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Artigo / Tendências & Mercado

26 Janeiro 2026

2026: O audiovisual em um mundo polarizado - responsabilidade, inteligência artificial e o valor insubstituível da criatividade humana

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O audiovisual sempre refletiu o seu tempo. Em 2026, esse reflexo se torna mais intenso — e mais delicado. Vivemos em um mundo marcado por polarização política, radicalização de discursos, desinformação e erosão da confiança nas instituições. Nesse contexto, o papel de quem cria histórias deixa de ser apenas o de entreter: passa a ser o de organizar sentidos, oferecer linguagem comum e criar espaços de escuta em meio ao ruído.



As grandes tendências do audiovisual para 2026 não podem ser lidas apenas sob a ótica de formatos, plataformas ou modelos de negócio. Elas estão profundamente conectadas à forma como a sociedade se comunica, se reconhece e se fragmenta.

Nunca foi tão fácil produzir e distribuir conteúdo. E nunca foi tão difícil sustentar narrativas complexas. Em um ambiente dominado por algoritmos, bolhas de opinião e recompensas baseadas em engajamento, histórias podem tanto reduzir o mundo a slogans quanto reintroduzir nuance, contradição e humanidade. 

Em 2026, cresce a demanda por narrativas que ajudem a compreender as motivações humanas por trás de atitudes extremas. Isso não significa neutralidade, nem ausência de ponto de vista. Significa responsabilidade narrativa. 

Essa responsabilidade narrativa se costura diretamente ao debate sobre a inteligência artificial, que já se estabeleceu como uma ferramenta significativa no audiovisual. O tema vem sendo amplamente discutido em eventos setoriais e em estudos que analisam sua integração aos fluxos de trabalho de produção, edição e criação. Especialistas destacam tanto o potencial de otimização quanto os desafios éticos e artísticos que a tecnologia impõe ao cinema e ao vídeo.

Esse debate já se traduz em uso concreto. Plataformas e estúdios empregam inteligência artificial para análise de roteiros e previsões de audiência; edição, correção de cor e efeitos visuais; dublagem e legendagem automatizadas; além da criação de cenários virtuais e cenas complexas antes inviáveis. 

Ou seja: a IA não é mais uma hipótese. Ela já está moldando a forma como as histórias são feitas.

Mas a inteligência artificial não é neutra — e esse é o ponto central do debate para 2026.

A IA aprende com dados históricos e padrões de comportamento. Em um mundo já polarizado, isso significa que algoritmos tendem a reforçar vieses existentes, privilegiar narrativas dominantes e favorecer conteúdos mais extremos, emocionais ou polarizadores, justamente porque esses performam melhor em métricas de engajamento.

Quando aplicada sem critério editorial, a inteligência artificial pode acentuar bolhas, reduzir complexidade e transformar conflitos humanos em fórmulas repetíveis. O risco não está na tecnologia em si, mas em delegar a ela decisões narrativas sem mediação humana.

A pergunta central, portanto, não é se devemos usar IA, mas quem decide, com quais dados, com quais limites e com qual responsabilidade.

Nesse cenário, a criatividade humana deixa de ser apenas um valor simbólico e passa a ser um ativo estratégico. É o olhar humano que escolhe o recorte, define o ponto de vista, percebe o que não está nos dados e sustenta ambiguidade moral, contradição e silêncio.

A inteligência artificial pode acelerar processos, democratizar ferramentas e ampliar possibilidades técnicas. Mas ela não vive conflitos, não carrega memória afetiva, não experimenta dilemas éticos. E é justamente isso que o público busca quando o mundo se torna mais extremo.

Em um ambiente fragmentado, o audiovisual segue sendo um dos poucos espaços capazes de criar experiência coletiva, gerar empatia e sustentar complexidades. Isso não é pouco. Isso é responsabilidade.

Criar histórias nunca foi um ato neutro. Em 2026, isso se torna um exercício de consciência. E talvez seja exatamente essa consciência — humana, imperfeita e sensível — o maior diferencial criativo do nosso tempo.

**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**

Sabrina Nudeliman Wagon
Sabrina Nudeliman Wagon

CEO e cofundadora da ELO STUDIOS, Sabrina Nudeliman Wagon é uma líder visionária no setor audiovisual, especializada em inovação, produção e distribuição de conteúdos impactantes. Sob sua gestão, a ELO STUDIOS distribuiu mais de 500 títulos brasileiros em mais de 100 países, incluindo o filme nacional mais assistido de 2022, Medida Provisória. Com passagens pela McKinsey & Co. e Edelman, Sabrina tem um histórico consolidado na formulação de estratégias de negócios, parcerias internacionais e expansão de mercado. Atua como Diretora-Geral da Aries Partners Holding, empresa voltada para investimentos em tecnologia e mídia, e é cofundadora da Women Leadership Association, reforçando seu compromisso com a diversidade e inclusão na indústria. Liderando iniciativas que unem criatividade e estratégia, Sabrina Nudeliman Wagon tem como missão transformar o audiovisual brasileiro, conectando histórias a audiências globais e impulsionando a inovação na indústria.

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