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02 Agosto 2022 | Renata Vomero

Heitor Augusto é 1º brasileiro a integrar curadoria do Blackstar Film Festival: "Precisamos de mais dez outros festivais como este"

Evento híbrido acontecerá entre os dias 3 e 7 de agosto

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(Foto: PC Pereira)

Amanhã (3) começa o BlackStar Film Festival em formato híbrido até o dia 7 de agosto e com versão presencial na Filadélfia, nos Estados Unidos. O evento celebra anualmente narrativas da diáspora africana e de comunidades globais não-brancas e terá, pela primeira vez, um brasileiro como parte do corpo curatorial de curtas-metragens: Heitor Augusto, curador e profissional de  cinema e também programador-chefe e cofundador do NICHO 54.

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O time de programadores é formado, além do brasileiro, por profissionais do México, Egito, Canadá e Estados Unidos. O grupo se reúne desde dezembro para debater e refletir sobre as centenas de filmes que receberam, a seleção se divide em 10 programas definidos.  

“De fato a gente precisa de mais dez outros festivais como o BlackStar, como o Nicho Novembro, como o a Semana de Cinema Negro, tudo isso para dizer que é muito filme e são muito interessantes, estão passando menos do que poderiam”, afirmou Heitor Augusto em entrevista ao Portal Exibidor

Entre os destaques brasileiros do formato na programação encontram-se Meus santos saúdam teus santos, de Rodrigo Antônio, e Manhã de Domingo, de Bruno Ribeiro. Já Sub Eleven Seconds, de Bafici, Losing joy, de Juliana Kasumu, e Still Waters, de Aurora Brachman, estão entre as principais atrações internacionais. 

“Vimos muitos filmes sobre dinâmicas intergeracionais e aí o barato disso é que cada país ou região tem seu processo histórico. Cada território tem sua particularidade como isso se expressa, mas em termos de tema tivemos muitos curtas sobre isso e me surpreendeu, porque no Brasil não vejo isso sendo feito de forma massiva, aqui, no máximo, esse tema surge como uma chave para a ancestralidade, mas não foi assim que vieram os filmes”, destacou Heitor Augusto, ele também notou haver mais experimentação entre os filmes, além de retratos de infâncias e o peso e violência dos processos coloniais.

Em termos de particularidades, o interessante, para os curadores, foi notar justamente como há a intersecção de temas e assuntos, no entanto, os filmes se diferenciam na forma de expressar esses retratos, o que expõe as diferenças nos processos históricos e coloniais de cada país, incluindo, claro, o Brasil, que também passou por esses lugares comuns e particularidades.

“No Brasil vi poucos filmes centralizados no racismo, na experiência do racismo, não estou falando que eles sublimavam raça enquanto categoria que organiza o mundo, não é pós-racial. Em termos de quantidade, vi filmes que centralizavam histórias negras, indígenas, asiáticas. Para mim, essa foi a principal diferença. No Brasil, estamos passando por etapas, o que temos visto no país é isso, os que estão circulando mais são os que têm o marcador da injúria racial como centro da experiência”, destacou.

Primeiro curador brasileiro no BlackStar Film Festival, Heitor Augusto tem 15 anos de experiência e trajetória. Integrou o júri de diversos festivais e prêmios, entre os quais se destacam o Teddy Award da 70ª Berlinale (2020), e fez parte do Advisory Board (Conselho Consultivo) do William Greaves Fund - Firelight Media (2021). Augusto foi ainda curador do A Two-Way Conversation: Bridging Black Brazilian and Black American Experimental Films (Highball.TV, 2022) e colaborou com ensaios para catálogos de diversas mostras e revistas acadêmicas internacionais, como a Journal of Cinema and Media Studies, coordenada pela Society for Cinema and Media Studies, nos Estados Unidos. É também membro do Programmers of Colour Collective (POC2), rede internacional de curadores não-brancos que atuam no cinema.

No Brasil, Augusto fez parte do júri da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2017), além de ter integrado a comissão de seleção do Festival de Brasília em 2017 e 2018, e da mostra Cinema Brasileiro Anos 2010: Dez olhares em 2021.  Além disso, assinou a curadoria de Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada (FestCurtasBH, 2018), a mais ampla retrospectiva a investigar a presença negra por detrás das câmeras no país. 

São quase duas décadas em um meio que não favorece a longevidade de carreira de pessoas negras ou mulheres, para além disso, são anos acompanhando a evolução do debate e as conversas sobre a integração de narrativas diversas no cinema, e, claro de profissionais que ocupem os espaços aos quais eles estão aptos a ocupar, com reconhecimento.  

“Quando falo em 15 anos, não é só para falar ao mercado da minha experiência, mas para mostrar que sou um profissional com um ponto de observação muito particular, tive presente em diferentes momentos do cinema brasileiro e em diferentes conversas”, e complementa: “A conversa racializada se iniciou, não acho que ela chegou em um lugar onde ela deveria chegar, porque se fosse isso, já teríamos pessoas negras em lugares de muito mais prestígio do que temos hoje”.

Há também uma mudança no panorama de curadoria dos festivais, com a própria palavra ganhando ainda mais relevância e significado. Atualmente, entende-se mais que esses profissionais são agregados de conhecimentos específicos para atuar em uma seleção de filme, tentando formar uma linha de narrativa que faça sentido ao público e ao momento, sem precisar ter pontos de contato com a organização ou a própria crítica cinematográfica.

Nesse sentido, se amplifica a importância de curadores negros dentro dos festivais, que tenham olhar atento à grande demanda e gargalo por histórias que sejam representativas do Brasil, já que é papel do cinema retratar nossa identidade como país.

“Tem uma demanda represada pelo ponto de vista da exibição, esse é um processo imprescindível na estruturação de carreiras de pessoas que trabalham em cinema. Se você não exibe filmes, eles não existem, se eles não existem as pessoas não têm portfólio e não conseguem estruturar uma carreira e dar os próximos passos. Tem também uma demanda represada por parte do público, daí você vê a pulverização de festivais, é um direito que a população inteira tem de assistir a filmes que sejam realistas sobre nosso país. Quer as pessoas queiram, quer não, esse é o país que a gente tem”, finalizou.

Produzida pela BlackStar Projects, a  11ª edição do BlackStar Film Festival apresenta 76 filmes, incluindo 16 estreias mundiais, que representam 27 países. Entre os destaques da programação deste ano encontra-se o longa-metragem brasileiro Marte Um, de Gabriel Martins, que teve premiére mundial em Sundance. O filme acompanha uma família brasileira que lida com um futuro incerto após um líder conservador de extrema direita chegar ao poder. 

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