Rodrigo Teixeira: “Temos que fazer as salas de cinema serem pontos de encontro”
Celebrando 20 anos da RT Features, produtor falou com exclusividade ao Portal Exibidor sobre os atuais desafios para exibidores e distribuidores
Compartilhe:
(Foto: Reprodução)
“Eu tinha uma tradição: toda sexta-feira eu ia ao cinema. E qual era o prazer que eu tinha em ir ao cinema? Era não só de ver o filme, mas de pegar a fila, de sentir o cheiro da pipoca... E eu queria chegar rápido, pra ver os trailers…”
Rodrigo Teixeira, antes de ser um dos produtores brasileiros com melhor circulação no mercado audiovisual global, sempre foi um apaixonado por cinema. Mas não só pelos filmes. Pela experiência que só podemos ter ao frequentar uma sala de cinema. E foi nesse tom de grande fã - um tanto decepcionado com o que virou seu objeto de paixão, mas sempre esperançoso de vivenciar novamente o melhor que ele pode entregar - que ele conversou com o Portal Exibidor, nesta semana em que se encerra a Mostra 20 Anos RT Features.
O evento começou no dia 20 de março e segue até o próximo domingo (29), na Cinemateca Brasileira, em São Paulo (SP), e celebra duas décadas de história da produtora cinematográfica brasileira com maior destaque internacional até hoje. Na programação, 21 longas que marcaram a história da produtora, além de quatro masterclasses.
Criada por Rodrigo Teixeira, a RT Features destaca-se por fazer filmes autorais e transitar por diferentes gêneros, extrapolando fronteiras geográficas. Entre os seus títulos estão obras de terror, como A Bruxa (Universal) e O Farol (Vitrine Filmes), de Robert Eggers, e o nacional Enterre Seus Mortos (O2 Play), dirigido por Marco Dutra; histórias de amadurecimento, como Frances Ha (Vitrine Filmes), de Noah Baumbach, Me Chame Pelo Seu Nome (Sony), do italiano Luca Guadagnino, e Armageddon Time (Universal), de James Gray; dramas latino-americanos como A Vida Invisível (Sony/Vitrine Filmes), dirigido por Karim Aïnouz, Ainda Estou Aqui (Sony), de Walter Salles, e Tarde Para Morrer Jovem (Pandora Filmes), da chilena Dominga Sotomayor; e comédias dramáticas como O Cheiro do Ralo (Filmes do Estação), do brasileiro Heitor Dhalia, e Kontinental’25, do romeno Radu Jude.
Entre os mais de 50 prêmios para os quais seus filmes já foram indicados, foram nove ao Oscar e seis ao Globo de Ouro. E entre os protagonistas das produções, nomes consagrados como Fernanda Torres, Selton Mello, Brad Pitt, Greta Gerwig, Timothée Chalamet, Anthony Hopkins, Robert Pattinson e Willem Dafoe.
Nesta entrevista exclusiva, Rodrigo Teixeira falou sobre as mudanças do mercado nos últimos 20 anos, os desafios dos exibidores e o que tem funcionado na distribuição internacional de filmes. Confira na íntegra:
Ao longo desses 20 anos da RT Features, para além das evoluções tecnológicas e das novas plataformas de exibição, o que você diria que mais mudou - e o que não mudou - na forma como um filme chega ao público?
Eu acho que o que mais mudou foi, sem dúvida nenhuma, o mercado exibidor. Foi o fato - e a gente viu isso mais acentuado, obviamente, durante a pandemia - das pessoas, infelizmente, não irem mais ao cinema, e verem filmes em casa. Eu faço cinema porque eu gosto muito da experiência da sala de cinema. Pra mim, o cinema sempre teve uma relação com encontros, sensações, divisão de sentimentos… Os filmes crescem muito quando você vê em conjunto. Isso foi uma coisa que mexeu muito. É engraçado você fazer essa pergunta, porque eu reparei muito nisso ontem. Obviamente venho reparando isso há muitos anos, mas ontem, especificamente, eu senti um negócio. Eu fui fazer a première de um dos meus filmes, o Barba Ensopada de Sangue, e entrei em duas salas. Eram duas salas de cinema premium, mas aquilo me deu um negócio, porque eu gosto de ver muita cadeira na sala de cinema. Só que diminuiu muito! Parece que você está fazendo um lobby, uma extensão da sala da sua casa dentro de uma sala de cinema. E aí você sente falta de ver aquele lugar com 300 cadeiras, 400 cadeiras lotadas de pessoas. O conforto é óbvio que é interessante, é óbvio que é bom. Mas como realizador, o que você quer ver é sala cheia de gente. Eu lembro de uma das últimas sessões de cinema grandes, grandiosas, que eu vi. Eu tenho a oportunidade de ver isso fora do Brasil, nos festivais internacionais, mas eu lembro do Avengers, que eu fui naquela sala grande do [shopping] Eldorado com meu filho, sessão da meia noite, e na hora que o Capitão América fala “Avengers Assemble” parecia que eu estava num jogo de futebol, o cinema inteiro gritava. É por isso que a gente faz cinema. Então essa foi a maior mudança que eu vi nesses últimos 20 anos. E outra mudança também que eu vi e que eu vejo muito nos Estados Unidos, principalmente em Nova York - que eu acho que é um polo, que vale pra tirar uma amostragem - é que o cinema de repertório voltou com muita força. Salas que exibem filmes de 1940 com uma programação curatorial, misturada com o que está saindo agora, é onde os jovens estão indo. Você vai ver Barry Lyndon numa sessão de 300 pessoas, lotada, com pessoas de 20 anos de idade que não estão pagando pra ver os filmes de hoje, mas estão pagando pra ver Barry Lyndon. Daí você fica questionando: peraí, será que a gente está fazendo isso direito? Como é que a gente faz pra trazer isso para o Brasil e fazer isso ser mais presente e trazer o jovem de volta para o cinema?
