14 Julho 2026
Cinema nas férias: ainda há lugar em meio a tantas telas?
Julho chegou! É tempo de férias, das crianças, bem entendido. Para os pais, o desafio passa a ser descobrir o que fazer com os filhos. Ao final de cada dia, encontramos crianças ansiosas para brincar e para serem entretidas. Somos uma geração fadada a entreter nossos filhos. Criamos monstrinhos alérgicos ao tédio, que respiram parques temáticos, exposições, streamings, videogames, internet, entre tantas outras atividades. Diante de tantas opções, ainda há lugar para o cinema nesse ecossistema de entretenimento?
Costumo brincar que existem duas razões para pais e mães levarem seus filhos ao cinema: o co-viewing ou 90 minutos de sono reparador.
Brincadeiras à parte, o co-viewing é, a meu ver, o principal diferencial em relação às outras atrações disponíveis. Trata-se de uma linguagem que também nos é nativa e nostálgica. Vamos ao cinema porque também queremos nos divertir, mas se engana quem acha que essa fórmula é básica. O público-alvo família parece óbvio, entretanto, é pura complexidade.
Nessas histórias, geralmente o humor vira elemento central, o verbal atinge os pais, o físico atinge a todos. Mas só humor não é suficiente sem narrativa, e entender o que atrai as crianças hoje, ou o que as atrai por tempo suficiente para surfarmos alguma onda, é uma equação que parece impossível de se resolver.
Marcas consagradas parecem ser o caminho mais rápido para o resultado dessa conta, a exemplo dos títulos infantis em cartaz no momento, como Toy Story 5, Minions e outros. O primeiro filme do Chico Bento, PI brasileira, estreou em janeiro de 2025, numa janela de férias cruel, em que até o sol e a praia são concorrentes diretos, encarando grandes títulos como Sonic e Mufasa, e ainda assim atingiu a marca de um milhão de espectadores.
Bom, né? Mas fica o alerta: é preciso encarar uma odisseia maior do que antes. Já não basta um filme, é preciso uma franquia.
É necessário que as crianças sintam que conhecem esses personagens e vivam seu universo. O segundo longa-metragem da franquia Chico Bento está, neste momento, em filmagem, mas, quando chegar às telas dos cinemas, encontrará uma realidade diferente da do primeiro filme, como parte de uma estratégia que já passou por arraiás, avião e ônibus tematizados, reformulação dos gibis, um game no Roblox, a websérie Cortes do Chico e um parque temático próprio em Campos do Jordão.
Não é só cinema. É um jogo de múltiplas janelas, com conteúdos que se costuram. Uma dinâmica que exige fôlego e dinheiro dos produtores brasileiros, além de quebra de paradigma por parte dos distribuidores e players.
É difícil entender como uma sala fechada e escura é capaz de conectar pessoas. Cinema é magia que segue sobrevivendo a tantas velhas e novas realidades. Em 90 minutos, gerações compartilham risadas e um pouco de cada um dos seus mundos. Para construir essa experiência com produções brasileiras que enfrentem os blockbusters estrangeiros, que já chegam com ecossistema empacotado, produtores, distribuidores e outros players precisam entender que vivemos em meio a múltiplas opções de entretenimento que, em vez de competir, precisam conviver. Para resistir é preciso coexistir.
Talvez seja justamente aí que o cinema encontre seu lugar nas férias das crianças e dos pais. Em meio à maratona de programas, telas de todos os tamanhos, estímulos e tentativas de driblar o tédio, ele ainda oferece algo raro: a chance de dividir uma experiência. Não apenas ocupar o tempo dos filhos, mas estar com eles.
**As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição deste veículo.**
Marina Filipe
Marina Filipe é diretora de audiovisual na MSP Estúdios, onde lidera o desenvolvimento de conteúdos baseados no universo do Mauricio de Sousa. Com mais de 23 anos de carreira, passou por Warner Bros. Discovery, BBC Studios e Endemol Shine Brasil, estando à frente de produções locais premiadas como Irmão do Jorel e formatos internacionais como Dancing with the Stars.