Parque exibidor brasileiro cresce, mas concentração do market share pede atenção
Dados do OCA/Ancine apresentados em webinar do Portal Exibidor também indicam que Brasil atingiu recorde histórico em número de salas de cinema
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(Foto: Divulgação)
Na última segunda-feira (23) o Portal Exibidor, em parceria com a Ancine, realizou seu segundo webinar de 2026, com o Panorama do Mercado Exibidor Brasileiro como foco. Com participação de Leandro Mendes, secretário de regulação da Ancine, e mediação da jornalista Flávia Guerra, o evento online trouxe dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), alguns inéditos até então, para destacar o crescimento do parque exibidor brasileiro e, ao mesmo tempo, alertar para a grande concentração do público de produções nacionais em poucos filmes que se tornam "fenômenos".
O OCA foi criado em 2008 e sofreu uma reestruturação em 2025 para facilitar o acesso ao site. Hoje todas as informações são divididas em quatro áreas: painéis interativos, publicações de diferentes setores, anuário do audiovisual brasileiro e dados abertos. Os painéis interativos são a forma mais rápida de entender o mercado audiovisual e buscar informações específicas sobre exibição, complexos e salas, produtoras, coproduções e outros assuntos. Todos os dados utilizados são de bases públicas da Ancine e de informações primárias enviadas pelos agentes regulados.
"Observamos que era preciso entender melhor e tabular os dados para isso gerar informações que levassem a decisões mais embasadas sobre onde alocar os recursos", explicou Mendes. "Desde 2008 tivemos muita evolução, também na parte de legislação, e tudo isso foi agregando ao OCA uma necessidade de não apenas ter dados técnicos, mas que esses dados pudessem acessados pelo público de uma forma que também pudesse criticar."
O último informe anual do mercado cinematográfico publicado pela Ancine no ano passado, com dados de 2024, apontou para um crescimento do parque exibidor brasileiro, chegando ao número recorde de 3.544 salas de cinema, com um salto na quantidade de cinemas em cidades do interior. Hoje há 367 salas em cidades de até 100 mil habitantes, um aumento de 9,6% nos últimos 10 anos, e 59,4% da população brasileira tem acesso a algum cinema em suas cidades.
"Chegamos a um número recorde em 2025. Novas salas estão sendo abertas em todo o país após alguns fechamentos durante a pandemia, e o cinema está chegando em mais municípios. Hoje há cinemas em 466 municípios e em 2024 eram 457. Lugares que nunca tiveram cinema agora estão tendo suas salas e isso é muito importante para ter oferta. Existia uma grande concentração nos últimos 10 anos e o mercado exibidor viu que há potencial de crescimento em cidades médias que estão consumindo", destacou Mendes.
Outro ponto ressaltado foi que os Estados com maior crescimento no parque exibidor foram Mato Grosso (13%), Rondônia (11%) e Rio Grande do Norte (9%). Os maiores parques exibidores, entretanto, ainda são São Paulo (1,116), Rio de Janeiro (381) e Minas Gerais (275). Além disso, o crescimento no número de cinemas de rua no último ano foi de 4,3% e apenas de 0,4% em shoppings, apesar de 87,5% das salas brasileiras ainda estarem localizadas nesses complexos comerciais.
Desafios
Embora o aumento seja animador, sobretudo em cidades menores, um dos grandes desafios do mercado exibidor brasileiro ainda é expandir a oferta para toda a população. E os números mostram que há oportunidade de crescimento. Hoje o Brasil tem uma média de 60.220 habitantes por sala de cinema, ainda distante de outros países da América Latina como Argentina (47.904), Colômbia (41.984) e México (17.730).
"Estamos pensando em diversidade e ampliação de público, e a oferta para uma população que nunca teve cinema é muito relevante. Precisamos pensar em políticas de como chegar às salas de cinema nesses lugares", completou o secretário da Ancine.
O webinar também adiantou alguns dados do Informe Anual do Mercado Cinematográfico Brasileiro 2025, que deve ser publicado ainda no mês de abril. Apesar do aumento de 1% no número total de salas, houve uma queda de 10% no público e 11,4% na renda. A nova publicação também aponta um crescimento de 31,9% no número de longas exibidos e uma queda de 5,5% no número de lançamentos, indicando um forte aquecimento no mercado de reexibições e relançamentos de obras antigas para suprir a demanda das salas.
Um recorte específico de obras nacionais também mostrou que O Auto da Compadecida 2 (H2O Films) e Ainda Estou Aqui (Sony) representaram 50,9% de todo público nacional, enquanto que de 367 filmes brasileiros exibidos em 2025, 328 registraram um público total inferior a 10 mil espectadores. "Precisamos de filmes de médio porte que consigam sustentar o hábito de assistir filme nacional. É necessária uma constância para ver mais filmes, e não apenas um que tenha grande apelo. Essa constância com filmes médios é importante para toda a cadeia e o filme médio sustenta produtores, dá retorno aos exibidores e cria uma constância do público. Precisamos sensibilizar", finalizou Mendes.