15 Maio 2026 | Mônica Herculano
Debate sobre uso de inteligência artificial no cinema ganha novos rumos em Cannes
Neste ano, conversas mostram uma mudança de abordagem, passando do "se" a IA será usada para "como"
Ao contrário do discurso futurista que dominava os primeiros anos da discussão sobre inteligência artificial no audiovisual, o foco agora é outro: transparência, consentimento, autoria humana e proteção da cadeia criativa. Isso tem se confirmado no Festival de Cannes.
Nos painéis e anúncios realizados durante o festival nesta semana, a indústria mostrou um movimento crescente de tentativa de regulamentação e criação de parâmetros éticos para o uso dessas tecnologias, especialmente diante do avanço acelerado das ferramentas generativas. Produtores, pesquisadores e representantes da indústria estão defendendo práticas baseadas em consentimento, rastreabilidade e transparência no treinamento e aplicação desses modelos.
Muitos filmes não concorrem ao prêmio máximo de Cannes, a Palma de Ouro, pela forma como utilizam a IA atualmente. Os organizadores não baniram completamente, mas excluíram da competição pelo prêmio principal as produções que utilizam principalmente inteligência artificial generativa, seguindo a linha das novas regras de elegibilidade ao Oscar anunciadas na última semana pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O diretor do festival, Thierry Fremaux, disse que a inteligência artificial não pode substituir a habilidade: "Para andar de bicicleta elétrica, você precisa saber andar de bicicleta normal”.
A programação do Marché du Film conta com dois dias de painéis de discussão sobre IA, exclusivos para convidados. Representantes da Alphabet, Disney Accelerator, NVIDIA e OpenAI fizeram apresentações e, embora os diretores concordem que o uso de IA generativa para criar um roteiro ou filme não deva ser permitido, seu uso na produção e pós-produção é cada vez mais aceito. "De uma forma muito desonesta, (a IA) está toda sob o mesmo nome. Para ter uma discussão adequada, é preciso distinguir a IA generativa de qualquer outra função da IA", disse o diretor mexicano Guillermo del Toro à Reuters.
Outro tema que ganhou força foi o impacto estrutural da IA sobre a pirataria. Um painel organizado por entidades como International Federation of Film Producers Associations (FIAPF), Independent Film & Television Alliance (IFTA) e Motion Picture Association (MPA) alertou que essas ferramentas estão acelerando processos de reprodução ilegal, manipulação de conteúdo e distribuição não autorizada de obras, tornando a pirataria uma ameaça ainda mais complexa para o setor audiovisual global.
Diretrizes para elenco e padrão de divulgação
Na quarta-feira (13), a International Casting Directors Association (ICDA) lançou suas novas diretrizes sobre o uso de IA, com o objetivo de criar uma estrutura que proteja a integridade artística, resguarde os artistas e profissionais de elenco e assegure que a tecnologia apoie, em vez de substituir, a expertise criativa humana. As orientações baseiam-se na busca por transparência, consentimento, implementação ética, proteção de dados e manutenção do papel criativo central dos diretores de elenco no processo.
A iniciativa recebeu apoio da Filmmakers Europe e da Spotlight, entre outras entidades europeias, que endossaram as diretrizes e se alinharam à visão da ICDA. Lana Veenker, presidente da associação, disse que as diretrizes não são contra a tecnologia. “Elas visam garantir que a inovação se desenvolva de forma responsável e em parceria com as pessoas cuja criatividade, conhecimento e meios de subsistência são diretamente afetados por essas tecnologias. A IA pode ser uma ferramenta valiosa, mas nunca deve substituir a percepção humana, a intuição e o discernimento artístico.”
Antes disso, a The Mise En Scène Company (MSC), empresa independente de vendas, produção e distribuição cinematográfica com atuação global com sede em Londres, apresentou o Human Provenance in Film (HPF), um padrão de divulgação de IA gratuito para a indústria cinematográfica e televisiva, e abriu consulta pública no Marché du Film, convidando produtores e distribuidores, além de seguradoras, plataformas e exibidores a participarem.
A taxonomia agrupa o uso de IA em três categorias - Sem IA Utilizada, IA Assistiva e IA Generativa -, com o objetivo de facilitar a integração em documentos de vendas e distribuição existentes, de forma acessível a produções independentes e escalável em toda a cadeia de suprimentos. O padrão é oferecido sob uma licença aberta CC BY 4.0, o que significa que qualquer produtor, distribuidor ou plataforma pode adotá-lo e adaptá-lo livremente, sem custos ou necessidade de permissão, desde que a fonte seja devidamente citada.
A iniciativa surgiu da decisão da MSC de adicionar o selo "Sem uso de IA" aos seus materiais de marketing no Mercado Europeu de Cinema em Berlim, no início deste ano, onde a empresa apresentava Forelock, estrelado por David Krumholtz, e Billy Knight, com Al Pacino e Charlie Heaton. “Precisamos de uma linguagem comum, um entendimento comum e um acordo coletivo da indústria sobre como lidar com a IA. O HPF proporciona isso. É simples, relevante e urgente”, disse Paul Yates, CEO da MSC e porta-voz do modelo.
A norma baseia-se em levantamentos da Deloitte e da Baringa, que mostram que 77% dos consumidores querem saber se o conteúdo foi produzido com IA e que 70% preferem um filme ou programa produzido por humanos a um gerado por IA.
Tanto a taxonomia quanto a Declaração de Intenções Compartilhadas podem ser acessadas no site humanprovenance.film, onde as respostas à consulta estão sendo aceitas até 31 de outubro.
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No início de maio, o The Hollywood Reporter publicou uma lista de 25 pessoas que estão moldando o futuro da indústria cinematográfica através da inteligência artificial. Ela passa por executivos de tecnologia, cineastas consagrados, ativistas e empreendedores. Clique aqui para conferir.
Também vale a pena conferir a reportagem contando como “a revolução da IA que Hollywood temia já está acontecendo na Índia". Sem sindicatos e com pouca regulamentação para amenizar as consequências, o país do sul asiático tem feito muitos experimentos em produção cinematográfica com IA e os resultados podem antecipar o futuro do cinema em todo o mundo.
*Com informações de Cineurope, Reuters, The Hollywood Reporter e Variety
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