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Artigo / Mercado & Tendência

30 Dezembro 2025

EXIBIÇÃO BRASILEIRA EM 2025: ENTRE RECORDES HISTÓRICOS E DILEMAS ESTRUTURAIS QUE EXIGEM RESPOSTAS

Uma análise técnica sobre a sustentabilidade do crescimento do mercado audiovisual nacional

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A PERGUNTA QUE IMPORTA

O cinema brasileiro registrou 11,2% de participação de mercado nos primeiros oito meses de 2025. Em 2023, eram apenas 1,4%. Os números impressionam pela magnitude da recuperação. A questão central não é a celebração do dado isolado, mas a compreensão de sua origem. Precisamos entender se estes índices representam uma mudança estrutural sólida da indústria ou um acidente estatístico provocado por dois ou três títulos excepcionais. A diferença importa. Uma coisa é celebrar filmes que deram certo por mérito individual. Outra coisa muito diferente é ter uma indústria que funciona de forma orgânica e previsível. Os dados da ANCINE, FILMEB e COMSCORE mostram um cenário de euforia, mas a análise técnica exige cautela. Não podemos confundir sucesso de bilheteria com saúde de mercado.

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OS NÚMEROS QUE IMPRESSIONAM

O parque exibidor brasileiro demonstrou resiliência ao alcançar a marca de 3.604 salas em operação, superando em mais de 100 telas o patamar de 2019. Segundo dados da ABRAPLEX, o setor registrou um aumento de 15% no primeiro semestre e a presença do conteúdo nacional nas telas saltou de tímidas 4% das sessões em 2023 para expressivos 14,1% em 2025. O dado mais contundente, contudo, é a venda de ingressos para filmes brasileiros, que cresceu 197% no período. Esses indicadores sugerem que o público está disposto a consumir o produto nacional quando ele é ofertado com qualidade e em condições competitivas de exibição. O mito de que o brasileiro não gosta do seu próprio cinema cai por terra diante da oferta qualificada.

OS NÚMEROS QUE PREOCUPAM

A euforia dos percentuais esconde abismos absolutos. De janeiro a agosto de 2025, o público total foi de 81,9 milhões de espectadores. Em 2019, no mesmo período, tínhamos 129,1 milhões. A queda de 36,6% no fluxo de pessoas é um sinal de alerta que nenhuma bilheteria recorde deve ofuscar. Apenas 451 cidades, de um total de 5.567 municípios, possuem salas de cinema, isso significa que uma boa parte da população brasileira vive em desertos cinematográficos. A concentração também é um problema geográfico e econômico, já que 88% das salas estão dentro de shopping centers. Mesmo com o sucesso de público, a taxa de ocupação para filmes brasileiros continua baixa. O dado mais cruel revela a desigualdade interna da produção nacional: 85% dos filmes brasileiros lançados não conseguem ultrapassar a barreira dos 10 mil espectadores.

TRÊS FILMES QUE MUDARAM A ESTATÍSTICA

A análise de 2025 é impossível sem isolar três fenômenos. "Ainda Estou Aqui" levou 5,1 milhões de brasileiros aos cinemas e arrecadou R$ 200 milhões na bilheteria mundial, consolidando-se como a 5ª maior bilheteria da história do nosso cinema. "Auto da Compadecida 2" fez história com parcerias de patrocínio com grandes marcas e produção privada sem recursos públicos, vendendo mais de 4 milhões de ingressos. "O Agente Secreto" ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores, tornando-se a maior bilheteria nacional do ano corrente. A pergunta que o mercado deve fazer é desconfortável: sem esses três títulos, qual seria o nosso market share? Eles são a regra ou a exceção que confirma a regra? Quando contrastamos esses sucessos com os 85% das obras que não encontram seu público, a resposta tende para a excepcionalidade. Uma indústria saudável não pode depender de milagres anuais para justificar sua existência.

A VOZ DO SETOR: EXPOCINE 2025

O clima nos corredores da EXPOCINE 2025 e outros encontros de mercado reflete essa dualidade. Cláudio Marques, da AEXIB, tem sido vocal sobre a desigualdade de recursos que sufoca a ponta da exibição. André Sturm, do Belas Artes, reforça a necessidade de políticas integradas que não olhem apenas para a produção. O consenso entre os players é claro: o setor celebra os resultados imediatos, mas teme pela sustentabilidade a médio prazo. Não existe vilão nesta história. Existe um sistema que opera com engrenagens desajustadas. Exibidores e distribuidores concordam que o modelo atual de financiamento cria um gargalo onde a produção flui, mas o escoamento trava.

