais já obtidas, este é mais um passo importante na evolução do país como um destino fundamental para produções cinematográficas. "Será algo inédito no mundo. Trata-se de construir, de criar uma indústria cinematográfica sustentável e de classe mundial. Temos a visão, temos a motivação, temos o compromisso e vamos fazer acontecer", encerrou Grech.