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29 Abril 2026

"O Diabo Veste Prada 2" e o trabalho por trás do casaco azul cerúleo

Além de ótimo entretenimento, filme é também sobre relações de trabalho na moda

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Itens de vestuário comunicam identidade, valores e pertencimento, atuando como linguagem social que vai muito além das roupas: a moda está em toda parte. Ela também está presente, como não poderia deixar de ser, nas produções audiovisuais. O figurino, além de ajudar a situar a narrativa no tempo e no espaço, desempenha papel central na construção de personagens, revelando personalidades, status e transformações vividas ao longo da trama.

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Em "O Diabo Veste Prada", a moda é também o eixo narrativo da trama, que retrata os bastidores da revista Runway. Lançado em 2006, é considerado um dos filmes sobre moda de maior sucesso, tendo alcançado mais de US$ 326 milhões em bilheteria mundial. Vinte anos após conquistar o público, Miranda Priestly (Meryl Streep), a temida editora-chefe de perfil autoritário e olhar implacável, retorna às telas. Cercado de grande expectativa, o lançamento de "O Diabo Veste Prada 2" marca a volta do universo fashion ao cinema.

Segundo a sinopse, Miranda precisa lidar com as mudanças do mercado editorial, que migra do impresso para o digital, além do reencontro com antigas assistentes – a quem costumava humilhar. Emily Charlton (Emily Blunt) agora ocupa um cargo de destaque como executiva em uma grande marca de luxo, sendo responsável por investimentos publicitários essenciais à sobrevivência da Runway. Andy Sachs (Anne Hathaway), por sua vez, retorna à revista para assumir a editoria de variedades. Os figurinos, pelo que já foi revelado no trailer e em matérias na mídia, acompanham as transformações vividas pelas personagens. Andy, agora como uma profissional madura e respeitada, não veste mais o emblemático casaco folgado azul cerúleo.

No primeiro "O Diabo Veste Prada", a cena do casaco azul cerúleo tornou-se uma das mais icônicas e funciona como síntese do poder simbólico da moda. Nela, Miranda Priestly explica à Andy que a cor do seu casaco não é fruto do acaso, mas resultado de um longo processo produtivo que começa nas passarelas da alta-costura, passa por decisões estratégicas de estilistas, editores e compradores e, só então, chega às lojas populares. Ao destrinchar essa cadeia, Miranda expõe como a indústria da moda dita tendências e influencia inclusive aqueles que acreditam estar à margem dela.

Como pesquisadora das relações de trabalho na cadeia produtiva da moda, uma frase dessa cena atrai minha atenção especialmente. Quando afirma que "esse azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos", Miranda revela a complexidade e a magnitude da indústria da moda. Cores, formas ou tendências são muito mais do que meras escolhas estéticas: elas movimentam uma engrenagem que envolve muita gente. E muito trabalho.

No Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira de Indústria Têxtil (ABIT), o setor de confecção é o segundo maior empregador da indústria de transformação, com cerca de 1,30 milhão de trabalhadores formais. É importante destacar, entretanto, a elevada taxa de informalidade no segmento, o que faz com que dados oficiais sejam subestimados. Em escala global, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 94 milhões de pessoas estejam ocupadas na indústria de vestuário, muitas delas exercendo trabalho precarizado e até mesmo em condições análogas à escravidão.

Nem mesmo o mercado de luxo está imune a formas trabalho precário. No livro Le plus beau metiér du monde (A profissão mais bela do mundo, em tradução livre), a antropóloga Giulia Mensitieri se propõe a investigar as condições de trabalho de jovens designers na indústria de moda de luxo francesa. A autora demonstra que que a percepção de privilégio por fazer parte desse universo é tão naturalizada que muitos profissionais trabalham em troca de roupas e sapatos, sem receber remuneração ou por salários muito baixos. O trabalho na moda de luxo, portanto, também é marcado por superexploração.

Além de ótimo entretenimento, "O Diabo Veste Prada", para mim, é também um filme sobre relações de trabalho na moda. Ele revela como o glamour fashion encobre jornadas exaustivas e práticas recorrentes de exploração, além de naturalizar relações de poder e de submissão simbólica.

A estreia de "O Diabo Veste Prada 2" será no dia 30 de abril no Brasil e, ironicamente, em 1º de maio nos Estados Unidos, data em que se comemora, aqui e em grande parte do mundo (mas não nos EUA), o Dia do Trabalhador. A julgar pela construção da personagem Miranda no primeiro longa e pela configuração atual do mercado de trabalho na indústria da moda, não espero um cenário idílico.

**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**

Joana Contino
Joana Contino

Joana Contino é professora e pesquisadora no Programa de Pós-graduação Profissional em Economia Criativa, Estratégia e Inovação (PPGECEI) na ESPM Rio. Doutora em Design, sua trajetória de pesquisa articula o campo do Design à Sociologia do Trabalho, tendo como eixos centrais os processos produtivos, as relações de trabalho e os impactos das tecnologias emergentes. Atualmente, desenvolve pesquisas nas áreas de design e design de moda, cultura, economia criativa, relações de trabalho, tecnologia. É autora do livro 'A indústria da moda no capitalismo tardio: design, ideologia e relações de trabalho' (Rio Books/FAPERJ).

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