Enquanto algumas redes exibirão partidas, outras tentam minimizar impactos no faturamento
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(Foto: Reprodução)
A partir desta quinta-feira (11) os olhos do mundo estarão voltados para México, Estados Unidos e Canadá: é quando será dado o pontapé inicial na Copa do Mundo 2026, com a partida entre México e África do Sul, no histórico Estádio Azteca. No Brasil, o clima de festa pode não ter voltado ao que era antes do famigerado 7 a 1 contra a Alemanha (2014), mas nas últimas semanas viu-se bastante movimentação em torno do evento: seja nas trocas de figurinhas do álbum oficial do campeonato, nos grupos dos amigos marcando encontros para assistir aos jogos, nas ruas pelo país sendo pintadas novamente nas cores verde e amarela.
Isso demonstra que o maior evento de futebol do planeta segue tendo grande peso cultural por aqui. E, claro, impactando diversos setores da sociedade e da economia, incluindo os cinemas e suas operações.
É fato que o cinema deixou de ser exclusivamente um espaço de exibição de filmes e vem se consolidando como uma plataforma de experiências coletivas. E o futebol, e todo seu apelo popular, fazem parte dessa transformação. A exibição da final da Uefa Champions League, maior torneio de futebol entre clubes do mundo, já se tornou parte da programação das salas escuras. A final entre PSG e Arsenal, realizada no último dia 30 de maio, por exemplo, levou mais de 50 mil espectadores aos cinemas. O número indica uma tendência de crescimento, tendo em vista que os públicos foram de 39,2 mil em 2025 e 34 mil em 2024.
Luiz Fernando Morau, CEO da Integradora Digital, afirma que o movimento já é bastante comum no mercado estrangeiro e que a Copa deste ano, por exemplo, já está sendo explorada por exibidores e distribuidores de conteúdo nos Estados Unidos e no Canadá, com parcerias para transmissão de partidas selecionadas em salas de cinema. "Essa transformação é resultado de uma combinação de fatores: a necessidade de diversificação de receitas, a ociosidade de salas em determinados dias e horários, a concorrência direta do streaming e a busca do público por experiências presenciais mais intensas, imersivas e compartilhadas."
Aqui no Brasil, a Cinépolis não exibirá os jogos desta Copa, mas possui experiência nesse tipo de evento: além de a final da Champions League já fazer parte da programação anual da rede, em 2025 também foi transmitida a final do Mundial de Clubes entre PSG e Chelsea. O diretor de programação, Eduardo Chang, , pontua que o interesse do público cresce ano a ano, e explorar essa nova tendência é uma forma de complementar a grade. "Os resultados de crescimento vêm mostrando o interesse das pessoas em assistir a esse tipo de evento dentro da sala de cinema. São grupos de amigos, famílias e até grupos de mulheres que têm procurado essas exibições. Para nós exibidores é de extrema importância esse tipo de conteúdo, o que complementa e qualifica nossa programação e solidifica mais um produto no nosso calendário."
A exibição da Copa do Mundo nos cinemas, de fato, pode ser uma grande oportunidade para redes exibidores atraírem até um novo público, e é necessário ter em mente desafios como direitos de transmissão, negociação com detentores de conteúdo, horários dos jogos, compatibilidade com a grade de filmes, precificação, controle operacional e segurança. "Existem desafios que não anulam a oportunidade. Apenas indicam que a exibição esportiva em cinemas precisa ser tratada como um produto específico, e não como uma simples improvisação dentro da programação tradicional", diz Morau.
Unindo paixões nacionais
Nos meses de junho e julho, o Cine Belas Artes, em São Paulo (SP), irá trocar o silêncio típico das sessões pelo clima de torcida O tradicional cinema de rua irá exibir os três jogos da seleção brasileira na primeira fase do evento e seu presidente, André Sturm, também destacou a possibilidade de conquistar e atrair um novo público. "A Copa do Mundo é um evento que se tornou cultural. Mesmo quem não costuma seguir campeonatos ou torcer por um time, termina engajado e acompanha. É um evento que reúne as pessoas, e o Belas Artes é um local de encontro. Por isso decidimos oferecer essa possibilidade e unir as paixões, certamente trazendo um público novo ao cinema."
A programação também trará um cardápio especial com cervejas e petiscos típicos de bar - como amendoim salgado, japonês e mix de castanhas -, além dos produtos já comercializados dentro do cinema, com opções veganas. Para cada partida do Brasil, haverá um combo de pipoca + ingresso que já está disponível no site e nas bilheterias por R$ 15 e, além disso, será comercializado um passaporte para as três partidas da seleção canarinho por R$ 40. "Nossa atividade principal sempre será a exibição de bons filmes, com luz apagada e silêncio. Mas há e sempre vai haver espaço para outros formatos interessantes", completa Sturm.
