Exibidor

Publicidade

Artigo / Artigo

06 Julho 2026

Como o mês mais forte do ano mostra a maior fragilidade do mercado exibidor?

Compartilhe:

Não é segredo que julho é o mês mais importante do ano para os exibidores em termos de público. As férias escolares concentram alguns dos maiores lançamentos do calendário, ampliam o consumo familiar e mobilizam campanhas massivas de divulgação. Para o mercado exibidor, é o período de maior capacidade de transformar grandes estreias em eventos de escala nacional e, consequentemente, maximizar a ocupação de salas e receita. Não é à toa que, entre 2015 e 2025 (desconsiderando 2020), julho representou, em média, quase 14% do público anual dos cinemas brasileiros, o maior percentual entre todos os meses do ano.
 
Em 2026 não será diferente. Julho inicia com Toy Story 5 já na marca dos 3 milhões de ingressos vendidos. Na sequência, Minions & Monstros, Moana e Homem-Aranha: Um Novo Dia disputam espaço nas telas ao longo do mês, enquanto A Odisseia aparece como alternativa para o público adulto.
 
Mas, observando a evolução de público do mês das férias ao longo da última década, nota-se uma transformação na dinâmica do mercado. Há uma concentração crescente: em 2015, o filme líder representava cerca de 29% do público do mês. Em 2023 e 2024, essa concentração alcançou mais de 45%. Em 2024, os três maiores títulos do mês representaram 90% dos ingressos vendidos do período.
 
Esse movimento indica uma mudança importante na dinâmica do mercado. Julho continua sendo o principal mês dos cinemas no Brasil, mas uma parcela cada vez maior desse público se concentra em poucos títulos capazes de operar como eventos de escala nacional. Este cenário revela uma fragilidade crescente do mercado exibidor: a dependência cada vez maior de blockbusters internacionais para sustentar o fluxo de público nas salas.
 
Quantas salas o mercado exibidor separa para o grande hit de julho?
 
Para essa análise, foi considerado o filme de maior público exibido em julho de cada ano, independentemente de sua data de lançamento, e o maior número de salas simultâneas ocupadas por ele ao longo de uma semana.
 
Os dados mostram a mudança na lógica de ocupação do parque exibidor. Na semana de maior força de cada título, a participação do blockbuster líder nas salas saiu de uma média de aproximadamente 49% no período pré-pandemia (2015-2019) para 70% no pós-pandemia (2022-2025), atingindo o pico de 82% em 2024 com Divertida Mente 2.
 
Em outras palavras: há dez anos, o maior filme de julho ocupava cerca de metade do circuito exibidor. Hoje, ele tende a se aproximar de uma presença quase total no mercado, ainda que existam exceções.
 
Na prática, o mercado parece operar de forma cada vez mais avessa ao risco. Em vez de distribuir a atenção do público entre diferentes perfis de filmes ao longo do mês, amplia-se a dependência de poucos eventos globais capazes de mobilizar grandes plateias de forma rápida. O resultado é um circuito mais eficiente para capturar picos de demanda, mas também mais vulnerável à ausência desses grandes títulos, sem a construção de uma base fiel de clientes.
 
A análise mostra ainda que há uma tendência de queda na proporção de salas que não exibiram o principal blockbuster de julho, especialmente no período pós-pandemia. Entre 2015 e 2019, em média, 27% das salas não programaram o filme líder do mês. De 2021 a 2025, esse percentual caiu para 12%.
 
A redução das salas que ficam fora do maior blockbuster do mês ajuda a medir o encolhimento da estratégia de contra-programação do circuito. Há uma década, uma parcela significativa do parque ainda operava buscando públicos alternativos ao grande hit, seja com filmes independentes, nacionais, nichados. Hoje, esse espaço parece praticamente inexistente. O público que buscava esses filmes já não os encontra nas salas de cinema em julho.
 
Do ponto de vista do exibidor, há um cenário complexo. Em um mercado mais concentrado, torna-se economicamente difícil para os cinemas sustentarem filmes que dependem de permanência, recomendação e formação gradual de público frente à possibilidade de maximizar a ocupação das salas com títulos que já mobilizam grandes plateias desde o primeiro dia.
 
