24 Julho 2026 | Yuri Cavichioli
Bonito CineSur aposta em formação e circulação para integrar o audiovisual sul-americano
Festival reúne 32 filmes, cerca de 150 convidados e atividades voltadas ao mercado
A quarta edição do Bonito CineSur - Festival de Cinema Sul-Americano começa hoje (24/7) e segue até 1º de agosto, em Bonito, Mato Grosso do Sul, com 32 títulos nas mostras competitivas. A seleção reúne longas e curtas sul-americanos, que concorrem ao Troféu Pantanal, premiação oficial do festival concedida pelo júri oficial e pelo júri popular, com algumas categorias contemplando também premiação em dinheiro. A curadoria reforça o espaço para o intercâmbio cultural sul-americano e para a valorização de histórias conectadas às questões ambientais e sociais do continente.
Realizado pela primeira vez em 2023, o Bonito CineSur já recebeu mais de três mil inscrições ao longo de suas edições, entre longas e curtas-metragens da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Desde a edição inaugural, houve um crescimento de 37% no número de inscritos, passando de 657 para 905 obras disputando espaço na programação.
O público também acompanhou essa trajetória de crescimento, passando de 4.200 pessoas presentes na estreia para 9.000 espectadores em 2025, um aumento de 114% em três edições. No total, mais de 18.200 pessoas já passaram pelas atividades do evento.
A programação também inclui o CineSur Educa, braço formativo do evento, composto por palestras, oficinas e debates. Entre os convidados estão João Moreira Salles, Vincent Carelli, Paulina García, Bianca Comparato, Gabriela Sandoval, Minom Pinho e profissionais ligados à aquisição, ao licenciamento e à produção audiovisual.
Em entrevista ao PORTAL EXIBIDOR, Nilson Rodrigues, idealizador do Bonito CineSur, falou sobre o crescimento das produções ambientais, a participação da população local, a relação entre audiovisual e turismo e as barreiras que dificultam a circulação de obras sul-americanas dentro do próprio continente. Confira:
EXIBIDOR: O Bonito CineSur tem uma identidade ligada às questões ambientais. Como esse recorte influencia as decisões de curadoria e a escolha dos convidados?
Nilson Rodrigues: O festival se propõe a ser uma espaço de exibição da mais recente produção cinematográfica sul-americana, propiciar encontros dos profissionais e ser uma referência de debates e reflexões sobre os vários aspectos que envolvem a atividade no nosso continente. A mostra ambiental é uma das mostras. Por ser em Bonito, achamos que seria essencial criar um espaço que colocasse o audiovisual como espelho das grandes questões ambientais que afligem o continente.
EXIBIDOR: Vocês percebem um crescimento na produção de filmes latino-americanos que abordam meio ambiente e mudanças climáticas?
NR: Cada país tem suas urgências e peculiaridades quando se trata do debate sobre questões ambientais. Já há algum tempo que vemos muitos filmes refletindo as preocupações ambientais nos seus países, nas suas localidades, especialmente documentários. A tendência é de crescimento dessas produções.
EXIBIDOR: Qual é o perfil do público que o festival busca atrair? Há estratégias específicas para aumentar a participação da população local e adjacente, além dos turistas?
NR: O festival já tem uma participação efetiva da população local. Queremos também que o turista participe e coloque na sua agenda o BonitoCineSur. Nossa divulgação, desde as inscrições dos filmes para as mostras competitivas, busca chamar a atenção para a oportunidade de se ver os novos filmes sul-americanos e de encontrar 150 convidados (aproximadamente) que participam do evento: realizadores, atores, atrizes, produtores e profissionais do setor.
EXIBIDOR: Bonito é um dos principais destinos turísticos do Brasil. Como essa característica influencia a estratégia do festival na atração de patrocinadores, parceiros e convidados?
NR: Estamos na quarta edição e ainda buscando caminhos para ter algo mais permanente nesse terreno arenoso que é a busca de patrocínios. Temos uma aliança com a prefeitura local, com o governo estadual e com o governo federal. Mas falta segurança, um calendário de investimentos que leve em conta que os projetos tem data para acontecer. Temos parceria também com empresas estatais e privadas. Mas tudo ainda é instável. Todos os anos, é preciso começar do zero.
EXIBIDOR: Quais têm sido os desafios para financiar e consolidar um festival de cinema fora dos grandes centros do país?
NR: Acho que todos os projetos culturais têm suas dificuldades. No caso do BonitoCineSur, há uma percepção de que algo relevante está sendo feito na direção de romper as barreiras que separam nossos países, de integração do audiovisual sul-americano. É claro que se fosse realizado numa capital seria mais fácil do ponto de vista logístico, mas Bonito é um atrativo já bastante conhecido. Portanto, isso soma ao festival, mesmo sendo mais difícil realizá-lo. Mas é importante articular a indústria do audiovisual, a cultura e o turismo.
EXIBIDOR: Os filmes exibidos no Bonito CineSur costumam encontrar novos caminhos de circulação após o festival? Há casos de obras que conquistaram novos festivais, distribuidores ou exibições comerciais?
NR: Queremos que o festival seja também esse espaço de visibilidade para as produções. Ano passado, o filme chileno que ganhou o troféu Pantanal de melhor filme pelo júri oficial na mostra sul-americana, o longa Oro Amargo, foi licenciado no Brasil pela distribuidora Imovision, cujo distribuidor estava presente e se interessou pela obra. Queremos avançar nesse sentido.
EXIBIDOR: Além das exibições, o festival investe em debates, oficinas e atividades de formação. Qual o peso dessas ações dentro do projeto e quais resultados vocês têm observado?
NR: Queremos contribuir com a formação dos que participam do festival. A universidade federal do Mato Grosso do Sul tem um curso de audiovisual cujos alunos participam do projeto e das oficinas formativas no festival. Há também oficinas dirigidas aos jovens e as crianças da cidade. É sempre uma oportunidade para todos os que estão no festival acessar as palestras e aulas de grandes profissionais do cinema. E há também debates políticos, pois queremos contribuir para que nossos países não sejam apenas um mercado de exibição dos filmes que vem majoritariamente dos EUA. Temos o direito de nos ver nas telas. Tudo isso faz parte de formação e de busca de saídas para o nosso cinema. Tudo forma.
EXIBIDOR: A programação reúne produções de diferentes países da América do Sul. Como o Bonito CineSur pretende fortalecer as conexões entre os mercados audiovisuais da região?
NR: Estimular encontros e coproduções entre nossos países faz parte dos nossos objetivos. Mas um festival deixa marcas para além daquilo que é tangível. Só o fato de podermos ver as produções sul-americanas e em um encontro como o Bonito CineSur já é algo relevante, um fato cultural, considerando o alto nível de ocupação das mídias pelas produções dos mercados hegemônicos. É só perguntar às pessoas quantos filmes bolivianos, equatorianos ou venezuelanos elas já viram que teremos a resposta do tamanho do isolamento a que estamos submetidos. Isso ocorre no Brasil e nos outros países da América do Sul, é a mesma lógica dominante que nos separa.
EXIBIDOR: Na sua avaliação, quais oportunidades ainda são pouco exploradas pelos festivais brasileiros quando o assunto é gerar impacto para o mercado audiovisual?
NR: Nenhum festival vai resolver a questão do mercado. As dificuldades de ocupação dos mercados internos em nossos países têm raízes profundas de ordem econômica, culturais e de regulação. Isso impacta na quantidade de filmes que produzimos e no nível de desenvolvimento técnico e artístico das nossas produções, além do hábito adquirido pelas nossas populações, que não têm acesso à diversidade de narrativas que espelhem nossas vidas em nossos países. Se fôssemos um bloco econômico, como é a Europa, sem barreiras, certamente mais filmes e outros produtos estariam circulando no continente.
EXIBIDOR: Quais indicadores vocês utilizam para medir o crescimento do Bonito CineSur e quais resultados desta edição já podem ser divulgados?
NR: O número de inscritos cresce a cada ano, o que sinaliza um maior interesse no festival. O público presente no evento, desde os moradores locais como os que vêm de outras cidades para acompanhar o projeto, cresce a cada ano. A mídia também já demonstra um interesse cada vez maior sobre a ideia de um festival que se realiza no coração da América do Sul, no Estado do Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com a Bolívia e com o Paraguai. Tudo isso indica que estamos avançando.
Confira a programação completa do Bonito CineSur em bonitocinesur.com.br.
Clique abaixo para ver ampliado:
- 0 medalha