Então, o que os exibidores têm que fazer? O que já estão fazendo que você vê que está funcionando e o que ainda falta fazer?
Eu acho que tem que fazer as salas de cinema serem pontos de encontro. É óbvio que hoje a gente tem um problema de segurança no Brasil, em que temos menos salas de cinema de rua, e as salas de complexos em shopping dão muito mais segurança pras pessoas, mas não necessariamente é um lugar de encontro. As pessoas querem um lugar de encontro na rua, onde elas saem e numa esquina tem um bar onde elas podem tomar uma cerveja, conversar sobre o filme que elas viram, voltar andando para casa... A gente faz cinema para isso. No fim do dia, eu não faço cinema para mim, eu faço cinema para o público. Quanto mais pessoas forem à sala de cinema, melhor. Então, eu desejo que os exibidores tenham vida longa, que eles tenham muito público comprando. Eu só gostaria que a experiência desse encontro, de trazer as pessoas pro cinema, mudasse pra melhor. E eu acho que é o que está faltando: a gente fazer essas experiências serem melhores, sabe? Eu sinto essas experiências em festivais de cinema, nos cinemas de rua de Nova York, mas eu sou um privilegiado nesse ponto. Eu não quero que o meu privilégio seja a minha referência. Eu quero poder sair aqui do meu escritório, perto da Paulista, e descer no Cinesesc e encontrar uma galera jovem vendo filme, ou ir no Cine Marquise e ver essa troca. Eu já vi isso, várias vezes na minha vida. Que volte! Eu vejo o que está acontecendo na Cinemateca, na mostra da RT, que são as salas de cinema standard, com 100, 200 lugares, as pessoas trocando... É disso que eu sinto falta.
Na última Mostra de Cinema Tiradentes você falou sobre as disputas internas no setor audiovisual. Então, como que a gente faz para produtores, distribuidores e exibidores trabalharem juntos nesse sentido, para conseguir criar esse movimento de novo?
Eu acho que a gente tem que ouvir muito o público. A gente tem que ouvir quem paga ingresso. Entender o que eles estão demandando, o que eles querem, o que a gente não está dando para eles. Essa é a conversa. E sem políticas públicas, o cinema brasileiro não existe. Precisa de políticas públicas para produzir, para exibir, para distribuir. Isso é necessário. Eu acho que em ano de eleição essas coisas se diluem, porque não é prioridade eleitoral. Então, 2027 é um ano em que a gente deveria ter um calendário mais bem definido dessas políticas públicas, do uso do investimento público. Mas a gente deveria fazer um grande trabalho de entender quais são as demandas do público que vai à sala de cinema. E é fácil fazer isso: você tem que procurar as pessoas que estão indo ao cinema e procurar os jovens de faculdade. Porque esses são os caras que agitam esse movimento para estarem juntos. O teatro nunca teve tanto ingresso sendo vendido como agora, os shows nunca venderam tanto ingresso como agora. Ou seja, as pessoas têm necessidade de entretenimento ao vivo, de estar junto com os outros. O cinema te propõe algo fechado, escuro e solitário. Por mais que você esteja com um grupo de pessoas, a sua emoção pode ser dividida, mas é uma experiência mais fechada. Como é que a gente faz pra mudar isso?
Em uma entrevista recente à Veja SP, você falou que a Neon, por exemplo, faz um trabalho fora da curva na distribuição. O que você caracteriza como um trabalho “fora da curva” nessa área?
Eu acho que o trabalho fora da curva deles é marketing. E a gente tem que levar em consideração o seguinte: hoje você tem os filmes domésticos, que funcionam no mercado doméstico, e existem muitos que a gente pode citar: as comédias do Leandro Hassum, da Ingrid Guimarães e Paulo Gustavo... Eles funcionam muito bem aqui, mas eles não vão pra Itália, pra Bélgica, pros Estados Unidos, porque esses países também têm esses mesmos filmes pra eles. Então, isso é necessário. Você precisa desses filmes, porque eles alimentam uma indústria inteira. Aí você tem os blockbusters, que também fazem esse trabalho. E aí você tem uma outra leva de projetos, que têm um impacto em grupo, que são 300 filmes por ano que passaram pelos grandes festivais e que são os que geram o interesse pra que você tenha público. E os filmes que não estão dentro desses grandes festivais têm mais dificuldade de serem vistos, porque eles não têm um marketing natural, eles não têm um marketing como o da Neon. Num Oscar de filme estrangeiro, onde você tem cinco filmes indicados e quatro são da Neon, um bom trabalho eles estão fazendo. Estatisticamente, ela tem 33% do mercado do Oscar na mão. Então ela faz um trabalho excepcional. Como? Divulgando, levando as pessoas para o filme ser visto, dando uma janela bacana de cinema, fazendo première - porque as pessoas têm vontade de estar perto do talento... Eu acho que é esse tipo de trabalho que torna eles diferentes. Então a gente tem que fazer os nossos filmes serem vistos. Como? De novo: eu acho que é ouvir e melhorar a experiência. E a experiência pra mim não está na cadeira de você deitar. É mais. É um pouco mais complexo.
Para encerrar, Rodrigo, a RT é a produtora audiovisual brasileira que alcançou maior projeção internacional até agora. A que você atribui isso?
Eu atribuo ao meu interesse, à minha cinefilia, à minha vontade de fazer isso, à minha vontade de fazer cinema internacional, o fato de eu saber arriscar… Não tem outra coisa. Não tem como não atribuir a essas condições.