O impacto dessa dinâmica se espalha pelo restante da cadeia: distribuidoras independentes perdem espaço justamente no período de maior circulação do ano, enquanto filmes médios encontram mais dificuldade para construir presença e permanência no calendário.
 
Desconsiderando os estúdios estadunidenses (Disney, Warner, Paramount, Universal e Fox), a presença dos filmes distribuídos pelas demais empresas em julho caiu de 59% de ocupação das salas ativas em 2015 para 34% em 2025.
 
Esse cenário mostra um enfraquecimento sistemático da cadeia: os filmes independentes enfrentam mais dificuldades para acessar justamente o período de maior circulação do ano, reduzindo sua capacidade de alcance, permanência e formação de público no circuito para esses filmes.
 
Mas há demanda do público apenas pelos grandes hits?
 
Os dados de público sugerem que essa concentração não significa o desaparecimento da demanda pelos demais filmes. O que muda de modo mais significativo é a capacidade dos grandes blockbusters de expandir o mercado momentaneamente, recrutando uma plateia ocasional que não frequenta o cinema de maneira recorrente.
 
Observando o ano a ano a quantidade de público do filme líder versus a soma de público dos demais filmes, nota-se que o volume de ingressos vendidos pelos "demais filmes” no mês se mantém relativamente estável, por volta de 10 milhões de ingressos no pós-pandemia. O que apresenta uma forte variação é o peso do título líder sobre o total do mês. Em 2023, com Barbie, julho somou 18,4 milhões de ingressos, sendo 8,4 milhões (46%) apenas para o hit. Em 2024, a soma do mês foi de 23,1 milhões, sendo 10,8 milhões (47%) apenas para Divertida Mente 2.
 
Isso indica que os blockbusters, além de disputar o público com o restante da programação, também têm a capacidade de ampliar temporariamente o tamanho do próprio mercado. O ano de 2025 reforça essa análise. Superman alcançou 3,7 milhões de ingressos de 13,9 milhões vendidos no mês (27%). Ou seja, na ausência de um grande hit, há uma queda de 5 a 10 milhões de espectadores em relação aos anos anteriores.
 
Ao ampliar o mercado, o cinema chega em uma plateia que não frequenta as salas de forma recorrente. Aproveitar esses momentos de expansão para estimular a recorrência e ampliar hábitos de consumo pode ser uma das formas de reduzir a vulnerabilidade estrutural do mercado no médio prazo. Afinal, a sustentabilidade do circuito exibidor depende também da capacidade de transformar parte desse público ocasional em frequência mais constante ao longo do ano.
 
Entretanto, na última década, público, programação e ocupação de salas parecem ter entrado em um ciclo de retroalimentação. Quanto maior a capacidade de um grande título mobilizar audiência, mais espaço ele recebe nas salas; quanto mais espaço ocupa, maior sua concentração de público. Em paralelo, filmes médios e independentes perdem a capacidade de circulação e formação de plateia, tornando o mercado ainda mais dependente dos poucos títulos que operam como grandes eventos.
 
Talvez o principal sinal de transformação do mercado exibidor não esteja na queda do público, mas na forma como esse público passou a se concentrar. Julho continua levando milhões de pessoas ao cinema, mas cada vez mais através de poucos títulos que possuem a dinâmica de eventos globais. O circuito se tornou mais eficiente para capturar esses picos de demanda, mas também mais dependente deles para sustentar sua operação ao longo do ano. Nesse cenário, o desafio do setor parece ser a dificuldade de construir continuidade entre esses picos de atenção, ou seja, em como transformar o aumento momentâneo do público em hábito recorrente.




**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**

Aline Zambrini
Aline Zambrini

Aline Zambrini é sócia e diretora executiva da Tomun e programadora na Descoloniza Filmes. Com experiência em diferentes áreas da cadeia audiovisual, da produção e desenvolvimento à distribuição e inteligência de mercado, atua na interseção entre dados, estratégia e gestão. Na Tomun, lidera pesquisas e projetos que ajudam profissionais do audiovisual a compreender melhor seus públicos e tomar decisões criativas mais informadas. Hoje, atua para fortalecer a conexão entre histórias, criadores e audiências.

Compartilhe: