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08 Maio 2026 | Mônica Herculano

O que a Índia pode ensinar sobre experiências coletivas no cinema

Em entrevista exclusivaa o Portal Exibidor, Naveen Kl conta como os indianos transformaram plateias em parte do espetáculo

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(Foto: Reprodução)

Naveen Kl vem de uma família que está há três gerações no cinema. Seu avô era proprietário de uma sala em uma pequena cidade da Índia e ele cresceu assistindo a inúmeros filmes, sempre assobiando, batendo palmas e dançando nos corredores. Nos últimos anos, foi produtor criativo da Arka Media Works, contribuindo para projetos da Netflix e da Disney+ e integrou a alta gestão da Qube, principal empresa de cinema digital da Índia, liderando a área de estratégia.



Naveen esteve em Salvador (BA) no final de março, a convite da organização do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema. Em um painel ao lado de José Eduardo Ferrão, da AUWE, ele falou sobre a experiência do cinema em seu país, mostrando não apenas imagens de como são as exibições por lá (clique aquiaqui para ver amostras), mas também reações a filmes indianos nos Estados Unidos, por exemplo, e números:

  • - 90% dos filmes exibidos são indianos, apenas 10% de Hollywood;
  • - mais de 1.800 filmes são produzidos por ano no país (3x mais do que a indústria norte-americana);
  • - mais de 19.500 salas no país;
  • - R$ 7,68 bilhões de receita anual de bilheteria.

Lá, apenas para a exibição de um trailer, por exemplo, promovem-se grandes eventos como este: Varanasi - que apresentou o próximo filme do renomado diretor S.S. Rajamouli, com estreia prevista para 2027.

Em entrevista exclusiva ao Portal Exibidor, Naveen falou sobre o comportamento do público indiano nas salas e o potencial desse tipo de experiência em países como o Brasil.

Na Índia, é comum ver o público cantando, dançando e reagindo intensamente durante as sessões. De onde vem essa relação tão participativa com o cinema? Ela está mais ligada à tradição cultural, ao tipo de narrativa dos filmes ou à forma como a experiência é construída nas salas?

A resposta curta é: os três fatores. Mas tudo começou com as tradições culturais, que moldaram as formas como as histórias são contadas. Na Índia, as performances culturais nunca foram passivas. Nossa forma de contar histórias começou com encenações de sequências dos grandes épicos Mahabharata e Ramayana, por meio de múltiplas formas tradicionais de arte como Burrakatha, Kathakali e Yakshagna (formas tradicionais de teatro, dança e artes performáticas da Índia). Essas apresentações celebravam nossas divindades regionais como Rama, Krishna e outras, e todas pressupunham um público participativo: o público cantando junto, entoando cânticos, batendo palmas e celebrando as vitórias dos personagens principais.

E o cinema indiano continuou essa forma de narrativa em uma escala muito maior e grandiosa, especialmente com nossas músicas, e com algo que provavelmente é único do cinema indiano: o “Interval Bang”. A maioria dos filmes indianos tem pelo menos 2h30 de duração e, como diz a expressão, “o tamanho da bexiga humana define a duração do seu filme” (sugerindo que a duração ideal de um filme não deve exceder o limite de conforto físico do público, normalmente entre 90 e 120 minutos).

Então eles têm uma pausa na metade do filme chamada “Interval”. E os cineastas indianos encontraram uma das maneiras mais únicas de usar essa pausa para criar um pico narrativo, chamado “Interval Bang”. É quando eles deixam o público em um estado elevado de emoção e antecipação sobre como a história irá se desenrolar na segunda metade. E essa pausa também aumenta a receita do cinema, porque o público sai para o intervalo e acaba comprando pipoca. Há discussão, argumentação, previsões, corridas para comprar comida, telefonemas. O intervalo faz parte da experiência do filme.

A experiência teatral ampliou ainda mais isso, especialmente nos cinemas que chamamos de “single screen theatres” (com no máximo uma ou duas salas, diferente dos multiplex modernos). Esses cinemas têm diferentes faixas de preço e uma seção mais barata, popularmente chamada de “front benchers” ou “mass audience”, que os cineastas consideravam o público definitivo. É ali que assobiar, jogar coisas e cantar junto não apenas são permitidos, mas esperados.

Esse tipo de participação faz parte de uma expectativa do público ao ir ao cinema na Índia? Existe uma espécie de “código compartilhado” sobre como se comportar durante a sessão?

Onde você assiste a um filme e quando você o assiste também definem o quanto você será participativo como público. O público popular dos cinemas single-screen, mencionado acima, possui o código mais ativo, vocal e físico. São pessoas comuns que vão assistir a um filme para provavelmente esquecer seus problemas da vida real e se perder em um mundo mágico de narrativa, onde seu ator favorito canta, dança e luta contra os vilões. Eles batem palmas, assobiam, gritam e se entregam completamente ao filme.

As sessões de estreia para fãs, que às vezes começam à 1h da manhã, e as FDFS (First Day First Show) são uma categoria à parte, onde as regras normais são suspensas para cima. Os fãs que organizam essas sessões muitas vezes estão performando uns para os outros tanto quanto reagindo ao filme. Você não está apenas assistindo ao filme, está demonstrando seu fandom para a pessoa ao seu lado. Entrar em uma FDFS sem saber disso é como entrar em um setor de torcida de estádio de futebol e se surpreender com o barulho — literalmente você não vai ouvir nada da trilha sonora do filme.