O PROBLEMA ESTRUTURAL DO FSA

É física pura: existe muito filme para pouca sala. Centenas de obras prontas não encontram tela para escoar porque o gargalo da infraestrutura foi, e dependendo do ponto de vista continua sendo, ignorado pelas políticas públicas. Sem corrigir essa distorção, continuaremos fabricando produtos sem prateleira. A matemática do Fundo Setorial do Audiovisual revela boa parte do problema. Temos mais de 80% dos recursos destinados à produção e escassos recursos para distribuição, exibição, formação de profissionais e outros setores do audiovisual. A assimetria se torna ainda mais grave nas regras de utilização. O produtor acessa recursos com potencial de fundo perdido, sem obrigação de retorno ou devolução financeira se o filme não performar. O exibidor, quando consegue acesso ao crédito, contrai uma dívida que deve ser devolvida com juros e correção.

A GUERRA DA JANELA CINEMATOGRÁFICA

A proteção da sala de cinema passa, inevitavelmente, pela regulação das janelas. A média atual de 45 dias entre o lançamento no cinema e a chegada ao streaming é insuficiente para garantir a cauda longa de exibição. A AEXIB pleiteia o retorno aos 180 dias, um modelo clássico que permitiria aos filmes maturarem em cartaz. Pesquisas de comportamento indicam que 60% do público prefere aguardar o lançamento nas plataformas digitais se o intervalo for curto. O PL do Streaming se torna urgente e prioritário não apenas para taxar as big techs, mas para organizar o ecossistema. A pressão das plataformas para reduzir janelas é legítima do ponto de vista delas, mas a regulação precisa garantir que a exibição não perca sua relevância econômica e cultural.

PRODUÇÃO: QUANTIDADE VS QUALIDADE

O Brasil atingiu um volume de produção anual comparável ao dos Estados Unidos em número de títulos, mas com uma fração do orçamento. A lógica de pulverizar recursos para democratizar o acesso à produção gerou um efeito colateral perverso: temos centenas de filmes subfinanciados que nascem inviáveis comercialmente. A análise do setor aponta que R$ 20 milhões seria o patamar mínimo necessário para produzir uma obra com competitividade técnica e comercial internacional, mas os editais de recursos tendem a oferecer "migalhas" que chegam a ser abaixo do R$ 1 milhão. Tudo porque ainda há a estratégia de oferecer quantidade e não qualidade ao mercado. O dilema estratégico é claro: devemos focar em formar talentos através da quantidade ou produzir conteúdo comercializável através da concentração de recursos? O caso de "O Agente Secreto" comprova a tese da qualidade. Houve investimento robusto em produção e marketing, e o resultado veio na bilheteria.

TECNOLOGIA E A NOVA GERAÇÃO

Há sinais de renovação no perfil do público que não podem ser ignorados. A Geração Z registrou um aumento de 25% na frequência aos cinemas em comparação com outras faixas etárias. Esse público busca experiência. O combo de salas com som, imagem e atendimento de qualidade será o grande diferencial competitivo frente ao conforto do lar. Iniciativas como a Semana do Cinema, que em 2025 vendeu 4,2 milhões de ingressos a R$ 10, provam que o preço é uma barreira elástica. O desafio para o exibidor é investir em tecnologia de ponta para atrair o jovem exigente sem elevar o ticket médio para um patamar que exclua a massa da população. Tudo isso em meio a aluguéis crescentes, impostos aumentando e créditos nada convidativos.

O QUE A FRANÇA ENSINA

Olhar para fora pode oferecer caminhos para as nossas encruzilhadas. A França encerrou 2024 com 44% de market share para seus filmes nacionais. Não foi sorte. Foi método. O modelo francês se baseia em um financiamento integrado onde existe solidariedade real entre os elos da cadeia. A televisão e o streaming financiam o cinema, e a bilheteria retroalimenta a produção, mas com travas que garantem a diversidade da exibição. A distribuição de recursos e riscos é equilibrada. A questão que fica para o Brasil é se teremos a maturidade política para adaptar um modelo onde todos cedem um pouco para que o mercado cresça, ou se continuaremos em disputas corporativistas enquanto o público migra para outras telas.

2026: PROMESSAS OU SOLUÇÕES?

O horizonte próximo traz promessas institucionais. A Petrobras anunciou R$ 100 milhões em investimentos até 2027. O Ministério da Cultura estabeleceu a meta de criar 500 novos pontos de exibição. A Cota de Tela foi renovada por decreto, garantindo reserva de mercado legal. A EXPOCINE 2026 já se desenha como o palco onde essas promessas serão cobradas. A pergunta final que fica é provocativa e necessária: a indústria vai criar as condições materiais para o cinema brasileiro viver além de 2025, ou vamos continuar celebrando recordes pontuais enquanto a infraestrutura desmorona? A diferença entre ter um cinema brasileiro e ter apenas filmes brasileiros sem cinema onde exibi-los está nessa resposta.

**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**

Marcelo Lima
Marcelo Lima | marcelo.lima@tonks.com.br

Marcelo J. L. Lima é fundador e CEO da Tonks, empresa responsável pela Expocine, Portal Exibidor e Cine Marquise. Analista na indústria de cinema, Marcelo Lima também presta serviços de consultoria no setor.

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