Além do Belas Artes, a rede Kinoplex também exibirá os jogos da seleção e terá, inclusive, o combo Torcida Caramelo, com um balde tematizado do Brasil e diferentes pacotes para acompanhar as partidas com a tecnologia e imersão que só os cinemas proporcionam. "Toda forma de lazer sazonal impacta nos resultados do cinema, com a Copa não é diferente. Estamos preparados para esses acontecimentos e sempre buscamos oportunidades em cada um deles", diz Patrícia Cotta, gerente de marketing da rede.
Ela defende que o cinema é um programa alternativo para quem gosta de futebol, visando reunir a torcida e assistir na tela gigante - inclusive oferecendo para shoppings, empresas e outros grupos sessões fechadas para convidados assistirem aos jogos do Brasil -, mas complementa que quem não é fã do esporte seguirá tendo a chance de frequentar as salas, com opções de grandes lançamentos que acontecerão no período.
O CEO da Integradora Digital também faz um alerta para o fato de que as sessões esportivas não têm o mesmo comportamento de uma sessão convencional de cinema. Em vez do silêncio absoluto, o público busca uma energia coletiva onde se sente parte do que está sendo projetado na tela. "Isso não deve ser visto como problema, mas como parte do produto. A lógica é outra. Para receber bem esse público, os cinemas precisam ajustar a operação. Isso envolve comunicação clara sobre o tipo de sessão, treinamento das equipes, reforço na bomboniere, organização de entrada e saída, controle de bebidas, política de comportamento, segurança, limpeza, sinalização e eventualmente a separação de salas ou horários específicos para esse tipo de evento. É importante que o público saiba, antes de comprar o ingresso, que aquela não será uma sessão convencional."
Meu cinema não vai exibir os jogos, e agora?
Uma das grandes preocupações de exibidores que não transmitem os jogos da Copa é a concorrência com uma grande paixão nacional e possível queda de faturamento no período. Bruno Virgílio, gerente de programação do Cine Marquise, pontua que diversos cinemas acabam alterando ou até suspendendo temporariamente suas atividades em razão da queda na procura por sessões que coincidem com os horários dos jogos. "O principal impacto é a queda relevante na venda de ingressos e também nos produtos de bomboniere, que representam uma importante fonte de receita para os exibidores", destaca.
Para minimizar esses impactos, os cinemas podem adotar estratégias como readequar os horários, concentrando as sessões antes ou depois dos jogos, oferecer promoções e descontos especiais, além de promover ações temáticas relacionadas à Copa. “Essas iniciativas ajudam a manter o interesse do público, reduzir as perdas de receita e a atratividade do cinema nestes dias."
Além disso, os exibidores podem se aproveitar do período trazendo uma programação mais diversificada, com filmes de nicho, produções independentes e conteúdos alternativos, como uma estratégia para atrair tanto espectadores que não têm grande interesse pelo futebol, quanto novos públicos que normalmente não frequentam o cinema. "Sessões especiais, eventos temáticos e ações voltadas para grupos de amigos e famílias que buscam opções de entretenimento. Essas iniciativas não apenas ajudam a manter o fluxo de público e a venda de ingressos, mas também estimulam o consumo na bomboniere, contribuindo para minimizar os impactos do período e fortalecer o relacionamento com os clientes", indica o programador do Cine Marquise.
E, com olhar estratégico, mesmo sem exibir as partidas, ainda é possível unir cinema e futebol, universos que trabalham com emoção, torcida, narrativa, comunidade e memória afetiva, para criar possibilidades de ações com marcas, combos especiais e ativações com clubes e influenciadores, por exemplo.
A Cinépolis, por exemplo, lançou uma promoção para membros do Club Cinépolis em parceria com a Coca-Cola para levar duas pessoas e seus acompanhantes para acompanharem jogos da Copa no México e nos Estados Unidos, e também lançou um balde de pipoca inspirado na paixão pelo futebol. O item com design inspirado em uma bola de futebol pode ser adquirido em todas as unidades da rede na compra de um combo participante com produtos Coca-Cola, mediante o acréscimo de R$ 59, ou de forma individual por R$ 99. "Buscamos constantemente criar experiências que vão além da exibição dos filmes. Em um ano em que o futebol ganha ainda mais protagonismo, esse lançamento conecta dois universos com enorme apelo afetivo e cultural em um produto exclusivo, divertido e pensado especialmente para os nossos clientes e colecionadores", conta Luiz Fernando Angi, gerente de marketing da rede.
Luiz Fernando Morau lembra que é importante que os exibidores não olhem para a Copa apenas como "transmissão de jogo", mas como um evento que aproveite o grande diferencial do cinema: a tela grande, o som de alta qualidade, o conforto, a infraestrutura e a experiência coletiva. "Quando esses atributos são aplicados a conteúdos ao vivo ou eventos especiais, abre-se uma nova frente de negócio muito relevante para os exibidores. Não se trata de uma substituição da programação convencional, mas de uma ampliação inteligente da vocação dos cinemas. As salas continuarão sendo prioritariamente espaços para filmes, mas os conteúdos alternativos passarão a ocupar janelas estratégicas, especialmente em horários de menor ocupação, datas especiais e eventos com forte capacidade de mobilização social."