16 Janeiro 2026
Entre Pitchings, Rodadas e Mercado: Como Ler os Encontros de Negócio do Audiovisual Hoje
Lembro até hoje da minha primeira rodada de negócios como produtora. Lembro também da minha primeira rodada como player. As duas experiências foram boas, e não, nenhum negócio foi fechado em nenhuma delas. Afinal, não é assim que funciona.
Faço questão de começar por aí porque grande parte da frustração em torno das rodadas de negócio nasce de uma expectativa equivocada. Antes de falar em tendências, é fundamental alinhar o propósito real desses encontros de mercado, seja qual for o formato: rodadas one-to-one, pitchings, mentorias, meetups ou mesmo as conversas informais de corredor, da fila ou do cafezinho. Todos esses espaços são válidos. Todos fazem parte do mesmo jogo.
Quando alguém diz que rodada de negócio é “roubada”, quase sempre o problema não está no formato, mas na ausência de uma estratégia clara para aproveitá-lo — e, principalmente, na expectativa criada em torno dele. Raros projetos são fechados em reuniões de 20 minutos. Rodadas e pitchings não existem para gerar contratos imediatos, e sim para iniciar relações, testar aderência de mercado e posicionar projetos dentro do ecossistema audiovisual.
Rodada não é fim.
Rodada é começo.
No mercado atual, rodadas de negócio funcionam como um teste de realidade. É ali que o projeto sai do ambiente protegido do desenvolvimento e encontra o olhar de quem decide. Esse encontro permite entender, na prática, se a proposta desperta interesse, onde gera dúvidas, quais pontos precisam ser fortalecidos e como ela é percebida fora do círculo criativo que a construiu.
É por isso que, apesar de todas as críticas, as rodadas seguem sendo absolutamente essenciais. A única forma concreta de medir o potencial de um projeto é colocá-lo diante do mercado. O que mudou não foi a importância desses encontros, mas o contexto em que eles acontecem.
O audiovisual vive hoje um momento de maior maturidade e maior pressão por eficiência. Globalmente, o setor passa por consolidação, mudanças nos hábitos de consumo e uma disputa intensa pela atenção do público. Isso se reflete diretamente nas conversas de mercado. Projetos deixaram de ser avaliados apenas como obras isoladas e passaram a ser lidos como sistemas: quem é o público, como essa história se conecta com comportamentos reais, quais são as possibilidades de circulação, expansão e sustentabilidade ao longo do tempo.
A boa ideia continua sendo essencial, mas já não se sustenta sozinha. Sem estrutura, clareza de posicionamento e leitura de mercado, ela dificilmente avança em encontros de negócio.
Essa mudança fica muito evidente quando observamos os próprios eventos de mercado ao longo do ano. No primeiro semestre, encontros como o LatAm Content Meeting concentram discussões em torno da não-ficção, enquanto eventos como o Rio2C apresentam um olhar mais amplo sobre a indústria criativa, com forte presença internacional e debates que atravessam conteúdo, tecnologia e modelos de negócio. No segundo semestre, eventos mais focados ganham protagonismo, como o FRAPA, voltado ao desenvolvimento de roteiros e EXPOCINE que ocupa um lugar singular. Ela oferece algo raro: a possibilidade de escutar diretamente quem está mais próximo do público final — os exibidores. As informações que circulam ali sobre comportamento de audiência, hábitos de consumo e performance de filmes não são projeções abstratas; são dados concretos, ancorados na experiência cotidiana de quem lida com o público na ponta. Temos também mercados que vêm ganhando cada vez mais espaço como MAX Minas e outros encontros regionais que vêm se consolidando como espaços estratégicos.
Nesse contexto, uma das tendências mais claras é que o modelo de reunião isolada, no formato de “speed dating”, já não entrega sozinho o valor que o mercado exige. O movimento aponta para a construção de ambientes híbridos, nos quais rodadas, pitchings, encontros curados, mentorias, masterclasses e encontros informais se integram em jornadas mais longas de troca e desenvolvimento. Menos evento pontual, mais percurso.
Paralelamente, cresce a importância de demonstrar sinais de realidade. Não se trata de exigir números gigantescos ou audiências consolidadas, mas de mostrar que o projeto já foi testado de alguma forma, que existe uma hipótese clara de público, que há estratégias pensadas para lançamento e circulação. A pergunta que orienta muitas conversas deixa de ser apenas “qual é a história?” e passa a ser “qual é o modelo de negócio e como você demonstra que existe público?”.
Outras camadas começam a pesar nessas conversas. A integração de tecnologias, especialmente de inteligência artificial, passa a ser um fator de competitividade, seja na otimização de processos, seja na criação de novas formas de circulação e relacionamento com o público. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por projetos que dialoguem com a reinvenção das experiências ao vivo e da interatividade, em um contexto de retomada consistente desses formatos.
Há ainda um fator decisivo que muitas vezes passa despercebido: projetos apresentados hoje em rodadas de negócio dificilmente chegam ao público antes de alguns anos. Em muitos casos, estamos falando de 2028 ou além. Isso exige que produtores e criadores desenvolvam projetos olhando não apenas para o presente, mas para tendências de comportamento, consumo e modelos de negócio que estão se desenhando agora.
Na Transforma, essa leitura vem da prática. Atuamos diretamente na preparação de projetos e profissionais para rodadas de negócio e pitchings em eventos de mercado, e o que se confirma é que o diferencial não está em prometer atalhos ou contratos rápidos. Está em ajudar projetos a chegarem ao mercado preparados para o tipo de conversa que ele realmente propõe: mais estratégica, mais consciente e mais conectada com o público.
Rodadas funcionam quando são usadas com estratégia. Quando servem para construir relações, amadurecer projetos, ajustar posicionamento e desenvolver visão de longo prazo. Quando deixam de ser tratadas como uma aposta única e passam a ser entendidas como parte de uma trajetória.
Rodada não é fim.
Rodada é começo.
Para quem quer se preparar melhor para esse cenário, a Transforma oferece em sua plataforma um curso gratuito de preparação para rodadas de negócio, além de conteúdos contínuos sobre mercado, pitching e estratégias de negociação no audiovisual. Em um mercado cada vez mais exigente, entender o jogo é parte fundamental para ser relevante.
**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**

Dani Tolomei | dani@transformaplataforma.com
CEO e co-fundadora da Transforma. Com vasta experiência no audiovisual, Dani Tolomei já atuou em longas em NYC, foi sócia de produtora e gerente na Globo, liderando mais de 500 pessoas. Formada em Media Production (Marymount), com especialização na NYU e MBA em Business Management, ela alia criatividade e gestão. Especialista em Design Thinking, Lean Thinking e práticas Ágeis, cofundou a Transformação Audiovisual em 2020 com Leo Edde, desenvolvendo o método Audiovisual Ágil, que aplica gestão Lean ao setor criativo. Já capacitou mais de 500 profissionais com mentorias, cursos (Sebrae) e workshops (Rio2C, Max Minas, IAG PUC-Rio). Em 2024, lançou a Transforma, integrando todas essas iniciativas em um único hub.