O público dos multiplexes é mais silencioso, mais internalizado, embora ainda mais expressivo do que, por exemplo, um cinema brasileiro ou londrino. Explosões acontecem, mas são contidas.

Esse tipo de comportamento também é incentivado de alguma forma pela indústria, seja na direção dos filmes, na exibição ou até nas campanhas de lançamento?

Na Índia, as crianças vão ao cinema com os pais e avós desde muito pequenas. Ir ao cinema é como um evento familiar e, quando criança, você vê o adulto ao seu lado assobiar quando o herói aparece e entende, sem que ninguém precise dizer, que é assim que aquilo deve ser sentido. Quando você já tem idade suficiente para ir sozinho, esse instinto já está no seu corpo e é espontâneo. Não existe nada te segurando e o cinema não é um lugar onde você vai para sentar quieto no escuro. É um lugar para pertencer. Você ri, grita e assobia junto com as outras pessoas na sala.

Os cineastas comerciais indianos pensam particularmente em termos do que chamamos de “whistle moments” ou “mass moments”. Cenas cujo principal propósito é provocar uma resposta coletiva específica do público. A entrada do herói em câmera lenta, um passo de dança aparentemente impossível ao som de uma música contagiante, o gancho dramático do intervalo, uma única frase dita com peso suficiente para fazer mil pessoas se levantarem. Esses não são acidentes narrativos. Eles são escritos, filmados, musicados e editados tendo a reação da plateia como principal métrica de sucesso.

Os “cutouts” levam essas emoções para fora do cinema. Cutouts são enormes painéis pintados ou impressos dos atores principais, às vezes com três andares de altura, erguidos do lado de fora dos cinemas e financiados por fã-clubes. As pessoas vão até eles para tirar fotos, derramar leite sobre eles, colocar guirlandas. Essa energia entra na sala junto com o público.

No nível do marketing, os lançamentos de teasers e trailers são feitos como grandes eventos, frequentados por dezenas de milhares de fãs e assistidos por milhões online. O principal objetivo é criar antecipação para o filme e esperar que essa energia eventualmente entre no cinema. Quando o público se senta para a FDFS (First Day First Show), ele já foi emocionalmente preparado durante semanas para extravasar seu entusiasmo dentro das salas. Reações e memes de cenas famosas circulam amplamente no YouTube, Instagram e WhatsApp antes mesmo de muitas pessoas verem o filme. Quando um grande filme é lançado, vídeos de reação das sessões FDFS viralizam antes que a maior parte do público tenha assistido. Isso aumenta as expectativas e o público entra no cinema já preparado para celebrar pessoalmente aqueles momentos.

Na sua visão, essa experiência mais participativa poderia se desenvolver em outros mercados, como o Brasil? O que precisaria acontecer em termos de conteúdo, público ou estratégia de exibição para que isso se torne mais comum?

Eu acho que sim, absolutamente. E não estou dizendo isso como teoria. Eu estava lá quando isso aconteceu recentemente no Brasil. No Cine Glauber Rocha, em Salvador, exibimos um filme indiano chamado Eega (Mosca), um filme em língua telugu sobre um homem que reencarna como uma mosca doméstica para se vingar do homem que o matou. Esse não é um filme fácil de explicar para alguém que não cresceu assistindo ao cinema indiano. E nós só tínhamos legendas em português, mas o público de Salvador não precisou de explicação. Eles se apaixonaram por uma mosca. Estavam gritando por ela, torcendo por ela, completamente envolvidos na história.

Depois da sessão, as pessoas vieram me procurar especificamente para dizer o que tinham sentido. Não apenas que tinham gostado do filme, mas que algo tinha acontecido com elas naquele cinema que nunca haviam sentido antes. Vários exibidores independentes vieram perguntar se poderiam fazer uma semana inteira de cinema indiano, não para públicos de nicho, mas para o público regular deles. Eles queriam que suas plateias tivessem aquela experiência.

Já vimos versões disso antes. O Japão, que possui algumas das plateias de cinema mais silenciosas e atentas do mundo, teve sessões especiais de Baahubali e RRR (consideradas obras-primas de S.S. Rajamouli). Essas sessões eram chamadas de “screaming shows”, onde o público japonês cantava junto, comemorava e reagia exatamente como nosso público popular faria na Índia. O público americano no TCL Chinese Theatre, em Hollywood, dançou e gritou durante RRR. Esses não são públicos indianos. Eles não têm relação prévia com a gramática do nosso cinema. Mas reagiram da mesma forma.

O que isso me diz é que esse instinto não é algo que nós, na Índia, temos e os outros não. Isso é humano. O que o cinema indiano possui são 100 anos descobrindo como provocar essa participação do público: através das histórias que contamos, da maneira como desenhamos a experiência teatral e da cultura de fãs que construímos ao redor dos filmes.

O Brasil já possui isso em sua cultura. Você vê isso no futebol, na música, no carnaval, na maneira como as pessoas ocupam os espaços públicos juntas. O que talvez falte é um conteúdo cinematográfico que dê permissão para que essa mesma energia entre em uma sala escura. E, pelo que vi em Salvador, e pelas conversas que tive com exibidores genuinamente famintos por isso, acho que o Brasil está mais próximo disso do que a maioria das pessoas imagina.

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